
"Quem cuida de mim? Estou cansada de apenas cuidar da minha comunidade." A pergunta atravessa o silêncio antes de qualquer resposta. A frase vem da Marta Kalunga, idealizadora da Casa Memória Mulher Kalunga, espaço que todos os dias cuida de outras mulheres, de memórias, de saberes e de um território inteiro. Uma mulher que sustenta, com as próprias mãos, aquilo que mantém viva uma das culturas mais antigas do país.
É dentro da Casa Memória, localizada na rota da Chapada dos Veadeiros — A trilha Caminho dos Veadeiros tem seu ponto de início no município de Formosa, passando por Planaltina, Água Fria de Goiás, São João d´Aliança, Alto Paraíso de Goiás, Colinas do Sul e Cavalcante, sendo os quatro últimos parte da Chapada dos Veadeiros —, que essa pergunta ganha corpo. Ali, o tempo não é linear: ele se mistura entre teares, fotografias, livros, objetos e relatos que atravessam gerações. O espaço está além de um ponto turístico, é um arquivo vivo, construído a partir da experiência de quem sempre existiu, mesmo quando não era reconhecido.
A casa, hoje conhecida por visitantes e pesquisadores, ganhou ainda mais visibilidade após produções audiovisuais e documentários. Mas sua existência não começou com o reconhecimento externo. Durante a pandemia, sem recursos, Marta — responsável pelo espaço — precisou reinventar o próprio trabalho. Foi nesse momento que aprendeu a tecer, literalmente, novas formas de sustento por meio do tear.
O que antes era apenas resistência de um local, virou também criação. A Casa Memória se transformou em um espaço multifuncional: loja de produtos, ponto de encontro cultural, recentemente, também, uma biblioteca quilombola, inspirada por uma professora que levou 38 alunos até o local. Um gesto que ampliou ainda mais o sentido do espaço como território de educação e permanência. O lugar conta com um cinema itinerante, que, por falta de recursos, no seu início, dependeu de projetores cedido pelo Estado. Hoje, após uma rifa, Marta tem o próprio projetor, levando o cinema para outros lugares de Cavalcante. A ideia surgiu após produções audiovisuais feitas na comunidade, às quais a população não tinha acesso.
Mas a pergunta continua ali, atravessando tudo: quem ampara quem sustenta? Porque por trás de cada iniciativa, cada tradição mantida e cada história contada, existe um esforço contínuo que nem sempre encontra apoio suficiente para seguir.
O território quilombola Kalunga, onde tudo isso acontece, é o maior do Brasil. São cerca de 39 comunidades espalhadas entre os municípios goianos de Cavalcante, Monte Alegre e Teresina de Goiás, somando mais de 120 famílias, cerca de 8 mil pessoas. Um território que existe há mais de três séculos e que foi construído a partir da fuga, da resistência e da permanência. Atualmente, o terreno conta com cerca de 263 mil hectares, maior que o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, que possui área de 240 mil hectares.
Território de luta antes do reconhecimento
Antes de qualquer política pública, qualquer decreto ou qualquer reconhecimento institucional, o território Kalunga já existia como espaço de resistência. Foi formado por africanos escravizados que fugiram, por indígenas, por famílias que encontraram nas serras e nos vales um refúgio possível. Um território que nasceu da necessidade de sobreviver e que, com o tempo, tornou-se símbolo de identidade.
Para o líder comunitário e morador da comunidade Engenho II Cirilo Santos, 71 anos, ser quilombola é carregar essa história no corpo e na memória. "Para mim, é uma honra ser quilombola, porque significa luta, conquista, fé e coragem também. É tudo um pouco disso." A fala dele não é apenas simbólica — é a tradução de uma trajetória marcada por enfrentamentos constantes.
Cirilo lembra que o território nunca foi garantido. Foi conquistado. E segue sendo defendido. "Esse território é o único quintal que os Kalungas têm. Se perdemos ele, não temos para onde ir." A frase resume uma realidade que ainda hoje se impõe: a permanência no território não é apenas um direito, é uma necessidade vital para o quilombo.
A regularização fundiária, segundo ele, é uma luta de mais de três décadas, que envolveu rejeição, ameaças, invisibilidade institucional e resistência coletiva. "Não foi fácil. A gente era muito rejeitado para fazer nossa reivindicação. Só depois que foi demarcado começaram a olhar para nós com outros olhos". Embora o reconhecimento oficial como Sítio Histórico e Patrimônio Cultural pelo governo de Goiás tenha ocorrido em 1991, a titulação definitiva tem sido feita por etapas ao longo dos anos.
