
A vida, em sua aparente solidez, vez ou outra fica mais densa repentinamente. Ao longo dos dias, muitos se esquecem de que, em um instante qualquer, um evento nasce para interromper planos e marcar com traumas. Essas rupturas biográficas surgem com roteiros desafiadores e emocionantes. Renascer das cinzas depois de estar diante do abismo não é uma tarefa fácil. Mesmo assim, existem aqueles que se recusam a desistir.
Tudo começou em abril de 2017, nesses momentos tão banais que quase são automáticos. Depois de uma prova na Universidade de Brasília (UnB), Lucas Moreira, então com 19 anos, decidiu sair para um bar na companhia do melhor amigo. Durante o passeio, sentiu uma dor dilacerante no peito. "Tomei um remédio, mas simplesmente não parava. Até deitei no carro, mas não passou", relembra.
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Com isso, ao ver Lucas desesperado, o colega resolveu levá-lo a uma unidade hospitalar. "Mal conseguia respirar de tanta dor. No hospital, entrei como urgência por suspeita de infarto. Fizeram os exames, mas não detectaram nada relacionado", conta. Descartada essa opção, novas avaliações foram feitas, já que o incômodo na região do peito não passava.
"Descobriram uma massa entre o coração e o pulmão que havia fraturado o meu esterno (osso no meio do peito), e isso estava causando a dor intensa e me obrigando a tomar morfina", detalha Lucas. O jovem precisou ficar internado por 18 dias, com diversas intercorrências médicas ao longo desse período. Até que, enfim, o diagnóstico não esperado apareceu. "A biópsia confirmou que era uma neoplasia maligna (câncer), um seminoma de mediastino", detalha.
Dias de luta, dias de glória
"A quimioterapia foi a pior coisa que já aconteceu na minha vida", recorda Lucas. O hoje professor de matemática de 28 anos viveu uma jornada repleta de obstáculos. Perda do olfato e do paladar, imunidade debilitada, internações recorrentes e fortes enjoos. Eternos foram os dias antes de chegar à tão desejada cura. Mesmo após a remissão inicial, o desafio persistia sob a forma de uma massa residual benigna que, se crescesse, seria inoperável devido à localização delicada.
Em junho de 2019, Lucas enfrentou uma cirurgia de alta complexidade. Foram 18 horas intubado, com um pulmão colapsado propositalmente pelos médicos para permitir o acesso ao tórax. O procedimento foi um sucesso, mas deixou uma marca: a paralisia de uma das cordas vocais. A voz rouca, que seus alunos carinhosamente apelidaram de "voz de Pato Donald", é o lembrete diário de sua vitória. E, mais do que isso, de uma batalha que travou sorrindo.
"O psicológico é o mais afetado pela doença. As pessoas param de te enxergar como ser humano e começam a ver unicamente o tratamento", reflete. Para ele, o diferencial foi o grupo de amigos que se recusou a tratá-lo como "paciente", mantendo a rotina e o humor — inclusive com o apelido de "Voldemort" nos dias de perda de cabelo. A cura definitiva veio em 2022, cinco anos após o primeiro sintoma, celebrada com uma ligação de seu oncologista.
Enfrentando gatilhos
A experiência de um evento traumático ou o recebimento de um diagnóstico de doença grave são momentos que dividem a vida em antes e depois. Lidar com as cicatrizes invisíveis deixadas por essas situações exige não apenas resiliência, mas uma compreensão profunda de como a mente e o corpo reagem sob pressão extrema. Para desvendar esses processos, Aline Agustinho da Silva, mestra em psicologia e docente na Uniceplac, explica os mecanismos cerebrais do trauma.
De acordo com a professora, quando vivenciado um trauma, o cérebro entra em estado de alerta máximo para garantir defesa. Nesse processo, estruturas como a amígdala — responsável pela detecção de ameaças — ficam hiperativadas, enquanto o hipocampo, ligado à memória, sofre prejuízos. "Isso faz com que a experiência costume ser registrada de forma fragmentada, intensa e, muitas vezes, desorganizada", explica a psicóloga.
Ela diferencia a resposta natural do organismo do desenvolvimento de um transtorno crônico. O estresse agudo é uma reação esperada nas semanas seguintes ao evento. Contudo, o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) se instala quando sintomas como flashbacks (revivescência), evitação de situações que lembrem o trauma, alterações de humor e hiperalerta persistem por mais de um mês, comprometendo a vida do indivíduo.
Para quem convive com o trauma, os "gatilhos" emocionais são desafios constantes. Aline ressalta que o primeiro passo é reconhecer que essas respostas são automáticas do sistema nervoso e fogem ao controle do paciente. Estratégias como a respiração diafragmática, técnicas de grounding (ancoragem no presente), psicoterapia e a identificação gradual desses gatilhos são essenciais para devolver a previsibilidade à vida do paciente.
