Queda de pelos, aumento exagerado da sede e aparência mais cansada de um pet nem sempre estão ligados apenas ao envelhecimento. Em muitos casos, sinais considerados comuns por tutores escondem a doença de Cushing, também chamada de hiperadrenocorticismo, uma condição hormonal causada pelo excesso de cortisol no organismo e que pode afetar diferentes sistemas do corpo do animal. Mais frequente em cães idosos, a doença costuma surgir de forma lenta, o que dificulta a identificação e o início do tratamento.
Segundo a professora do curso de medicina veterinária do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF) Manuela Paula Teixeira, muitos dos sintomas acabam sendo confundidos com sinais naturais da idade. "Quando o animal fica mais quieto ou apático, o tutor pode facilmente atribuir essa mudança ao fato de ele estar 'velhinho'. Outros sinais que contribuem para essa confusão incluem o desenvolvimento de um abdômen mais penduloso e a perda de massa muscular", explica.
Fora alterações percebidas na rotina do pet, a doença também provoca mudanças graduais na estrutura física do animal, especialmente na pele e na musculatura. Manuela explica que o excesso de cortisol compromete a resistência da pele, interfere na renovação dos tecidos e favorece o aparecimento de infecções recorrentes, deixando o organismo mais vulnerável. "Normalmente, ela se manifesta com sinais como: a pele do animal afina, o abdômen cai, há queda de pelo simétrica e bilateral, inclusive na cauda." Segundo a professora, o avanço da doença também contribui para perda muscular e redução da disposição, fatores que impactam diretamente a qualidade de vida do cão.
Entre os sintomas mais percebidos pelos tutores estão o aumento da ingestão de água e da frequência urinária. Mudanças no comportamento também podem surgir, variando entre apatia, nervosismo e agitação. Embora o ganho de peso seja comum, Manuela aponta que ele ocorre principalmente pelo acúmulo de gordura abdominal e pela perda de massa muscular, fatores que contribuem para o aspecto característico da doença.
Outro ponto importante é o perfil dos animais mais suscetíveis ao problema. Cães atópicos — que convivem com alergias e fazem uso frequente de corticosteroides — apresentam maior predisposição ao desenvolvimento do Cushing. Raças pequenas, como shihtzus, aparecem entre as mais afetadas, embora a doença possa atingir animais de qualquer porte e até mesmo pets sem raça definida.
Alterações hormonais
As alterações dermatológicas estão entre os sinais mais importantes e, muitas vezes, representam o primeiro motivo que leva o tutor ao veterinário. O professor João Paulo Lacerda, do Centro Universitário de João Pessoa, explica que a doença provoca manifestações na pele e na pelagem dos animais. "A doença costuma provocar alterações dermatológicas bastante características em cães e, mais raramente, em gatos. Além da queda de pelo, o animal possui afinamento importante da pele, redução da cicatrização, aparecimento de manchas escurecidas e infecções cutâneas recorrentes", afirma.
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João Paulo destaca que o excesso de cortisol interfere diretamente na imunidade e na capacidade de renovação da pele, favorecendo problemas recorrentes, como infecções bacterianas, fungos e lesões de difícil cicatrização. "Esses pacientes podem desenvolver piodermites de repetição, infecções por fungos e até lesões que demoram muito para cicatrizar", explica. Em casos mais avançados, também podem surgir comedões — cravos, comumente vistos na barriga ou no queixo — e calcinoses cutâneas — nódulos, pápulas ou placas firmes ao toque, que podem ser esbranquiçados ou amarelados. Costumam surgir nas costas, no pescoço, nos ombros ou na região da virilha.
Diagnóstico
Por ser uma doença de evolução lenta, o diagnóstico costuma ocorrer apenas quando os sintomas já interferem diretamente na qualidade de vida do animal. O atraso no reconhecimento do problema pode trazer complicações importantes, incluindo diabetes, agravamento das infecções de pele e necessidade de tratamentos mais agressivos.
Manuela comenta que, em casos relacionados a tumores adrenais, o diagnóstico tardio pode tornar cirurgias mais complexas e aumentar os riscos ao paciente. Além disso, muitos animais passam a depender de medicação contínua por toda a vida. "A estabilização das taxas de cortisol é uma tarefa complicada, que exige constante vigilância e realização frequente de exames", ressalta.
Apesar disso, ambos os especialistas destacam que o tratamento adequado permite que o animal mantenha qualidade de vida e bem-estar. O controle hormonal, aliado ao acompanhamento dermatológico e nutricional, ajuda a reduzir sintomas e melhorar a disposição do pet ao longo do tratamento.
Alimentação e acompanhamento
Embora a alimentação não seja capaz de tratar diretamente, ela exerce papel importante no controle clínico e no conforto do animal. De acordo com João, muitos animais apresentam tendência ao ganho de peso, alterações hepáticas e predisposição ao
diabetes, fatores que tornam o acompanhamento nutricional essencial. "Dietas equilibradas, com controle calórico e boa qualidade proteica, auxiliam na preservação muscular, na saúde da pele e no controle da obesidade", explica.
Nutrientes como ômega 3, ômega 6 e antioxidantes também podem contribuir para a recuperação da pele e da pelagem, especialmente em animais que apresentam infecções recorrentes e maior fragilidade cutânea. O especialista também reforça que o excesso de peso agrava o quadro inflamatório, reduz a disposição e dificulta o controle metabólico do animal. Por isso, evitar petiscos em excesso e manter uma rotina alimentar supervisionada fazem parte do tratamento e ajudam a preservar a qualidade de vida do pet.
Tratamento
Os cuidados variam de acordo com a causa e o estágio da enfermidade, mas, na maior parte dos casos, envolve acompanhamento contínuo e controle hormonal ao longo da vida do animal. Quando a condição está relacionada à presença de tumores
nas glândulas adrenais, a intervenção cirúrgica pode ser indicada e, em alguns casos, levar à cura. Ainda assim, o procedimento costuma ser complexo e exige monitoramento rigoroso no pós-operatório. Já nos quadros mais comuns, o tratamento é realizado com medicamentos capazes de reduzir a produção excessiva de cortisol e estabilizar o funcionamento do organismo.
Além da medicação, o acompanhamento multidisciplinar é considerado essencial para garantir qualidade de vida ao pet. O controle frequente por meio de exames laboratoriais ajuda a evitar oscilações hormonais e possíveis complicações associadas à doença, como diabetes e infecções recorrentes. O suporte nutricional também faz diferença durante o tratamento, principalmente em animais que apresentam obesidade, perda muscular ou alterações hepáticas. Com acompanhamento adequado, muitos pets conseguem recuperar disposição, melhorar a saúde da pele e manter uma rotina confortável mesmo convivendo com a doença.
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