Cidade Nossa

Cidade Nossa: O primeiro réveillon da futura Brasília

A pioneira Mercedes Urquiza resgata a virada de ano de 1957. Nessa viagem no tempo, as lembranças do que Juscelino Kubitschek imaginava que Brasília seria

O premiado fotógrafo sueco Ake Borglund estava lá e fez uma foto do leitão da ceia -  (crédito: Acervo/Ake Borglund )
O premiado fotógrafo sueco Ake Borglund estava lá e fez uma foto do leitão da ceia - (crédito: Acervo/Ake Borglund )

Especial para o Correio — Mercedes Urquiza

Em 31 de dezembro de 1957, Brasília só existia nas pranchetas de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Mas, principalmente, na decisão irreversível de Juscelino Kubitschek de transferir a capital e mudar a história do país. Dos 5 mil habitantes existentes naquele momento, alguns vinham se instalando em improvisados barracos de madeira na chamada Cidade Livre à procura de futuros negócios. Fora eles, um grande número de operários estava nos primeiros acampamentos abertos no futuro Plano Piloto, bem distante dali.

Apesar de que 1957 era o primeiro réveillon da incipiente Brasília, ninguém parecia lembrar disso. Quem podia pegar um jipe, bicicleta, carroça,  cavalo, ou mesmo avião, ia passar o dia na sua terrinha. Já nos acampamentos, o único calendário existente era a data marcada na ameaçadora placa da obra, para sua próxima inauguração. Duas estavam previstas já para 30 de junho de 1958: o Palácio da Alvorada e o Brasília Palace Hotel. Não havia tempo para pensar em outra coisa!

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Junto com meu marido, ainda hospedados no hotel-barraco da Cidade Livre, decidimos passar a data no recém-aberto restaurante Chez Willy, do exótico casal austríaco Willy e Magda Zweideck. Ele, ex-chef de estrelados restaurantes da Riviera Francesa, que trocou o endereço de suas caçarolas para um imprevisível casebre de taboas, no final da Avenida Central. 

Imaginem uma ceia de réveillon, com um grupo de anônimos aventureiros, sobre a qual não existe nenhum relato disponível: foi assim o primeiro ano-novo da história da futura Brasília. Mas devo dizer que as mesas estavam postas, comme il faut, com toalhas de algodão xadrez vermelho e branco. E dúzias de garrafas de champagne Moet et Chandon, Brut!

Felizmente, nós tínhamos um crédito, resultante da venda feita a Magda, do belíssimo casaco de lontra verde, que me acompanhou nos frios invernos de Buenos Aires e que, no Planalto Central, não seria de muita serventia. Poderíamos jantar lá muitas vezes ainda! Assim, passamos a frequentar o Chez Willy, que era um ponto de encontro para fazer amigos e descobrir novos negócios. Um bom investimento.

Voltando à ceia do réveillon, na mesa principal, um leitãozinho vivo embrulhado com fitas brasileiras, registrado pelas lentes do sueco Ake Borglund, representava o orgulho de todos pela epopeia de Brasília. O Willy, trajando um impecável smoking, abriu as garrafas de Moet et Chandon, que serviu nas taças de cristal, e pediu a todos que fizessem, à meia-noite, um brinde de costas para a parede, quebrando as taças, a seguir, com muito estardalhaço, para dar sorte à futura capital. Algo que resultou absolutamente profético.

Para os desconhecidos presentes, ficou o sentimento de estar compartilhando um momento privilegiado da história, assim como a certeza de que, a partir daí, estaríamos todos caminhando de mãos dadas para o objetivo comum de inaugurar a nova capital em 21 de abril de 1960.

Mercedes Urquiza é pioneira e autora da obra A Trilha do jaguar: na Alvorada de Brasília

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postado em 12/04/2026 06:00
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