O mercado de suplementação pet cresceu junto com a preocupação dos tutores em oferecer mais qualidade de vida aos animais domésticos. Hoje, produtos voltados para pelagem, articulações, imunidade e envelhecimento saudável se popularizaram entre cães e gatos. Apesar dos benefícios em casos específicos, veterinários alertam que a suplementação indiscriminada, muitas vezes incentivada pelas redes sociais, pode causar desequilíbrios nutricionais e comprometer a saúde desses animais.
Esses produtos são vendidos como soluções rápidas, capazes de resolver desde problemas dermatológicos até dificuldades articulares. Mas, ao contrário do que parte da publicidade faz parecer, suplementação não significa saúde automática. O uso dos suplementos depende de avaliação individualizada e de uma análise completa.
Para a professora do Centro Universitário Braz Cubas Fernanda Maris Ramos, é importante diferenciar o uso preventivo da suplementação daquele voltado para tratamento de doenças já instaladas. Fernanda aponta que a suplementação preventiva costuma ser utilizada em momentos específicos da vida do animal, principalmente quando existe maior desgaste do organismo. Filhotes em fase de crescimento, fêmeas gestantes, idosos e animais atletas estão entre os casos em que a estratégia pode ser considerada. "O objetivo é evitar que exista um desgaste além da conta das células, das cartilagens e da própria oxidação do organismo", justifica. Ela afirma que muitos nutracêuticos atuam justamente no combate ao chamado estresse oxidativo, processo associado ao envelhecimento celular e ao desenvolvimento de algumas doenças.
Nesses casos, a suplementação aparece como uma forma de suporte metabólico. Alguns compostos auxiliam funções articulares, outros ajudam na saúde intestinal, na absorção de nutrientes ou no equilíbrio imunológico. Ainda assim, a indicação depende das necessidades individuais de cada paciente. Já no contexto terapêutico, os suplementos passam a integrar tratamentos de animais que apresentam doenças crônicas ou condições degenerativas. Pacientes renais, hepáticos ou com problemas articulares, por exemplo, podem receber suplementação como parte do acompanhamento clínico.
Segundo a veterinária, nesses cenários, o objetivo não é a cura, mas desacelerar a progressão da doença e proporcionar melhor qualidade de vida ao animal. "O que se busca é fazer com que esse processo degenerativo seja mais lento", compartilha.
O professor da Universidade Centro Universitário Unipê Iago Barbosa, endocrinologista e doutor em biociência animal, destaca que o principal erro dos tutores é acreditar que todo pet precisa, obrigatoriamente, de suplementação. Para ele, suplementos não substituem alimentação de qualidade e devem funcionar apenas como complemento quando há indicação clínica.
Excesso é problema
Embora a deficiência de nutrientes possa trazer prejuízos ao organismo, o excesso também representa riscos importantes. E, em alguns casos, pode ser ainda mais perigoso do que a ausência de vitaminas e minerais.
Iago explica que vitaminas e minerais em quantidades inadequadas podem causar intoxicações, alterações ósseas, distúrbios digestivos e sobrecarga em órgãos como fígado e rins. Algumas vitaminas, principalmente as lipossolúveis, apresentam maior risco justamente por se acumularem no organismo. "Vitaminas como A e D merecem bastante cuidado porque podem se acumular no corpo do animal", alerta o especialista. Em situações mais graves, o uso incorreto pode até agravar doenças que já existiam anteriormente.
Outro problema frequente é a automedicação baseada em sinais genéricos. Pelagem opaca, queda excessiva de pelos, unhas frágeis, apatia e alterações digestivas costumam fazer muitos tutores procurarem suplementos por conta própria.
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Os especialistas alertam que esses sinais não indicam necessariamente deficiência nutricional. Muitas vezes, os sintomas podem estar relacionados a doenças hormonais, dermatológicas, gastrointestinais ou até infecciosas. "Esses sinais são inespecíficos", explica o endocrinologista veterinário. Ele também pede para que o tutor não "adivinhe" um suplemento, mas, sim, procure avaliação veterinária para investigar a causa real do problema.
A ideia de que produtos naturais não fazem mal também preocupa os profissionais. Fernanda afirma que existe uma percepção equivocada de segurança quando o assunto envolve suplementos naturais ou fitoterápicos. "Até mesmo plantas podem ser tóxicas", alerta. De acordo com ela, alguns compostos naturais podem interferir na ação de medicamentos, potencializar efeitos colaterais ou causar reações adversas importantes, dependendo da condição clínica do animal.
Além disso, cães e gatos possuem metabolismos diferentes e necessidades nutricionais bastante específicas. Um suplemento indicado para cães pode não ser seguro para gatos, especialmente pela sensibilidade felina a determinados nutrientes.
Riscos das redes
Com o crescimento do mercado de animais domésticos, criadores de conteúdo animal passaram a divulgar rotinas de suplementação semelhantes às utilizadas por humanos. Produtos voltados para "imunidade", "energia" ou "envelhecimento saudável" ganharam força principalmente nas redes sociais. Para os especialistas, embora a humanização dos pets tenha ampliado o cuidado com os animais, ela também favoreceu exageros e comparações inadequadas com hábitos da medicina humana.
Hoje, muitos tutores chegam às clínicas veterinárias já determinados a comprar certos suplementos vistos na internet. Em alguns casos, os produtos sequer possuem comprovação científica adequada ou registro confiável. Fernanda alerta que produtos que prometem resolver muitos problemas ao mesmo tempo devem ser encarados com desconfiança. "Não existe nada que seja bom para tudo", afirma.
A professora também chama atenção para a chamada "empurroterapia", prática comum em conteúdos patrocinados nas redes sociais. Segundo ela, o excesso de propaganda pode fazer com que os tutores enxerguem suplementos como itens obrigatórios, mesmo quando não existe necessidade clínica.
Outro ponto importante, segundo os especialistas, é que qualidade não depende apenas do preço. É fundamental verificar se o produto possui registro adequado, procedência confiável, validade e composição compatível com a espécie animal. Em alguns casos, suplementos vendidos sem controle adequado podem apresentar impurezas ou concentrações diferentes das informadas na embalagem. Isso reduz a eficácia do produto e pode trazer riscos à saúde do animal.
Antes de iniciar qualquer suplementação, a recomendação é buscar avaliação veterinária completa. Exames clínicos, análises laboratoriais e histórico alimentar ajudam a definir se existe realmente necessidade de suplementar. Para Fernanda, não existe receita quando o assunto é nutrição animal. Cada paciente possui necessidades próprias, influenciadas por idade, peso, rotina, raça, doenças e até nível de atividade física.
