Crônica

Crônica da Revista: somos todos João Fonseca

Apesar de não estar na final, jovem tenista João Fonseca reacendeu no Brasil o sonho de brilhar em Roland Garros

Por Maria Paula

Nosso garoto fez bonito em Roland Garros. Hoje ele não disputará a final, mas isso não diminui em nada o tamanho da conquista que realizou.

Há vitórias que não cabem no placar. Há conquistas que não se medem em troféus. O que João nos ofereceu nas últimas semanas, diretamente de Paris, foi uma dessas raras vitórias subjetivas que permanecem na memória coletiva de um país.

O que esse jovem despertou em nós vai muito além do tênis.

Depois de mais de duas décadas, desde os tempos mágicos de Guga, o Brasil voltou a sonhar alto no saibro francês. E isso, por si só, já merece aplausos.

Mas o mais legal é saber que João ainda está só começando.

Ele é jovem, mas joga com a serenidade de quem já conversou longamente com o tempo. É talentoso, mas não ostenta. Sofisticado sem ser arrogante. Determinado sem ser agressivo. Tem a humildade dos grandes e a coragem dos raros.

O que impressiona não é apenas a potência dos golpes. É a qualidade da presença. As pausas para respirar profundamente. A delicadeza de quem foi ninado com amor e não tem vergonha de dedicar uma vitória à mãe, num dia que foi grande para ambos.

Enquanto enfrenta alguns dos maiores nomes do esporte mundial, carrega uma tranquilidade desconcertante. Não se intimida. Não faz pose. Não se curva ao tamanho da ocasião.

Apenas entra em quadra e joga.

Como quem sabe exatamente quem é.

Ganhando ou perdendo, encanta os brasileiros. E talvez a derrota tenha chegado na hora certa, porque existe uma diferença entre chegar ao topo e permanecer nele.

Até aqui, João nos mostrou o talento que o trouxe até os grandes palcos. Agora, começa a receber as lições que apenas os grandes palcos são capazes de ensinar.

São aprendizados que não vêm dos livros nem dos treinamentos. Vêm da experiência. Da pressão. Da expectativa. Da convivência diária com atletas extraordinários. Vêm dos detalhes invisíveis que separam os excelentes dos lendários.

É nesse território que se forjam os campeões duradouros.

O João que saiu de Roland Garros não é o mesmo que chegou... ele ainda está longe de mostrar tudo o que pode ser.

Ano que vem? Não sei.

Daqui a cinco anos, quando ele tiver 24 anos? Quem sabe?

A sensação que tenho é de que estamos assistindo ao início de uma trajetória que ainda nos dará muitas alegrias.

Porque João nos lembra de algo importante: nós podemos.

Podemos ocupar espaços de excelência.

Podemos competir nos maiores palcos do mundo.

Podemos chegar onde os melhores chegam.

Podemos fazer bonito quando a oportunidade aparece.

Somos um povo resiliente e afetuoso, capaz de improvisar quando tudo parece perdido e, ao mesmo tempo, de demonstrar disciplina quando o momento exige.

João Fonseca parece carregar um pouco de todos nós dentro de si.

Somos todos João Fonseca.

 

 

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