Durante esse processo, muitas famílias enfrentaram situações extremas. Houve períodos em que roças foram destruídas, casas queimadas e comunidades pressionadas por fazendeiros. Entre 1977 e 1996, segundo relatos locais, parte do território foi alvo de invasões que colocaram em risco não apenas a terra, mas a própria sobrevivência das famílias.
Foi nesse contexto que as lideranças começaram a se organizar. A criação de entidades, como a Associação Quilombo Kalunga (AQK), foi fundamental para dar voz à comunidade. E nomes como o de Cirilo passaram a representar não apenas uma liderança local, mas uma articulação política em defesa do território. Em março de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entregou títulos de domínio adicionais ao território.
Memória que resiste no corpo e na terra
Para além dos mais conhecidos na região, outras vozes ajudam a reconstruir a história do território. Jorge Moreira, ex-presidente da AQK, também integrante de lideranças comunitárias, recorre à memória como ferramenta de preservação. Para ele, contar histórias é uma forma de manter vivo aquilo que não está nos livros. Durante sua presidência, Jorge lembra ter visitado comunidades mais "esquecidas" do quilombo, como a Taboca — criada por ex-escravizados que fugiram para montanhas de difícil acesso, no intuito de terem uma vida livre.
"Quando a gente vai contar uma história, lembra de uma fogueira. Porque é ao redor dela que saem os casos, as memórias." A imagem da fogueira funciona como metáfora de uma cultura que se transmite pela oralidade, pelo encontro e pela partilha.
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Jorge também fala dos vestígios físicos deixados pela história da escravidão na região. Muros de pedra, pilões utilizados para moer ouro, trilhas antigas e áreas de garimpo ainda existem como marcas visíveis de um passado de exploração. "Quando eu vi aquele pilão de pedra, comecei a passar mal. Porque eu pensei: meus ancenstrais passaram por aqui, trabalhando sem nada em troca."
Além disso, ele relembra práticas antigas que garantiam a sobrevivência das famílias. Uma delas era o mutirão de mulheres que quebravam coco para extrair óleo. "Encontraram os ossos de coco no lugar. Isso prova que realmente existia esse trabalho coletivo das mulheres para alimentar suas famílias". O passado ainda se manifesta no presente, seja nos objetos, nas práticas, seja nas memórias que continuam sendo transmitidas.
Turismo: sustento e dependência
Com o passar dos anos, o território Kalunga passou a se conectar com o turismo. Na comunidade Engenho II, a prática representa cerca de 75% da renda local. A guia turística Júlia dos Santos, 24 anos, explica como essa atividade impacta toda a dinâmica econômica. "Se não tem turismo, não tem dinheiro. Aí você não compra no mercado, quem planta não vende para o restaurante. Tudo gira em torno do turismo."
Júlia nasceu na comunidade e atua como guia há quatro anos, após passar por um processo de formação que durou sete anos. Sua atuação não se limita a acompanhar visitantes, ela faz parte de um sistema que envolve agricultores, comerciantes e prestadores de serviço.
Os principais atrativos da região incluem as cachoeiras Santa Bárbara, Capivara e Candaru, além dos restaurantes e das pousadas que oferecem uma experiência baseada na cultura local. "Os restaurantes também são atrativos. A culinária faz parte da experiência", explica. A comunidade conta com restaurante, no qual a comida é produzida com produtos típicos do local.
Mas essa dependência do turismo também gera preocupação, porque, ao mesmo tempo em que sustenta, também torna a comunidade vulnerável a oscilações externas. Sem visitantes, toda a cadeia econômica é impactada. E, assim, os outros 25% da renda surge: a agricultura familiar.
Se Júlia representa o presente que cresce com o turismo, Januária Moreira simboliza o caminho de ida e volta que muitas pessoas fizeram ao longo dos anos. Ela começou a trabalhar ainda criança, aos 11 anos, em casas de família. Não recebia dinheiro. Recebia cadernos, roupas usadas. O primeiro pagamento em dinheiro só veio aos 18. A infância foi marcada por escassez. Família grande, dependência da roça, períodos de fome. O turismo existia, mas não como hoje. "Era mais visita. Às vezes, a pessoa comia e ia embora, nem pagava."
