
O que vem à mente quando se fala em boxe? Para muitos, a imagem ainda está ligada às grandes lutas televisionadas, aos cinturões mundiais e aos nomes históricos do esporte. Entre os brasileiros, atletas como Esquiva Falcão, citado pelo instrutor Tauã Albuquerque, ajudaram a aproximar o público do boxe olímpico e a ampliar a visibilidade da modalidade no país. Mas, longe dos ringues profissionais, o esporte é escolhido como uma ferramenta para saúde, condicionamento físico e qualidade de vida.
Nas academias, o perfil de quem procura o boxe mudou. Hoje, boa parte dos alunos não deseja competir profissionalmente, mas, sim, encontrar uma atividade dinâmica, intensa e diferente dos exercícios tradicionais. A modalidade passou a atrair pessoas interessadas em emagrecimento, melhora do condicionamento físico e até alívio do estresse da rotina diária.
Segundo o profissional de educação física e instrutor de boxe e muay thai Rafael Santos, o crescimento da modalidade está diretamente ligado à combinação entre benefícios físicos e emocionais. Para ele, o boxe consegue reunir diferentes vantagens em um único treino, o que explica o aumento da procura nos últimos anos. "O boxe virou tendência pela junção do resultado físico, benefício emocional e praticidade em um só treino", resume Rafael.
De acordo com o instrutor, a modalidade oferece alto gasto calórico, melhoria da resistência, fortalecimento muscular e ainda ajuda no controle da ansiedade e do estresse, fatores cada vez mais valorizados por quem busca qualidade de vida. Também passou a oferecer uma experiência mais dinâmica. Enquanto muitas pessoas relatam dificuldade em manter constância na musculação tradicional, o esporte chama atenção pelas aulas movimentadas, com diferentes estímulos e sensação constante de evolução.
Para Rafael, esse fator faz diferença, principalmente, entre iniciantes. "As aulas variam bastante e dão a sensação de progresso rápido. Isso ajuda o aluno a manter a frequência e torna o treino menos monótono", explica o instrutor.
Não se trata de socos
Apesar da associação imediata com golpes e combate, os dois especialistas destacam que o boxe exige mais do que força física. Coordenação motora, movimentação, estratégia e controle corporal fazem parte da prática desde as primeiras aulas. O esporte trabalha praticamente o corpo inteiro ao mesmo tempo.
Rafael explica que uma aula de boxe envolve cárdio, resistência, força, agilidade, reflexo, postura e flexibilidade. Durante os treinos, braços, pernas, abdômen e ombros são constantemente ativados, criando um exercício intenso e completo mesmo para quem está começando. "O boxe melhora o coração e o fôlego porque é um treino contínuo e intenso. A modalidade combina golpes, deslocamentos e esquivas repetidamente, o que aumenta muito a resistência física", afirma Rafael. Segundo ele, o esporte também favorece a perda de peso ao unir exercícios aeróbicos e fortalecimento muscular.
- Leia também: O bem-estar como ritual: a ascensão de studios fitness em Brasília
- Leia também: Alimentação, treino e ritmo: os cuidados essenciais para a Maratona Brasília
O instrutor Tauã Albuquerque destaca que muitas pessoas chegam ao esporte com uma visão limitada sobre o que ocorre dentro do ringue. Atleta há quase uma década e professor há um ano, ele explica que existe uma diferença importante entre o boxe profissional e o olímpico, além de uma série de fundamentos técnicos desconhecidos pelo público. "O boxe não é só troca de socos. Mesmo sendo um esporte em que você golpeia com as mãos, precisa ser criativo na movimentação para encontrar espaço e executar os golpes", explica.
O professor ressalta que o esporte possui regras específicas e exige disciplina constante dos atletas. No boxe, os golpes são aplicados apenas com as mãos e há restrições quanto às regiões do corpo que podem ser atingidas. Além disso, o treinamento envolve repetição, estratégia e desenvolvimento técnico gradual.
Segundo Tauã, os iniciantes começam aprendendo postura, deslocamento e consciência corporal antes mesmo dos golpes mais complexos. "A primeira coisa que ensino não são os socos, mas as pernas. O aluno precisa aprender a andar, a se posicionar e a entender o próprio corpo antes de avançar", conta.
Saúde física e mental
Com a rotina acelerada e o aumento dos casos de ansiedade e estresse, modalidades intensas ganharam ainda mais espaço no cotidiano das pessoas. Nesse cenário, o boxe passou a ser uma válvula de escape emocional para muitos praticantes. Rafael afirma que o esporte contribui diretamente para melhora do humor, da autoestima e da autoconfiança.
O esforço físico intenso combinado ao foco exigido durante os treinos ajuda a aliviar tensões acumuladas e a proporciona sensação de bem-estar após as aulas. "O boxe ajuda a descarregar tensão. A combinação entre esforço físico, respiração e concentração reduz o estresse e aumenta a sensação de alívio", explica. Para muitos alunos, esse benefício emocional acaba se tornando tão importante quanto os resultados físicos.
Tauã também observa essa mudança no perfil dos praticantes. De acordo com ele, atualmente, a maioria dos alunos busca saúde, condicionamento físico e qualidade de vida, e não necessariamente a carreira competitiva dentro do esporte. "Hoje, muita gente procura o boxe para sair do sedentarismo, melhorar a saúde ou emagrecer. O ambiente também costuma surpreender, porque muitos chegam achando que será algo agressivo, quando, na verdade, é um espaço muito acolhedor", afirma.
O professor destaca ainda que o desenvolvimento dentro do boxe ocorre de forma gradual. Os movimentos exigem adaptação neuromuscular e repetição constante, especialmente para quem nunca teve contato com artes marciais ou esportes de combate anteriormente.
Paixão pela profissão
A relação de Tauã com o boxe começou cedo. O primeiro contato aconteceu ainda na infância, aos 6 anos, enquanto assistia a uma luta de UFC na casa do avô. O momento, segundo ele, ficou marcado pela admiração ao ver o brasileiro José Aldo vencer um adversário internacional.
Depois de anos acompanhando esportes de combate pela televisão, Tauã iniciou os treinos em Brasília e passou a construir uma trajetória dentro da modalidade. Aos 13 anos realizou sua primeira luta oficial. Desde então, acumulou mais de 40 combates, participações em campeonatos brasileiros e experiências internacionais.
O atleta também integrou a seleção brasileira de boxe e participou de competições fora do país. Ao longo da carreira, conviveu com nomes importantes do esporte e passou a atuar na preparação de atletas de alto rendimento, como a boxeadora Emmanuely Walquiria, participante do Campeonato Brasileiro e da seleção brasileira.
Mesmo com a experiência competitiva, Tauã afirma que o principal objetivo hoje é compartilhar a modalidade com novos praticantes e mostrar que o boxe é um esporte além das lutas exibidas na televisão. Para ele, a modalidade representa disciplina, transformação e paixão. "Minha vida é isso. Eu amo o boxe. Para onde eu vou, ele vai junto comigo."
Saiba Mais

Revista do Correio
Revista do Correio