
O brutalismo voltou a ocupar espaço nos projetos de arquitetura e design de interiores. Caracterizado pelo uso de materiais aparentes, como concreto, tijolo e aço, o movimento valoriza a estrutura da construção e aposta na simplicidade dos elementos, sem esconder sua composição por meio de revestimentos ou acabamentos artificiais.
Nos últimos anos, essa estética passou a despertar o interesse de arquitetos e moradores que buscam ambientes mais autênticos e personalizados. Em um cenário marcado pela valorização da identidade e da originalidade, o brutalismo ganha uma releitura contemporânea, mostrando que é possível unir robustez, conforto e sofisticação em um mesmo projeto.
Para a arquiteta Cristina Battirola, o retorno desse estilo está diretamente relacionado à forma como as pessoas passaram a enxergar os espaços onde vivem e ao desejo de criar ambientes que reflitam mais autenticidade e personalidade. Segundo ela, a busca por materiais naturais e acabamentos que valorizem a essência da construção tem ganhado força nos últimos anos, acompanhando mudanças no comportamento dos consumidores.
"Vivemos um momento em que as pessoas buscam cada vez mais o real e menos fake, materiais verdadeiros no lugar de imitações", afirma a arquiteta, ao explicar que essa valorização da autenticidade tem impulsionado o ressurgimento do estilo na arquitetura e no design de interiores. Outro fator que contribuiu para a popularização do brutalismo foi a influência das redes sociais. De acordo com Cristina, a redescoberta de referências brutalistas, especialmente da arquitetura brasileira, ajudou a aproximar o público dessa linguagem e mostrou novas possibilidades de aplicação em projetos residenciais.
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Quebrando estereótipos
Apesar da crescente procura, ainda existem muitos equívocos sobre o estilo. Um dos mais frequentes é a ideia de que ambientes brutalistas são necessariamente frios e pouco acolhedores. Para a arquiteta, essa percepção costuma estar relacionada à execução inadequada do projeto. "A sensação de frieza normalmente vem de uma execução mal resolvida, não do estilo em si", destaca.
Outro mito é acreditar que o brutalismo se resume ao uso excessivo da cor cinza. Cristina explica que os projetos atuais exploram uma composição muito mais rica, combinando concreto com madeiras, metais e tecidos naturais. "O brutalismo contemporâneo dialoga com madeira quente, latão, tecidos naturais e paleta terrosa", ressalta.
Ela também observa que conforto e brutalismo não são conceitos opostos. A arquiteta cita o neobrutalismo como uma releitura contemporânea do movimento, que alia a força dos materiais aparentes a ambientes sofisticados, funcionais e preparados para oferecer qualidade de vida aos moradores.
Para quem deseja levar essa estética para dentro de casa, a recomendação é evitar excessos. Cristina afirma que o equilíbrio entre materiais é o principal responsável por criar espaços acolhedores. "O segredo está na dosagem e no contraste", resume. Nesse processo, madeiras de tonalidade quente, como freijó e ipê, ajudam a suavizar a aparência do concreto, enquanto cerâmicas artesanais, tecidos naturais e plantas trazem mais conforto visual. A arquiteta destaca ainda que não é necessário revestir todo o ambiente para transmitir a essência do estilo.
"Muitas vezes uma única parede ou viga aparente já comunica o estilo sem pesar no ambiente", explica a arquiteta Cristina Battirola. Segundo ela, não é necessário recorrer a grandes intervenções ou revestir todos os espaços com concreto para incorporar a linguagem brutalista. Pequenas mudanças, quando planejadas de forma estratégica, já são suficientes para evidenciar as características do estilo, preservando a leveza e a sensação de aconchego. Dessa forma, é possível criar áreas marcantes e cheios de personalidade sem abrir mão do conforto e da funcionalidade.
A iluminação também exerce papel importante na composição dos espaços. A especialista recomenda priorizar luz indireta e em tonalidades quentes, evitando que a iluminação branca incida diretamente sobre superfícies de concreto, o que pode intensificar o aspecto industrial da decoração.
