Cidade Nossa

Cidade Nossa: Hora de jogar a carga no chão

Mais do que organizar armários, desapegar é aprender a abrir espaço para novos sonhos, relações e recomeços

Vanda Célia é jornalista -  (crédito: Arquivo pessoal)
Vanda Célia é jornalista - (crédito: Arquivo pessoal)

Por Vanda Célia*

Para reduzir as coisas da casa, há quem recomende o método das três caixas: manter, doar e descartar. Não comece pelas fotografias, guardiãs de afetos antigos. Nem pelos livros que ajudaram a moldar quem você é. Seja racional. Comece pelo que não pesa na memória, mas nas prateleiras e gavetas.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Curiosamente, esse conselho serve menos para os armários do que para a vida. Com o passar dos anos, vamos acumulando muito mais do que objetos. Empilhamos compromissos que perderam o sentido, culpas que já cumpriram sua pena, ressentimentos que envelheceram conosco e preocupações que nunca chegaram a acontecer.

Guardamos roupas que não vestimos, papéis que jamais consultaremos e promessas que já não nos pertencem. Carregamos tudo como quem acredita que abandonar um peso é uma forma de desistir. Não é.

Outro dia, olhei meus livros e sonhei com a reencarnação: vou precisar de, no mínimo, mais três vidas para ler e/ou reler os livros que tenho. Lá está, na estante, toda a coleção de Machado; as peças de teatro mais relevantes já escritas; os mais belos poemas da literatura. Tenho de encontrar tempo para selecionar os textos imprescindíveis.

Há uma elegância silenciosa em escolher o essencial. A maturidade talvez seja justamente isso: descobrir que quase tudo o que parecia indispensável era apenas excesso. A casa respira melhor quando os cômodos deixam de ser depósitos. A alma também.

O difícil não é doar uma camisa que já não serve ou descartar uma gaveta de papéis esquecidos. Difícil é reconhecer que certas lembranças perderam a utilidade, que algumas expectativas já cumpriram seu ciclo e que nem toda história merece ocupar espaço permanente dentro de nós.

Viver é uma sucessão de mudanças. E toda mudança exige alguma renúncia. A árvore perde as folhas para florescer outra vez. Os rios abandonam as margens que escavaram para seguir adiante. A natureza não tem medo de recomeçar. Talvez, nós devêssemos aprender com ela.

Há quem imagine que simplificar a vida é empobrecê-la. É exatamente o contrário. Quando retiramos o excesso, o essencial finalmente aparece. O silêncio encontra lugar entre tantos ruídos. O tempo deixa de ser um inimigo. O olhar alcança horizontes que antes estavam escondidos atrás da desordem.

Talvez seja por isso que a vida nos convide, de tempos em tempos, a uma grande arrumação. Não apenas das gavetas, mas das prioridades; não apenas dos armários, mas do coração.

Chega uma hora em que é preciso jogar a carga no chão. Não por cansaço, mas por sabedoria. Não porque desistimos da caminhada, mas porque queremos continuar caminhando.

É preciso abrir espaços livres.

Espaços na estante para um livro inesperado que será escrito. Espaços na agenda para um encontro sem pressa. Espaços na memória para novas lembranças. Espaços no coração para a serenidade.

Porque ninguém sonha em uma casa abarrotada, nem com uma alma ocupada por velhos fardos.

A leveza não é ausência de história. É a coragem de escolher o que merece continuar conosco.

E, talvez, a verdadeira arte de envelhecer seja esta: aprender que a felicidade não mora no que acumulamos, mas no espaço que criamos para voltar a sonhar.

Vanda Célia é jornalista em Brasília, onde trabalhou no Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Jornal da Tarde, O Estado de S.Paulo e Revista Época. Hoje, atua em assessoria de imprensa.

 


  • Google Discover Icon
postado em 05/07/2026 06:00
x