
A primeira Copa do Mundo, da série de cinco que o Brasil ganhou, a gente nunca esquece. E nem do ano de 1958, quando o Brasil viveu o início dos anos dourados. Logo no início do ano, em 2 de janeiro de 1958, o arquiteto Oscar Niemeyer, nomeado por Israel Pinheiro como chefe do Departamento de Urbanismo e Arquitetura da Novacap, transfere-se de "mala e cuia" para Brasília, onde permanece até a inauguração da cidade.
Dois dias depois, em 4 de janeiro, é fincada a primeira estaca da Praça dos Três Poderes. Tratores e caminhões entram para iniciar a construção da praça mais importante de Brasília, onde serão instalados o Executivo (Palácio do Planalto), o Legislativo (Congresso Nacional) e o Judiciário (Supremo Tribunal Federal).
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Ainda em janeiro, dia 14, João Havelange toma posse na presidência da CBD — Confederação Brasileira de Desporto, substituindo Sylvio Pacheco. O vice de Havelange é Paulo Machado de Carvalho. Havelange impõe várias transformações à entidade, na busca de profissionalizar o futebol brasileiro. É ano de Copa do Mundo. João Havelange dirigiu a CBD de 1958 até 1974, quando assumiu presidência da Fifa. Sob sua gestão, o futebol brasileiro consegue a glória: ganhou as Copas de 1958, na Suécia; de 1962, no Chile; e o tricampeonato em 1970, no México.
No dia 18 de janeiro de 1958, o presidente Juscelino Kubitschek pede que Israel Pinheiro informe a todo corpo diplomático estrangeiro que a Novacap reservou, no perímetro urbano de Brasília, uma área de 25 mil metros quadrados para construção e instalação das embaixadas. Cada embaixada deveria requerer e escolher seu terreno com urgência.
No dia 24 de maio, a Seleção Brasileira viaja para a Copa da Suécia. Sem patrocinadores, o dinheiro cash que a delegação leva foi de um empréstimo que JK pediu que o ministro Geraldo Starling, então presidente do Conselho Nacional de Desporto, conseguisse para a CBD junto ao Banco do Brasil. Aliás, o próprio Starling foi o avalista. O dinheiro só dava para chegar à Itália, onde seriam feitos dois amistosos remunerados: um contra a Fiorentina e, outro, contra a Inter de Milão. Aí, sim, a delegação teria os dólares suficientes para pagar o empréstimo e custear a participação na Copa da Suécia.
Nos dias 28, 29 e 30 de junho de 1958, JK inaugura três obras ícones de Brasília, saídas da prancheta de Oscar Niemeyer: a Igrejinha de Fátima, na 308 Sul; o Brasília Palace Hotel, à beira do Lago Paranoá, onde JK escutou pelo rádio o jogo da final da Copa de 1958; e o Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente da República.
O ano de 1958 foi também um divisor de águas na cultura. Além do lançamento do disco da Odeon Chega de saudade, sucesso na voz de Elizeth Cardoso, com João Gilberto ao violão e arranjo de Tom Jobim, o próprio João Gilberto grava Chega de saudade e mais três canções em 78 rotações. Nasce a bossa nova! A sílaba da música faz parte do acorde como se fosse uma nota complementar na voz e na batida de violão. Além de João Gilberto, do maestro Tom Jobim, do poeta-diplomata Vinicius de Moraes, outros nomes
participam dessa epopeia: Carlos Lyra, Billy Blanco, Newton Mendonça, Luizinho Eça, Tito Madi, Johnny Alf, Luiz Bonfá, Francis Hime, Menescal, Bôscoli e algumas musas, como Sylvia Telles e Nara Leão.
A atriz Ilka Soares, garota-propaganda de O céu é o limite, da TV Tupi, é uma das Certinhas do Lalau (Stanislaw Ponte Preta). De shortinho desfiado e blusa em nó, Ilka justifica: "Meus dois dedinhos de barriga de fora eram um escândalo de sensualidade".
Roberto Carlos e Erasmo se conhecem nos intervalos de um curso de datilografia na Praça da Bandeira, no Rio. Nasce o Troféu Imprensa, criado pelo jornalista Plácido Manaia Nunes. Os lares brasileiros tinham no final de 1958 apenas 344 mil aparelhos de televisão. Hoje, só o Lago Sul de Brasília deve ter 10 vezes mais.
Em 1958, o mundo redescobriu o Brasil por três motivos: a bossa nova, a beleza da miss Adalgisa Colombo e a ousadia do futebol de Pelé e de Garrincha.
Se a Seleção Brasileira viajou para Estocolmo com o dinheiro contado e se no jantar solene oferecido pela Suécia aos 16 países participantes, a bandeira hasteada era erradamente a de Portugal (reclamação feita por Zagallo depois de muitas explicações, que foi preciso buscar uma enciclopédia Delta-Larousse para provar o erro), foi em 1958 que o Brasil deu o primeiro passo para lutar pelo hexacampeonato, neste ano de 2026.
Comandados por Vicente Feola, a Seleção de 1958 é poema a ser decorado: Gilmar, Djalma Santos, Belini, Orlando e Nilton Santos. Zito e Didi. Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Os outros 11 eram como segunda estrofe do poema: Castilho, De Sordi, Mauro, Zózimo e Oreco. Dino Sani e Moacir. Joel, Mazzola, Dida e Pepe.
Na Copa de 1958, a Seleção Brasileira gastou 40 mil dólares e cada jogador ganhava 100 dólares por partida. Trouxeram a Taça Jules Rimet e fizeram os brasileiros felizes.
Dólares agora não faltam. O que faltará para o HEXA?
Silvestre Gorgulho é jornalista, foi secretário de Estado de Comunicação e de Cultura do DF e é autor do livro De casaca e chuteiras — Brasília, JK e Pelé
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