No Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado nesta terça-feira (11/02), a médica e professora da Universidade de Brasília (UnB) Licia Mota afirmou que a maternidade não compromete a produção científica e pode, inclusive, desenvolver competências que fortalecem a excelência acadêmica. A pesquisadora defende a adoção de políticas estruturais na pós-graduação para garantir a permanência de mulheres na ciência.
Embora o Brasil ocupe o terceiro lugar no mundo em participação feminina em publicações científicas, segundo levantamento da Elsevier-Bori (2024), e as mulheres representem 55% dos estudantes de mestrado e doutorado, de acordo com dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a permanência de pesquisadoras na carreira acadêmica ainda enfrenta obstáculos estruturais.
Para a professora Licia Mota, o principal desafio não está na vocação feminina para a ciência, mas nas condições reais de formação ao longo do percurso acadêmico. Orientadora do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Medicina da UnB e médica do Hospital Universitário de Brasília (HUB), Licia sustenta que a maternidade pode, inclusive, potencializar competências essenciais à pesquisa científica.
- Leia também: Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência: conheça 34 profissionais revolucionárias
“Gestar, parir e amamentar desenvolvem habilidades como planejamento extremo, gestão de tempo, resiliência, foco e maturidade emocional. São competências que enriquecem a pesquisa, mas raramente são reconhecidas como ativos acadêmicos”, afirma Mota.
Segundo a pesquisadora, que vivenciou a maternidade durante o próprio doutorado, o modelo atual da pós-graduação ainda não foi desenhado para acolher essa realidade. “Precisamos aprender a conciliar o tempo da ciência com o tempo da maternidade. Celebramos a entrada das mulheres na ciência, mas perdemos talentos no meio do caminho quando não garantimos condições de permanência”, ressalta a médica.
Ela aponta que muitas mulheres vivem a maternidade na academia de forma solitária e exaustiva, diante da ausência de políticas claras e uniformes. Embora avanços como a Lei nº 13.536/2017, que garante a prorrogação de bolsas por maternidade, e a inclusão da licença-maternidade no Currículo Lattes representem conquistas importantes, a mudança cultural ainda é considerada insuficiente.
“O problema não é a maternidade. É um modelo de formação que ainda a trata como exceção ou risco. Garantir extensão de prazos sem penalização, proteger bolsas e formar orientadores sensíveis a essa realidade não são concessões, são investimentos científicos”, afirma.
A experiência da médica encontra eco nos relatos de pós-graduandas do próprio programa. A pesquisadora Raianni Rúbia Pacheco Silva, 32 anos, iniciou o doutorado ao mesmo tempo em que vivia o puerpério. Segundo ela, foi nesse período que a necessidade de reorganizar prioridades e ritmos se tornou concreta.
“O tempo foi um fator crítico, especialmente nos primeiros meses, quando a rotina é imprevisível. Mas também houve impacto emocional. Conciliar as demandas acadêmicas com o cuidado integral de um bebê exige energia física e emocional elevadas”, relata Raianni
Ela afirma ter presenciado percepções implícitas de que a maternidade poderia representar fragilidade. Durante a apresentação do projeto de doutorado, ainda grávida, ouviu comentários sobre a “coragem” de iniciar a pesquisa com um bebê a caminho. “Essas situações revelam expectativas que continuam recaindo sobre mulheres pesquisadoras, que precisam justificar escolhas que, para outros perfis, raramente são questionadas”, diz Silva.
Ao mesmo tempo, ela reconhece ganhos concretos. “Aprendi a priorizar qualidade, não apenas quantidade. Desenvolvi resiliência e capacidade de decisão sob pressão, habilidades essenciais no ambiente acadêmico”.
Já a pesquisadora Sara Anieli da Costa Braz Fonseca, 35 anos, também iniciou a maternidade no começo do doutorado. Para ela, a licença-maternidade e a flexibilização de prazos foram determinantes para garantir a continuidade da formação. “A maternidade não inviabiliza o caminho na ciência, ela o transforma. Ajustar expectativas e utilizar políticas existentes não é fragilidade, é estratégia de permanência”, afirma.
As duas pesquisadoras destacam que o apoio institucional e a postura acolhedora da orientação foram decisivos. Ainda assim, defendem que políticas estruturais precisam deixar de depender exclusivamente da boa vontade individual dos docentes.
Para Licia Mota, o futuro da ciência brasileira passa pela consolidação de um modelo acadêmico que reconheça trajetórias não lineares. “A ciência não perde quando acolhe a maternidade. Perde quando torna o caminho inviável para mulheres”.
Instituído pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e pela ONU Mulheres, o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência busca promover acesso pleno e igualitário ao campo científico. No Brasil, os números indicam avanço na participação feminina, mas o desafio permanece na consolidação de condições que garantam permanência, equidade e excelência ao longo da carreira.
Saiba Mais
-
Ensino superior
Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência: conheça 34 profissionais revolucionárias
-
Ensino superior
Irmãos gêmeos do Rio Grande do Sul são aprovados no curso de medicina
-
Ensino superior
Entidades de ensino lamentam assassinato de professora em universidade particular
-
Ensino superior
Educação transformadora: jovem é a primeira da família a ingressar na universidade
-
Ensino superior
Filha se forma e surpreende pais ao ir de beca até o sítio onde moram
-
Ensino superior
Brasiliense de 17 anos é aprovada em Direito na Universidade de Coimbra
Ensino superior
Ensino superior
Ensino superior
Ensino superior
Ensino superior
Ensino superior