A especialista alerta, ainda, para o perigo da repressão emocional, um mecanismo de defesa no qual se tenta "empurrar" a dor para fora da consciência. "Nesse caso, o conteúdo não é elaborado e pode se manifestar indiretamente por meio de sintomas físicos", afirma. O esforço psíquico para reprimir memórias mantém o cortisol elevado, o que, a longo prazo, resulta em insônia, fadiga crônica, dores musculares e problemas gastrointestinais. A solução, segundo a mestre, é a integração da experiência: o evento não é esquecido, mas deixa de produzir sofrimento incapacitante quando encontra suporte para ser elaborado.
Com apoio e amor
Ano passado, enquanto tomava um banho, Paolla Ábatha Gomes, 33 anos, percebeu sinais pequenos na região da mama. No início, pensou não ser nada demais, até decidir investigar melhor. "Quando veio o diagnóstico de câncer de mama, foi um choque. Parece que o chão some por alguns segundos. Mas, ao mesmo tempo, foi o começo de uma nova fase da minha vida. Estava com 32 anos e totalmente fora das estatísticas", conta.
Desse momento em diante, tudo ficou diferente. A forma como encarava os dias não foi mais igual. Certamente, as perspectivas e os valores mudaram, especialmente quando relacionados à família e aos amigos. "Passei a valorizar mais o tempo, as pessoas e a minha saúde. Coisas que antes eram prioridade perderam o sentido, e outras, muito mais simples, ganharam um valor enorme. Foi como se eu tivesse acordado para a vida de verdade."
A maternidade, durante todo o período de tratamento, foi aquele combustível para aguentar os dias difíceis. Deu mais forças. Os desafios, sem dúvidas, impactaram significativamente a rotina da gestora de RH. Lidar com o medo, a incerteza e manter a esperança não é fácil. Além disso, precisou aprender a ser forte mesmo naqueles instantes que pareciam ser eternos. "Perder o cabelo e também a minha mama foi muito desafiador, mas, com muito amor, consegui superar essas fases", completa.
Agora, Paolla entra em remissão da doença e afirma com felicidade: "Já não tenho mais câncer". A jornada, apesar de árdua, veio recheada de ensinamentos, sobretudo fé, resiliência e amor. E, principalmente, que ninguém está sozinho, pelo menos não o quanto pensa estar. "Sempre tem alguém disposto a estender a mão. Tive muito acolhimento nas redes sociais, onde falo sobre o câncer e, principalmente, sobre a minha família e os amigos", detalha.
Para além desse suporte dentro de casa, foi fora dela que encontrou outra forma de superar o câncer. "A atividade física me salvou e continua me salvando todos os dias. Mesmo durante a quimioterapia, não parei de me exercitar. Foi nesse período que comecei algo que nunca imaginei conseguir: correr. Hoje, já estou alcançando meus 5km e estou ansiosa para participar da minha primeira corrida de rua", finaliza.
A queda e o milagre
Sair de casa para se aventurar é a premissa dos apaixonados pela vida. Esquecer-se dos problemas e se juntar aos amigos é, na visão de muitos, um desejo constante. Em novembro de 2015, a administradora Viviane Ramos Elias, 43 anos, visitou o Buraco das Araras, em Mato Grosso do Sul. Mas o lazer que buscava acabou se transformando no maior de seus pesadelos. Uma corda nova e encerada não ofereceu a frenagem necessária durante um rapel. Viviane despencou 80 metros abaixo, batendo contra o paredão rochoso com uma violência que interrompeu sua respiração.
"Eu sentia meu corpo batendo com muita força e a sensação de estar quebrando meus ossos. Realmente passa um filme muito rápido da vida", conta. No chão, com quatro vértebras fraturadas, pneumotórax e perda de movimentos na mão direita, o medo da morte era palpável. "A única coisa que eu conseguia lembrar era da minha vó dizendo para eu tomar cuidado, só queria pedir perdão por ter sido desobediente", lembra.
Quando já estava no chão, imaginou que seriam os últimos minutos de vida. De acordo com Viviane, a dor no peito e a falta de ar eram insuportáveis. "Disse para minha prima falar à minha mãe que eu a amava muito", recorda-se. No entanto, permaneceu viva, apesar das sequelas. A recuperação foi um exercício enorme de resiliência. Foram anos de fisioterapia, RPG e acupuntura para lidar com a dor crônica e neuropática.
Agora, não se vê fazendo rapel, especialmente pelas promessas que fez aos que tanto se preocuparam com ela durante os momentos de aflição. "De qualquer forma, acho que não faria mais mesmo, fiquei realmente traumatizada. Depois do acidente, continuei a fazer apenas trilhas e mergulho", detalha Viviane.