Januária saiu da comunidade em busca de melhores condições. Mas voltou. Voltou no ano 2000, quando percebeu mudanças no território. Energia elétrica, melhorias estruturais, novas possibilidades, principalmente com fluxo de visitantes. Hoje, ela tem uma lanchonete. Serve café da manhã, refeições, bebidas. E reconhece: sem o turismo, não seria possível manter o negócio. "Nem o freezer eu teria conseguido comprar."
Tradição e continuidade
Se o turismo traz o sustento econômico, é a cultura que dá suporte à identidade. E no território Kalunga, essa cultura não é algo que se aprende em livros, ela é vivida no cotidiano. A dança sussa é um dos principais exemplos culturais. Presente em festas, celebrações e no dia a dia, ela é transmitida de geração para geração. A secretária municipal de turismo e cultura de Cavalcante, Dominga Natália Moreira, explica que o aprendizado acontece de forma natural. "É no convívio. Na escola, no recreio, nas festas. Sempre foi assim."
As saias rodadas, geralmente feitas de chita colorida, representam alegria e movimento. Os instrumentos utilizados — como o tambor, que imita o som da onça, o pandeiro e a chocada — são produzidos na própria comunidade, com madeira e couro de animais.
A professora Eva Lúcia, que ensina a dança há cerca de quatro anos, observa que o interesse das crianças é fundamental para a continuidade da tradição. "Elas gostam, levam para casa, ensinam para a família. Isso a mantém viva." Articuladora da comunidade, Arlete Santos reforça a importância desse processo coletivo. "A cultura não pode ficar só nos mais velhos. Precisa dos jovens. Se não, ela se perde." A fala dela aponta para um dos principais desafios atuais: garantir que as novas gerações assumam o papel de continuidade.
Além da dança, hoje, na região de Teresina de Goiás, a Sussa é homenageada em um dos rótulos da Pasárgada, a primeira vinícola da Chapada. O proprietário Victor Neiva fala sobre a ideia do nome: o intuito era partilhar e valorizar a cultura do Cerrado.
O papel do Estado
Em meio a esse cenário, o processo de tombamento do quilombo Kalunga, conduzido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), surge como uma tentativa de reconhecimento e proteção. Em nota, o instituto informa que o processo está na fase inicial administrativa, que inclui abertura do processo, estudos técnicos, proteção provisória e notificação dos envolvidos. O objetivo é viabilizar o inventário participativo e a construção do dossiê técnico.
Enquanto o Iphan atua na condução técnica do processo, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) participa como parceiro na promoção do desenvolvimento territorial sustentável. A atuação conjunta inclui a elaboração do Inventário dos Bens Culturais e das Potencialidades Econômicas das comunidades, com visitas técnicas, reuniões e oficinas. A participação da comunidade é central, já que serão os próprios moradores que indicarão quais bens culturais devem ser protegidos.
Após essa etapa, será realizado um chamamento público para contratação de uma organização da sociedade civil, que dará continuidade ao processo. Também está prevista a criação de um comitê gestor para acompanhar as ações de salvaguarda.
Entre os desafios apontados estão as dimensões do território e as dificuldades logísticas. Por isso, o processo precisa ser construído de forma participativa, garantindo que a preservação esteja alinhada com a autonomia da comunidade.
Para a gestora estadual de turismo do Sebrae Goiás, Priscila Vilarinho, a iniciativa representa uma ação inédita no país. "Além da proteção legal, o projeto busca caminhos para o desenvolvimento sustentável, gerando renda e oportunidades a partir da cultura Kalunga."
O Sebrae atua em três frentes principais: agricultura familiar, empreendedorismo — especialmente feminino — e valorização cultural com impacto econômico. Entre os projetos está o Mandala, voltado à produção sustentável, com irrigação por gotejamento e capacitação técnica. Outro destaque é o projeto Amar é, que capacitou cerca de 100 jovens mulheres em corte, costura e empreendedorismo, incentivando a criação de marcas com identidade cultural.
No turismo, o modelo de base comunitária transformou a realidade local. A comunidade Engenho II recebe cerca de 25 mil visitantes por ano. Esse trabalho foi reconhecido nacionalmente, com a associação local vencendo o Prêmio Nacional do Turismo em 2023.
O futuro depende de quem permanece
Enquanto políticas públicas avançam e projetos são implementados, o território Kalunga continua sendo sustentado por quem está ali todos os dias.
