Cidade Nossa

Cidade Nossa: O bar e a cidade

De garçons a donos, o Beirute transformou simplicidade, afeto e resistência em um dos símbolos mais emblemáticos e democráticos de Brasília

Por Cilene Vieira

Conheci o Beirute em 1985, minha primeira vez em Brasília. Uns amigos daqui disseram que iríamos ao mais famoso e bem frequentado ponto de encontro da cidade. Casa lotada. Conseguimos ficar em uma das tradicionais mesas de madeira retangular, sentados naqueles bancos duros. Um lugar simples, meio boteco, meio restaurante, nenhum diferencial na arquitetura, nem na decoração, nem música ambiente tinha, muito menos ao vivo. Mas tinha gente, muita gente, e uma atmosfera festiva, com conversas animadas, gargalhadas, abraços de amigos; aquilo parecia uma confraria. Observando tudo, eu quis entender qual era o segredo daquele lugar tão diverso e especial, onde as pessoas pareciam tão à vontade.

Um dos amigos me explicou: "É que aqui os garçons são os donos" Eu: Ah, é uma cooperativa? "Não, não, os garçons são os donos mesmo, o Beirute é dos garçons." Mudamos a conversa, mas aquilo nunca saiu da minha cabeça. Cheguei a comentar fora daqui que em Brasília tinha um bar subversivo, em que os donos eram os empregados.

Com muitos retornos ao Beirute, em diferentes momentos de décadas de vivência em Brasília, eu me vi na função de falar sobre a história do bar, ao organizar uma exposição para o seu aniversário de 60 anos. O que escrever, se tudo já foi dito sobre esse lugar "indefinível".

O Beirute já foi tema de livros, trabalhos acadêmicos, documentário, cenário de novela, de filmes, sala de cinema, palco de shows, teatro, sala de exposições, templo de missa, inspiração de poetas, compositores, e assunto de muitas reportagens deste Correio Braziliense.

Voltei ao dia em que fomos apresentados, à história que sempre me interessou, mas que eu não conhecia em detalhes.

Quando o Beirute surgiu, em um tempo em que a capital ainda lutava para se firmar como cidade habitável, existiam poucas opções de bares. O seu início se deu como tantos outros empreendimentos, quando empresários imigrantes, com capital suficiente para abrir um negócio, fizeram investimentos e abriram a casa com o nome que permaneceu. Mas, por obra do destino, quatro anos depois, em 1970, aconteceu a primeira subversão que marcou a vida do Beirute para sempre: três garçons, movidos pela coragem e pelo sonho, fizeram um esforço fenomenal e conseguiram comprar o bar.

Naquele momento, foi invertida uma ordem empresarial e criado um fato histórico raro, pois os empregados se tornaram proprietários e, a partir dali, imprimiram ao local suas experiências como bons empregados de mesa, a simplicidade de suas origens, a força do trabalho árduo e incansável, e o apego afetivo ao bem adquirido.

Assim surgiu o Beirute, subvertendo a lógica do trabalho e do capital, somando o respeito genético ao cliente, oferecendo bebida e comida da melhor qualidade, tendo o amor como seu condutor.

Essa herança transformou o Beirute no espaço de resistência democrática e celebração de conquistas cívicas, para onde passou a convergir a pluralidade de Brasília. O Beirute virou esquina e ponto turístico obrigatório da cidade. Lugar diverso, frequentado por representantes de todas as "tribos" que já se formaram ao longo da vida da capital, atraindo estudantes, intelectuais, poetas, artistas, políticos, atletas, cineastas, jornalistas e boêmios, que passaram a considerar o bar da 109 Sul a sua casa.

Aos 60 anos, o Beirute permanece frequentado com devoção por gerações seguidas. No mesmo edifício simples, com o mesmo mobiliário, o mesmo cardápio, servido nos mesmos pratos, e as mesmas bandejas, repletas de cerveja gelada, por garçons com a mesma dedicação aos clientes. O Beirute, reconhecido, querido e indecifrável, é um patrimônio de Brasília.

Cilene Vieira é jornalista e autora do blog Nosso Parque da Cidade, publicado no site do Correio Braziliense  (www.correiobraziliense.com.br/blogs)

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