Materiais, cores e texturas
Entre os materiais mais utilizados no brutalismo estão o concreto aparente, o tijolo à vista, a madeira maciça, o aço corten e pedras naturais, como basalto e ardósia. Esses elementos são a base da estética do estilo e ajudam a transmitir sua identidade marcante, valorizando a aparência natural dos materiais. A paleta de cores também segue essa proposta, reunindo tons neutros e terrosos, como cinza, off-white, terracota, caramelo e verde-oliva, enquanto o preto fosco costuma aparecer apenas em detalhes pontuais para criar contraste e destacar alguns elementos da composição.
Mais do que a escolha dos materiais e das cores, a arquiteta Cristina Battirola ressalta que a riqueza do brutalismo está na combinação de diferentes texturas. Segundo ela, é justamente a interação entre superfícies ásperas e acabamentos mais delicados que confere personalidade aos ambientes. "O contraste entre o bruto e o macio, entre o fosco e o polido, é o que dá sofisticação ao projeto", completa. Para a especialista, esse equilíbrio permite criar espaços visualmente interessantes e elegantes, dispensando o uso excessivo de objetos decorativos para compor o ambiente.
Em pequenos espaços
O brutalismo também pode ser adaptado para apartamentos compactos, desde que as características do estilo sejam aplicadas de forma equilibrada e respeitando as proporções do ambiente. Nesses casos, a arquiteta recomenda utilizar o concreto apenas como ponto focal, como em uma parede ou elemento estrutural, investir em versões mais claras de cimento queimado e aproveitar ao máximo a iluminação natural para evitar que os espaços pareçam menores.
Para Cristina Battirola, independentemente do tamanho do imóvel, o sucesso de um projeto brutalista depende de equilibrar estética e funcionalidade. "O brutalismo só funciona quando parte do programa de necessidade do cliente e não da estética pela estética", acrescenta a profissional. Ela reforça que conforto térmico, desempenho acústico, iluminação, paisagismo e proporções adequadas devem caminhar juntos para que o resultado seja bonito, funcional e acolhedor.
Contrastes que acolhem
Na avaliação do arquiteto Sérgio Facundes, é possível criar ambientes acolhedores sem abrir mão da essência brutalista, desde que o projeto seja pensado de forma equilibrada e explore diferentes elementos da composição. Para ele, o estilo não precisa resultar em espaços frios ou excessivamente rígidos, mas pode incorporar soluções capazes de tornar os ambientes mais confortáveis e convidativos. "Trazer aconchego sem perder a identidade brutalista do prédio é totalmente possível brincando com o contraste de materiais, cores e texturas".
Como exemplo, Sérgio cita uma sala com teto de concreto aparente combinada a um tapete de inspiração persa em tons avermelhados, além de um sofá de tecido claro e trama mais marcada, acompanhado por cortinas delicadas. Ele destaca ainda que a combinação entre concreto e madeira continua sendo um dos recursos mais eficientes para aquecer visualmente os ambientes, enquanto móveis de linhas orgânicas criam um interessante contraponto às formas retas e marcantes do brutalismo.
Para quem deseja investir nessa estética, o arquiteto alerta que um dos principais erros é seguir a tendência apenas porque ela está em alta. "Há beleza em todos os estilos e, quando essa escolha é feita por real identificação, o nível de assertividade aumenta", ressalta. Segundo ele, um projeto deve refletir a personalidade e o estilo de vida dos moradores e não apenas reproduzir referências vistas nas redes sociais.
Sérgio também recomenda cautela no uso de cores escuras e de materiais excessivamente rústicos. Em vez de carregar o ambiente, a sugestão é explorar novas possibilidades dentro da própria linguagem brutalista. "Um concreto que não puxa tanto para o cinza, mas sim para um bege, ou uma esquadria que, além de preta, pode ser amarela, verde ou azul", exemplifica, mostrando que o estilo permite diferentes interpretações sem perder sua identidade.
*Estagiária sob a supervisão de Eduardo Fernandes
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