
Por Laerte Rimoli*
O barulho de material quebrado, seguido de choro, fez meus pais acudirem o garoto de 8 anos. Eu me equilibrei no muro de casa, em Londrina, com um arame acoplado no precário rádio, feito antena, para ouvir Santos x Estudiantes de La Plata ("Los Diablos Rojos de Avellaneda"). Pelé no auge. Eu já tinha testado a fórmula: era o melhor lugar para captar as ondas hertzianas que vinham de Buenos Aires. O tombo rendeu um braço na tipoia e, pior, meu radinho de capa vermelha, da marca Sônia, espatifado. Doeu mais a perda, afinal vivíamos em estado de penúria absoluta.
Do norte do Paraná, seguimos para o norte de São Paulo, em Bebedouro. "Minha vida é andar por este país, pra ver se um dia descanso feliz", a saga dos Rimoli. Uma kombi velha, dirigida por não sei quem, levava meu mano palmeirense (mais velho) e eu, santista roxo, pelos estádios de Araraquara, São José do Rio Preto e Ribeirão Preto, quando nossos times jogavam no interior. No fim de uma tarde de domingo, o intrépido piloto se descuidou, tomou o rumo errado da estrada (será que bebia?). Fomos dar com os costados nas barrancas do Rio Grande, em Colômbia, uma pequena cidade na divisa com Minas Gerais.
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Direção oposta a Bebedouro. Sem telefone público, sem celulares. A chegada em casa, lá pelas 10 da noite, determinou o fim da carreira dos andarilhos do futebol. Dona Taizinha, compreensivelmente, cassou nosso direito de ir e vir.
Restou-me a banca de jornais do Ney, que ficava ao lado do pé sujo que era nosso ganha-pão (ganha?) na praça da Matriz. Montávamos tabelas de excel, antes que a ferramenta fosse descoberta. Em imensas folhas escritas a lápis, surgiam jogos, artilheiros, classificação dos times. Mergulhei naquele mundo para driblar as agruras da vida, imensas aos 14 anos. Num dos retornos a Bebedouro, plantei-me à frente de um calvo e tímido Ney, ambos com 60 anos. Choramos feito bebês. A banca resistiu, nosso bar — mais uma dor de cabeça, nos catapultou para Goiânia. E seguiu o baile.
No dia 22 de junho de 2011, a glória suprema — Santos, conduzido por Neymar Jr, campeão da Libertadores. Fui ao Pacaembu comboiado por dois amores: Monica Waldvogel e Mariangela Hamu. Voltamos a pé depois da vitória. Mas a carruagem virou abóbora. O menino Ney e o pai deram um golpe no Santos, conspurcaram nossa história.
Na transferência para o Barcelona, colocaram mais dinheiro no bolso do que nos cofres do glorioso alvinegro praiano. Em sucessivas administrações desastrosas, o time nunca mais se equilibrou. Flertou com a queda e ela chegou em 2023.
Em fim de carreira, físico tisnado por excessos, o velho algoz retornou, em janeiro de 2025. Usou a Vila Belmiro para voltar à Seleção. Um lobby poderoso, um técnico tíbio colocaram o atleta bichado (três jogos no estaleiro) na Copa de 2026. Ele não decepcionou: agrediu um jogador da Noruega, levou cartão amarelo, debochou do goleiro, marcou um gol de pênalti que nada valia no momento, depois chorou.
O Santos tem uma imensa dívida (pecuniária) com a empresa do pai e do filho. Cai pelas tabelas. Mas isso não fará com que o menino do rádio quebrado, das andanças pelo interior, deixe de gostar do Peixe. Viva a magia do futebol.
Laerte Rimoli é jornalista

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