Professores preocupados com a preguiça dos alunos: em vez de estudar a fundo, copiam arquivos de informação que, após uma breve busca, entregam-lhes textos já prontos sobre os temas exigidos em aula. Não, não é inteligência artificial; falo da adolescência sem internet, em que não era raro flagrar estudantes copiando, ipsis litteris, verbetes de enciclopédia.
O filósofo grego Sócrates, que não deixou nenhum texto escrito, aparece em um livro de Platão contando o horror do rei Thamus, do Egito, ao saber da invenção da escrita pelo deus Toth, para preservar a memória e os saberes tradicionais. O uso da escrita, pensa o rei, envenena as pessoas, tornando-as incapazes de refletir e tirar lições das próprias experiências.
Como a escrita, a IA é mais uma invenção humana capaz de alterar profundamente nosso modo de raciocinar. Isso já dá escândalos no mundo literário, como o da Nobel polonesa Olga Tokrcusk, que provocou furor ao falar da IA na preparação de suas obras, e da autora japonesa premiada Rie Kudan, ao contar que 5% de seu livro Tokyo-to Dojo-to é criação do Chat GPT.
Enquanto um escritor afamado como Ian McEwan comentava, por esses dias, que, embora todo mundo esteja usando para várias tarefas, a inteligência artificial jamais substituirá os artistas porque não sente dor nem desejo sexual, outro autor celebrado, José Eduardo Agualusa, revelava a inspiração do Char GPT em seu livro mais recente. Ao perguntar à inteligência artificial quantos livros havia escrito, encontrou, na lista, um título do qual não se lembrava; cobrou a IA, que admitiu: o livro citado "ainda" não havia sido escrito por ele. Agualusa perguntou como seria esse livro, e aproveitou algumas das ideias levantadas.
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Escritores medíocres, humanos, muito humanos, copiam textos rebarbativos e ideias gastas de outros humanos para vender best-sellers. Agualusa aproveitou a IA como fosse um editor bem intencionado, com boas sugestões. Em outro território, em que se costuma andar de terno e gravata, meu amigo, respeitado consultor, Welber Barral chega a abrir arquivos de e-mail para a IA, que lhe dá análises e dicas, como o faria um atento e bem remunerado secretário. As decisões, porém, não vêm desse secretário artificial, mas do consultor experimentado.
De fato, o aluno preguiçoso, o escritor medíocre, o especialista picareta podem se apropriar da produção da IA sem sequer reler os textos que ela lhe traz. Mas a profusão de exemplos de gente esperta aprendendo a fazer da IA uma ferramenta a mais permite uma analogia com o bom jornalismo, que sempre escalou repórteres sem conhecimento especializado para fazer perguntas e selecionar respostas de fontes com saber mais profundo sobre um tema tratado.
Fontes do jornalismo tradicional também mentem, equivocam-se, deliram nas respostas; o jornalista qualificado escolhe e confere as informações. Com acesso colossal à produção literária e científica, a IA não pode emular emoções e fazer associações originais — inacessíveis a um solitário e neurastênico escritor do passado — a serem selecionadas por criadores humanos? Tantos escritores não acolheram estilos e ideias de antecessores que admiravam?
Aquele que, sem paranoias tecnofóbicas, aprender a vasculhar no gigantesco arquivo à disposição dos agentes de IA conseguirá entender o risinho de superioridade da escritora japonesa que, alheia à gritaria pela sua parceria cibernética, não tem vergonha de informar que usou a tecnologia como degrau para receber um cobiçado prêmio literário de seu país. Com a palavra os jurados humanos. Estes, aliás, já se pronunciaram. Classificaram a obra premiada como "tão perfeita que era difícil encontrar defeitos nela".
