Moda

Conheça Alvin Mak, estilista que levou a elegância congolesa à Copa

Autodidata e nascido na República Democrática do Congo, o designer transformou a volta histórica da seleção à Copa do Mundo em uma vitrine de elegância, identidade e orgulho nacional

Depois de 52 anos longe dos gramados de uma Copa do Mundo, a República Democrática do Congo voltou ao maior palco do futebol mundial. E a reestreia não aconteceu apenas dentro de campo.

Quando a delegação congolesa desembarcou em Houston, nos Estados Unidos, para a disputa do torneio, chamou atenção por um motivo incomum: os jogadores chegaram vestindo ternos pretos de alfaiataria impecável, adornados com broches de leopardo, estampas inspiradas na fauna africana e bolsas em formato de estrela. As imagens rapidamente viralizaram nas redes sociais e transformaram os uniformes em um dos assuntos mais comentados da competição.

Fédération Congolaise de Football Association -
JmakxParis -
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Por trás das peças está Alvin Mak, designer congolês de 30 anos radicado em Paris. Autodidata, ele aprendeu moda por meio de vídeos no YouTube, documentários e observação do trabalho de grandes marcas internacionais. Agora, vê suas criações ganharem o mundo justamente no momento em que seu país retorna ao torneio mais importante do futebol.

O simbolismo ficou ainda maior após a seleção escrever um novo capítulo de sua história. No empate por 1 a 1 com Portugal, Yoane Wissa marcou o primeiro gol da República Democrática do Congo em Copas do Mundo. Enquanto isso acontecia, Mak acompanhava a partida das arquibancadas, cercado por um grupo reduzido, mas apaixonado, de torcedores congoleses.

Em entrevista, o estilista falou sobre sua trajetória, o significado de vestir a seleção nacional e a missão de apresentar uma nova imagem do Congo ao mundo.

Entrevista // Alvin Mak

Como começou sua trajetória na moda?

Eu não tenho o mesmo histórico de muitos outros designers. Sou apenas um designer que aprendeu sozinho. Aprendi moda assistindo a vídeos no YouTube, Instagram e outras redes sociais. Trabalhei em lojas de diferentes marcas, como H&M, Zara, Levi's, Tod's, Balenciaga e Gucci, mas sempre na área de vendas. Nunca trabalhei em um estúdio de criação ou uma oficina de design. Tudo o que aprendi veio da observação, dos documentários e dos vídeos que assistia. Isso me ajudou a entender o que é moda e como os designers trabalham. Eu observava como eles desenhavam, criavam e construíam suas coleções.

O que significou criar os trajes oficiais da seleção congolesa para a Copa do Mundo?

É uma honra. Estou muito feliz. Você não pode imaginar como me sinto. Não é apenas algo importante para mim, mas para o meu país. Quando desenhei essa silhueta, queria criar algo único, elegante e sofisticado, porque acredito que os congoleses são pessoas elegantes e chiques. Também queria representar o Congo e mostrar o nosso trabalho. Todas as roupas que vocês viram foram criadas por congoleses. Queria apresentar uma parte do Congo que muitas pessoas ainda não conheciam.

Os trajes chamaram atenção em todo o mundo, inclusive no Brasil. Que mensagem você pretendia transmitir com eles?

A mensagem era sobre a minha cultura. Todos os países têm animais emblemáticos. Para nós, um dos símbolos mais importantes é o leopardo. Ele representa bravura, poder e força. Quis traduzir esses valores para as roupas e para o espírito da seleção. Essa foi a mensagem que procurei transmitir aos jogadores por meio da coleção.

A coleção também faz referência à participação histórica do Congo na Copa de 1974. Como você equilibrou tradição e modernidade?

Para mim, foi simples. Observei os uniformes de 1974, mas queria trazer algo mais contemporâneo. Não queria apenas reproduzir aquela silhueta. Queria recriá-la com uma visão mais moderna, mais ligada à moda e mais ousada. Acho que isso ajudou a tornar o projeto tão comentado.

Qual é o papel da moda na representação da identidade de um país no cenário internacional?

A moda é uma plataforma onde podemos compartilhar nossa visão e nossa percepção da vida. Eu a utilizo para transmitir meus valores, a forma como penso, como vejo o mundo e como me expresso. Na minha vida pessoal, não sou alguém que fala muito. Quando quero dizer alguma coisa, faço isso por meio das minhas criações. Por isso, vejo a moda como uma ferramenta de expressão.

Como foi acompanhar a repercussão internacional dos uniformes?

Foi estranho. Eu me senti feliz, surpreso e emocionado ao mesmo tempo. Mas, acima de tudo, fiquei muito feliz por ver não apenas minhas criações em uma plataforma tão grande como a Copa do Mundo, mas também por perceber que os holofotes estavam voltados para o Congo. Muitas vezes, quando as pessoas falam do Congo, falam sobre guerra, ebola e outras notícias negativas. Agora, vejo pessoas dizendo que os congoleses são elegantes, sofisticados e bonitos. Isso me deixa muito feliz.

Entre todas as reações que recebeu, qual foi a mais marcante?

O orgulho. Ver meu povo orgulhoso foi a coisa mais importante para mim. Os congoleses estão muito orgulhosos, e isso me faz sentir orgulhoso também. É uma satisfação enorme poder contribuir para que as pessoas do meu país sintam esse orgulho.

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