Casa

Da referência à criação: o papel das redes sociais na decoração

Pinterest, Instagram e TikTok influenciam cada vez mais as escolhas para o lar, mas especialistas reforçam que um bom projeto vai além da estética

A decoração de um ambiente pode ter inspiração nas redes sociais -  (crédito: Magnific)
A decoração de um ambiente pode ter inspiração nas redes sociais - (crédito: Magnific)

Com a popularização da internet, o acesso à informação e a troca de experiências tornaram-se mais rápidos, transformando a forma como as pessoas buscam inspiração para diferentes aspectos da vida cotidiana. Nesse cenário, plataformas como Pinterest, Instagram e TikTok passaram a influenciar diretamente as decisões relacionadas à decoração e ao design de interiores, tornando comum que consumidores recorram a essas referências ao planejar ambientes ou escolher móveis para a casa.

Para a arquiteta Adriele Azevedo, plataformas como o Pinterest não devem ser encaradas como um manual de regras para a decoração, mas como uma ferramenta de inspiração. Segundo ela, as imagens funcionam como um "termômetro visual", ajudando profissionais e clientes a identificar estilos, tendências e preferências que servem como ponto de partida para a elaboração de um projeto.

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Na relação com o cliente, essas referências também facilitam a comunicação durante o processo de criação. "Ele encurta a distância entre o que o cliente sente e o que eu preciso projetar. Quando o cliente me mostra referências, ele me ajuda a decodificar preferências estéticas e funcionais que, muitas vezes, são difíceis de descrever em palavras", explica Adriele. Assim, as imagens deixam de ser um modelo a ser copiado e passam a orientar soluções personalizadas, adequadas às necessidades e à realidade de cada ambiente.

Para a arquiteta, o principal benefício dessas plataformas não está na reprodução fiel dos ambientes, mas na capacidade de traduzir ideias. "O maior ganho não é a cópia, mas a tradução: essas imagens servem como um vocabulário visual que nos permite entender, em minutos, a atmosfera e a funcionalidade que você deseja, eliminando ruídos. Quando você filtra o que gosta, transforma um desejo vago em um briefing objetivo, permitindo que a gente canalize o investimento no que realmente traz identidade e valor ao seu espaço", afirma.

Para a arquiteta, esse processo torna a comunicação mais eficiente e contribui para que o resultado final reflita a personalidade do morador, conciliando estética, funcionalidade e as características do imóvel.

Limite entre inspirar e copiar

Apesar das vantagens, o uso inadequado dessas inspirações pode gerar frustrações. Quando as imagens são tratadas como modelos que precisam ser reproduzidos fielmente, fatores como as características do imóvel, o orçamento disponível e as necessidades dos moradores acabam ficando em segundo plano.

Adriele ressalta que o Pinterest e outras plataformas devem servir como fonte de inspiração, e não como um manual a ser seguido. "As referências visuais atrapalham quando são usadas como manual de cópia em vez de inspiração, gerando expectativas irreais de custo, ignorando limitações técnicas do imóvel e priorizando o visual 'instagramável' em detrimento da sua rotina e funcionalidade real", destaca. O desafio, segundo ela, é transformar essas inspirações em soluções que respeitem a realidade de cada projeto.

Além da estética

Ao buscar ideias para decorar a casa, muitas pessoas acabam priorizando a aparência dos ambientes e deixam de considerar aspectos essenciais para o dia a dia. Segundo a arquiteta Bárbara Bortolli, fatores como funcionalidade, ergonomia, rotina dos moradores e viabilidade da execução costumam ser esquecidos, o que pode resultar em escolhas pouco práticas.

"Muitas pessoas acabam priorizando apenas a estética. Nem tudo o que é bonito em uma imagem pode ser reproduzido em determinado espaço ou dentro de um orçamento específico", explica. Ela acrescenta que iluminação, marcenaria, manutenção dos materiais e questões técnicas também precisam ser avaliadas para garantir um projeto equilibrado.

Embora as redes sociais impulsionem tendências de decoração, Bárbara acredita que elas também ajudam as pessoas a descobrir o próprio estilo. Segundo a arquiteta, os algoritmos reúnem conteúdos semelhantes às preferências do usuário, facilitando a identificação de elementos que realmente fazem sentido para sua casa.

Nesse contexto, cabe ao arquiteto transformar essas inspirações em soluções compatíveis com a realidade do projeto. "Isso significa explicar quais soluções são adequadas, quais apresentam limitações e quais alternativas podem oferecer um resultado ainda melhor. Muitas vezes, durante o desenvolvimento do projeto, o cliente percebe que algumas escolhas fazem mais sentido do que aquelas imaginadas inicialmente", afirma. Recursos como imagens e visualizações em 3D também auxiliam na compreensão do projeto e tornam as decisões mais seguras.

Outro ponto destacado por Bárbara é o risco de reproduzir tendências sem considerar a identidade de quem irá habitar o espaço. "O maior risco é a banalização da ideia de um projeto personalizado. Em vez de desenvolver soluções pensadas para as necessidades específicas de cada cliente, muitas pessoas acabam apenas reproduzindo ambientes que, muitas vezes, não funcionam para sua realidade", ressalta.

Para quem utiliza as plataformas como fonte de inspiração, a recomendação é enxergá-las como um ponto de partida, e não como um modelo definitivo. Segundo a arquiteta, essas ferramentas ajudam o cliente a descobrir suas preferências, enquanto cabe ao profissional interpretar essas referências e transformá-las em um projeto funcional, viável e personalizado. Dessa forma, a inspiração deixa de ser um padrão a ser copiado e passa a contribuir para a criação de ambientes que unem estética, conforto e identidade.

Ao reunir diferentes perspectivas, as especialistas reforçam que as referências encontradas na internet podem ser grandes aliadas no processo de criação de um projeto de interiores, desde que sejam utilizadas de forma consciente. Mais do que reproduzir ambientes vistos nas redes sociais, o objetivo deve ser compreender quais elementos fazem sentido para a rotina, o orçamento e a personalidade de quem irá ocupar o espaço. 

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

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postado em 12/07/2026 06:00
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