Crônica

O nosso time é o Brasil

Os brasileiros raramente se limitam a ver futebol. Eles discutem, levantam-se do sofá, voltam a sentar-se e explicam ao vizinho aquilo que o vizinho acabou de ver.

José Manuel Diogo, cronista -  (crédito:  LU SCHADEK/ Divulgação)
José Manuel Diogo, cronista - (crédito: LU SCHADEK/ Divulgação)

Por José Manuel Diogo—Em Brasília, assistir a um jogo do Brasil não é apenas acompanhar futebol. É participar de uma assembleia nacional convocada pela televisão, na qual todos falam ao mesmo tempo, ninguém respeita a ordem do dia e cada cidadão se considera tecnicamente mais preparado do que o treinador.

Os brasileiros raramente se limitam a ver futebol. Eles discutem, levantam-se do sofá, voltam a sentar-se e explicam ao vizinho aquilo que o vizinho acabou de ver. O jogo acontece no campo, mas a diversão já está no bar, no churrasco e no grupo da família.

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Em quase todas as grandes cidades brasileiras, essa liturgia começa no clube. No Rio, no Recife, em Belo Horizonte, em Porto Alegre ou em São Paulo, a criança herda uma camisa com a mesma naturalidade com que recebe o sobrenome. O futebol vem de casa, atravessa gerações e organiza rivalidades de domingo.

Brasília vive uma relação diferente, porque nasceu como uma cidade de chegadas. Seus habitantes trouxeram na mala os clubes dos pais, dos avós e das cidades de origem, fazendo da capital uma confederação de torcidas distantes. Gama e Brasiliense têm história e torcedores fiéis, mas nenhum clube local conseguiu ocupar o centro emocional da cidade.

Esse espaço foi preenchido pela Seleção Brasileira. Em Brasília, o Brasil não é apenas o time nacional que aparece em Copas e Eliminatórias; é o único clube capaz de reunir, na mesma mesa, o flamenguista, o vascaíno, o corintiano, o palmeirense e até o cidadão que garante não gostar de futebol, embora passe o segundo tempo exigindo a troca do lateral.

A cidade que durante o ano se divide entre camisas de outras regiões encontra na Seleção uma camisa sua. Não porque o Brasil pertença mais a Brasília, mas porque Brasília foi inventada para representar aquilo que é comum a um país de diferenças profundas.

Talvez, por isso, o Mané Garrincha encontre sua vocação quando recebe a Seleção. O estádio deixa de ser uma obra monumental à espera de uma ocasião e encontra um time à sua escala. Não é uma visita: é quase uma ocupação legítima.

Há, contudo, uma contradição nessa relação. Brasília possui um dos maiores estádios do país, mas não um clube residente com dimensão nacional capaz de transformá-lo numa casa cotidiana. Sem essa rotina, o futebol corre o risco de virar solenidade, como se até o escanteio precisasse de cerimonial.

O pertencimento clubístico nasce também no empate desagradável, na arquibancada vazia, na derrota improvável e na promessa de nunca mais voltar, quebrada na semana seguinte. Amar um clube é aceitar uma forma prolongada de sofrimento, o que deveria tornar Brasília especialmente preparada para a experiência.

Em Portugal, de onde venho, a Seleção também suspende as rivalidades. Terminado o jogo, cada português regressa à sua paróquia futebolística, seja ela do meu Sporting, seja uma devoção local mais resistente. A Seleção une o país por algumas horas, mas não substitui os clubes que organizam o resto do ano.

Em Brasília, a Seleção desempenha uma função mais profunda porque preenche uma ausência. Durante o ano, cada brasiliense torce por uma cidade distante, herdada ou imaginada; quando joga o Brasil, todas essas geografias se recolhem e a capital encontra, enfim, o seu clube comum.

Talvez, um dia, um clube do Distrito Federal conquiste essa centralidade e obrigue Brasília a escolher também uma paixão doméstica. Até lá, a cidade continuará fazendo o que sabe fazer melhor: representando o país inteiro, inclusive diante da televisão, onde cada torcedor é técnico, comentarista e ministro extraordinário dos assuntos do meio-campo. Mas em todos os domingos em que joga a Seleção a unanimidade escalada por todos. Aí, o nosso time é o Brasil.

 


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postado em 03/07/2026 06:00 / atualizado em 03/07/2026 09:03
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