
Hoje é dia de parar o mundo diante de uma bola. É dia de final de Copa do Mundo. Argentina e Espanha se encontram logo mais e algumas questões já estão ecoando. A primeira delas é que o futebol mudou profundamente. Quem assistiu ao Brasil de 1970 guarda na memória um jogo de talento quase intuitivo, em que craques como Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson e Rivellino pareciam transformar o futebol em arte. Nos anos 1990, ainda era possível imaginar um atacante como Romário esperando pacientemente na grande área pelo momento exato de dar o bote.
Bastava uma bola. Hoje não existe mais esse luxo. O futebol se tornou uma combinação impressionante de estratégia, ciência, preparação física, análise de dados, velocidade e inteligência coletiva. Cada jogador corre quilômetros em alta intensidade, marca, recompõe, pressiona, ocupa espaços, participa da construção das jogadas e ainda precisa manter a lucidez para decidir em frações de segundo.
Assistir a uma partida atualmente é quase assistir a uma coreografia de altíssima complexidade. Talvez seja justamente por isso que seleções sem tanta tradição histórica passaram a competir em igualdade com gigantes do futebol. Japão, Estados Unidos e tantas outras equipes mostraram que disciplina tática, investimento em formação e excelência física conseguem reduzir diferenças que antes pareciam intransponíveis. A nova geração simplesmente voa em campo.
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Ao mesmo tempo, esta Copa também nos lembrou de que o esporte não vive isolado do restante da sociedade. As discussões sobre apostas esportivas, interesses econômicos, direitos de transmissão, influência política e decisões de arbitragem mostraram como o futebol também reflete as tensões do nosso tempo. Em diferentes momentos, surgiram dúvidas, especulações e debates acalorados nas redes sociais sobre quem realmente exerce influência nos bastidores desse enorme espetáculo global.
Não me interessa transformar suspeitas em certezas. Pelo contrário. O que considero mais importante é preservar nossa capacidade de fazer perguntas. Quem financia os grandes ecossistemas do esporte moderno? Como interesses econômicos influenciam a organização das competições? De que maneira o crescimento das apostas esportivas altera a relação do público com o jogo? Como garantir transparência para que a confiança no futebol continue sendo um patrimônio coletivo?
Essas perguntas não diminuem a beleza do esporte, continuamos sendo torcedores apaixonados, só não queremos ser marionetes! Meu coração hoje tá doendo, eu queria que o Brasil estivesse nessa final. Queria ouvir novamente um estádio inteiro cantando nosso hino antes de disputar o tão sonhado hexacampeonato. Não foi desta vez. Que venha 2030.
Até lá, seguimos tentando continuar acreditando que o esporte ainda é esse raro lugar onde a excelência, o respeito e a paz conseguem vencer juntos.

Revista do Correio
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