Na comunidade Ema, Esther Fernandes, professora, lavradora e atual vice-presidente da AQK, resume esse sentimento. "O que a gente mais gosta aqui é de viver. Viver em paz, com todo mundo sendo parente." A fala dela traduz o que está em jogo: não é apenas a terra, mas o modo de vida. Esther aponta o que ela e a população espera do tombamento: "Um dos nossos pedidos é que cuidem dos nossos cemitérios, restaurem e continue da mesma forma que fazemos hoje". A fala carrega tradição. Culturalmente, cada comunidade possui seu cemitério e eles são separados por crianças e adultos, para que mantenha o cemitério dos anjinhos.
Hoje, ao olhar para trás, ela reconhece que, mesmo com as limitações, foi esse mesmo sistema simples que sustentou as primeiras articulações políticas e sociais do povo Kalunga. Ao comparar com o presente, em que há mais acesso à informação, projetos e diálogo com instituições, Ester vê avanços importantes, especialmente na educação e na organização comunitária. Ainda assim, reforça que a essência da comunicação permanece a mesma: coletiva, construída na escuta e na união, porque, para ela, foi dessa forma que o território resistiu, estruturou-se e segue lutando por seus direitos.
Experiência tradicional
Na Comunidade Ema, um dos anfitriões do local, José Pereira, 73 anos, abre as portas da sua casa e do seu quintal rico em histórias. Ele relembra que a residência, que hoje guarda memórias, foi por muito tempo um dos pontos mais vivos da comunidade, um espaço onde cultura, fé e convivência se encontravam de forma natural.
Segundo ele, até 2005, o local permanecia em plena atividade, sustentado principalmente pela presença da líder do povo Kalunga dona Lió, tia-avó de Martha Kalunga. Ela mantinha tradições, recebia visitantes e fazia daquele espaço um verdadeiro ponto de encontro. Com a morte dela, no entanto, José percebeu que algo se perdeu no caminho — não apenas o movimento, mas uma forma de manter viva a cultura no cotidiano.
Além da sua casa carregar tradições — como paredes e tetos feitos de materiais naturais, extraídos do Cerrado —, atrás dela possui uma imensidão de possibilidades. Em poucos metros, José apresenta rochas que possuem hieróglifos e um rio que sustenta suas plantações, animais e até mesmo a própria sede.
O mesmo rio passa pelo espaço Akan, casa e comércio gerido pela família de Elizabeth Fernandes, 43. No local, ela e a avó dona Teresa oferecem aos turistas uma experiência imersiva, o Café com Barro, que faz parte do turismo de base comunitária que integra a Rota Quilombo Kalunga.
Elizabeth aprendeu com a avó tudo o que precisava para a sobrevivência. Hoje, seu principal trabalho — e até hobby — é buscar a argila, preparar a massa e dar forma aos utensílios que serão usados no restaurante da família, que funciona no local. Ali, quase tudo nasce do chão — dos pratos às panelas — criando um contato direto com a cultura Kalunga.
Elizabeth não se vê fora dali, porque entende que seu trabalho é mais do que sustento: é continuidade. Ao produzir usando a matéria-prima do território e a técnica familiar, ela preserva não só um ofício, mas uma forma de existir que resiste ao tempo e às mudanças, reafirmando que, naquele espaço, tradição e presente caminham lado a lado.
Fora a produção de objetos, Elizabeth apresenta um pouco mais da culinária local, desde sucos com frutos do cerrado, refeição com alimentos plantados em seu quintal e até mesmo pingas, que funcionam como remédios naturais.
Potência
O secretário de Turismo de Teresina de Goiás, Laydson Fernandes acompanha de perto o que o tombamento pode trazer para a comunidade. Para ele, o desafio não está apenas em ampliar o fluxo de visitantes, mas em garantir que o turismo ocorra de forma consciente, respeitando a história e o modo de vida das comunidades. Laydson destaca que, embora a região já seja reconhecida pelo turismo ecológico, existe um diferencial ainda pouco explorado: o turismo cultural, construído a partir das tradições, saberes e vivências que não podem ser transformadas em espetáculo.
Nesse sentido, a atuação da Secretaria tem se voltado para a conscientização e para o fortalecimento de parcerias que permitam desenvolver esse potencial sem provocar impactos negativos. No fim, a pergunta inicial não é apenas individual. "Quem cuida de mim?" é também uma pergunta coletiva. E, no território Kalunga, ela só pode ser respondida de uma forma: com permanência, memória e, principalmente, com gente disposta a continuar.
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