
Há desenhos que acabam esquecidos em gavetas, pastas escolares ou caixas acumuladas ao longo dos anos. Já nas mãos da artista Juna, nome artístico de Juliana Nascimento, rabiscos infantis ganham novos contornos, textura, tinta e permanência. Ex-executiva, ela encontrou na maternidade o caminho para construir uma linguagem artística própria baseada na memória afetiva da infância.
A ideia nasceu dentro de casa, quando a filha Lara tinha entre 3 e 4 anos. Entre folhas coloridas enviadas pela escola, surgiu a dúvida entre guardar tudo ou desapegar de alguns, mas nenhuma das opções eram muito satisfatórias. Foi então que Juna reuniu os desenhos da filha em uma colagem para decorar o quarto da criança. O gesto simples acabou se transformando no início de uma nova profissão.
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Hoje, a artista desenvolve obras a partir de desenhos infantis utilizando uma técnica mista que envolve recorte, colagem, pintura e repintura. O processo preserva a essência do traço original enquanto acrescenta novas camadas de cor, composição e significado. Cada trabalho nasce da curadoria do acervo da criança e se transforma em uma peça artística que mistura memória, afeto e identidade.
Juna acredita que sua arte preserva histórias familiares e registra a potência criativa da infância. “Minha filha, Lara, me apresentou a beleza do universo infantil — aquele lugar onde a curiosidade, a imaginação, o sonho e o encantamento pela vida são soberanos. Através dela, aprendi a buscar menos o resultado e a habitar mais o processo, estar mais presente no dia a dia”, afirma.
A maternidade, segundo ela, alterou completamente sua maneira de enxergar o mundo e o próprio fazer artístico. “Foi esse olhar 'emprestado' da infância que transformou minha carreira: deixei de olhar apenas para mim para me dedicar a eternizar o encantamento do outro. No fim, a Lara me ensinou muito sobre como me tornar uma artista.”
No Dia das Mães, data em que lembranças afetivas costumam ganhar ainda mais força, o trabalho de Juna dialoga diretamente com o desejo de preservar momentos cotidianos que muitas vezes passam despercebidos. Nas obras, desenhos de pratos de comida, letras recém-aprendidas, animais imaginários e cenas simples do dia a dia deixam de ser apenas papéis acumulados para ocupar espaço central dentro das casas.
“O desenho é a voz da criança antes de a fala estar pronta. É por meio do traço que ela organiza o que sente, imagina e percebe do mundo”, explica. Para a artista, quando a família compreende o valor simbólico daquele desenho, ele deixa de ser visto apenas como um rabisco infantil. “O desenho passa a ter uma carga emocional muito grande, porque passa a se tornar uma relíquia desse espaço-tempo da infância.”
Cada obra produzida por Juna passa por mais de sete etapas. Primeiro, ela analisa o estágio de desenvolvimento do desenho e os padrões criativos da criança, como personagens, figuras humanas, natureza ou elementos imaginários. Depois, inicia a composição, a repintura em camadas, os recortes e as intervenções pictóricas. Ao final, escreve uma carta à mão para a criança, que deve ser lida apenas depois dos 21 anos.
Apesar das interferências artísticas, Juna faz questão de manter a autenticidade dos traços originais. “Eu não 'corrijo' o desenho, o rabisco, eu o valido e enalteço”, ressalta. Segundo ela, a criança é sempre protagonista do processo. “A obra final é um diálogo estético onde minha técnica se coloca a serviço da espontaneidade infantil.”
Ao transformar desenhos em arte, a artista também propõe uma reflexão sobre o papel das mães e das famílias na construção emocional das crianças. “Quando uma mãe abre espaço e incentiva a arte da vida da criança e ela reconhece e valoriza a produção do filho, ela está nutrindo a autoestima dele”, diz. Para Juna, o reconhecimento recebido na infância é parte fundamental da formação da autoconfiança e da criatividade na vida adulta.
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