Depois de praticamente renascer, a administradora vê como todo o processo foi difícil e doloroso. "Tenho certeza de que vivi um milagre. Isso aumentou ainda mais a minha fé e uniu a minha família." De certo modo, precisou repensar toda a vida. Erros, acertos e sonhos pela frente. O filme que precede a morte, visto por Viviane, só reforçou o que sempre esteve perto — e o que era importante. Depois de renascer, ela passou a viajar pelo mundo, em aventuras um pouco mais comedidas.
"A fé e a esperança de voltar a trabalhar, poder viajar, fazer atividade física, me divertir me impulsionaram a acreditar em um futuro melhor. Passados 10 anos, me impressiono com a força que tive, e tenho certeza que foi Deus que cuidou de mim. Foi realmente um renascimento. Tornei-me uma pessoa muito mais resiliente e empática também. Tenho muito mais vontade de me conectar com pessoas, conhecer lugares, passar mais tempo apreciando a natureza. Faço questão de estar junto com a minha família e os meus amigos."
Como superar um trauma?
Na jornada da saúde mental, a linha que separa o enfrentamento da negação é tênue, mas determinante para o bem-estar do organismo como um todo. Segundo a psicanalista Edilene Carneiro, superar um trauma não tem relação com o esquecimento, mas, sim, com a capacidade de integrar a experiência à história psíquica do indivíduo, retirando dela o excesso de carga emocional. Enquanto o enfrentamento permite que a pessoa reconheça o ocorrido e elabore sentimentos complexos como medo, culpa e raiva, a repressão atua como um mecanismo inconsciente que apenas "esconde" a dor, mantendo-a ativa e perigosa.
Dentro da perspectiva clínica, a diferença entre os dois caminhos é nítida. Superar é sinônimo de elaborar: dar significado ao evento e reduzir seu impacto ao longo do tempo. Já reprimir significa evitar o pensamento ou a fala sobre o ocorrido, tentando negar o fato. "Superar é elaborar; reprimir é esconder, mas o inconsciente continua falando", pontua a especialista. Embora a repressão seja um mecanismo de defesa fundamental descrito por Freud, quando prolongada, torna-se o gatilho para o que a psicanálise e a psicossomática chamam de somatização.
Segundo a psicanalista, esse fenômeno ocorre quando conflitos psíquicos não resolvidos buscam uma saída por meio do corpo. Quando emoções intensas não são simbolizadas — ou seja, transformadas em palavras e compreensão — o organismo permanece em estado de alerta constante. "Esse estresse crônico ativa sistemas fisiológicos de forma ininterrupta, gerando danos severos à saúde a longo prazo. Estudos de autores renomados na área, como Franz Alexander e Pierre Marty, reforçam que o que não é elaborado pela mente acaba sendo expresso pela biologia", esclarece Edilene.
Em síntese, o silêncio emocional tem um custo físico elevado. O trabalho terapêutico, portanto, não visa apagar a lembrança do trauma, mas oferecer o suporte necessário para que o paciente encontre palavras para o que antes estava mudo. Ao transformar a dor em experiência compreendida, evita-se que o corpo precise adoecer para sinalizar um sofrimento que a consciência tentou ignorar.
O esgotamento emocional
Diferentemente de Lucas e Viviane, a gerente de governança Juliana Oliveira, 45, não enfrentou um tumor ou uma queda de rapel. Seu trauma foi o excesso. Deixou passar despercebidos sentimentos que transcenderam o mental e chegaram ao corpo. E quando tocaram o físico, quase foi tarde demais. Em outubro do ano passado, ela equilibrava eventos de grandes marcas e outras tarefas não profissionais. O cansaço extremo foi o gatilho. Às 23h30, após um dia inteiro de trabalho, ela dormiu ao volante na L4 Sul.
"Estava muito cansada. Vi uma mureta, mas não consegui desviar. Era um cansaço tão grande que eu só não tive forças para ter atitude", relata. O impacto acionou o airbag, queimando seu pescoço e deixando suas unhas roxas pela força com que agarrou o volante. O carro deu perda total, e os familiares foram socorrê-la. Ainda em estado de choque, deixou o esgotamento físico e emocional para depois.
Entretanto, após uma semana, o preço de jogar as emoções para debaixo do tapete apareceriam de novo. Ainda abalada e dirigindo um carro reserva, Juliana foi arrastada por um caminhão na subida da DF-150 por quase 300 metros. "Aí eu colapsei. Fui parar no psiquiatra. Não foi nada grave fisicamente, mas o caminhão me arrastando me fez quebrar emocionalmente."
A medicação e o acompanhamento psiquiátrico foram o ponto de partida para uma reestruturação radical. Juliana mudou de emprego e de hábitos, compreendendo que a cultura do workaholic é um caminho de autodestruição. "Nenhum CNPJ vale a sua vida. A gente ignora muito a saúde mental", alerta. Hoje, também enxerga a atividade física regular não como estética, mas como uma ferramenta indispensável para manter a mente funcional.

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