
Os pets fazem parte da rotina de inúmeras pessoas de diversas maneiras. São companheiros no dia a dia, participam de práticas esportivas e são presença constante em períodos difíceis. Uma relação que, sem dúvidas, é uma troca diária e especial. Em muitos desses tantos afazeres, o passeio com o bicho é uma das atividades nas quais a conexão humano-animal mais se fortalece.
Esse fenômeno reflete uma mudança cultural profunda. Segundo dados do Instituto Pet Brasil, o país já conta com mais de 160 milhões de animais de estimação. Mostrando, assim, que o mercado pet não para de crescer. O reflexo disso está nas cidades, que se adaptam para receber os "membros de quatro patas" na família, transformando espaços públicos em pontos de encontro e socialização.
Parques comunitários, passeios coletivos ou uma simples caminhada com horário marcado podem criar laços entre os tutores e os animais. No caso dos encontros de pets em gramados, por exemplo, forma-se uma comunidade unida pelos laços caninos. No parque para cães do Lago Norte — o ParCão —, diariamente, cachorros de todos os portes e tutores se encontram em um gramado extenso que proporciona muita diversão.
- Leia também: 7 lições de vida que aprendemos com cães e gatos
- Leia também: Os pets mais fáceis de cuidar que estão ganhando espaço na vida urbana moderna
Nesse espaço, localizado na QI 2, amigos são feitos e relações são estreitadas. O local nasceu com a expectativa de criar um ambiente onde os animais possam correr livres. A presença dos tutores, a vacinação em dia e o recolhimento das fezes dos pets são as regras que mantêm o bem-estar de todos os frequentadores.
Luis Gustavo Ferreira, 19 anos, explica como essa rotina impacta a sua vida e a de Billie e Bella, seus cachorros da raça Beagle. "Sentia que eles ficavam sozinhos aqui em casa, então precisavam interagir com outros cachorros e brincar com eles", destaca. Luis reforça que essa interação foi benéfica por ensinar os pets a lidarem com outros animais e com diferentes comportamentos. "No começo, ficavam desconfiados com a aproximação de outros cachorros e rosnavam, mas depois se acostumaram com esse contato", afirma.
Impactos para os humanos
A psicóloga cognitivo-comportamental Rejane Sbrissa ressalta que os efeitos acarretados pelo convívio entre animais e humanos vão muito além do bem- estar momentâneo. "Ao acariciar um cão ou um gato com quem temos vínculo afetivo, ocorre o aumento da ocitocina, conhecida como o hormônio do vínculo. Há, ainda, o aumento da dopamina e da serotonina,
neurotransmissores relacionados ao prazer, à motivação e ao bem-estar. Em muitas pessoas, também ocorre a liberação de endorfina, que ajuda a reduzir a percepção da dor e promove a sensação de conforto. Também há uma redução do cortisol, o principal hormônio do estresse", elucida a profissional.
Essas respostas hormonais e neurológicas podem auxiliar na diminuição da frequência cardíaca, da pressão arterial e da sensação de tensão física. "Os animais oferecem uma forma de companhia sem julgamentos. Eles proporcionam a sensação de acolhimento e pertencimento, causando a redução da solidão, conforto emocional e, em momentos difíceis, incentivo à rotina, ao autocuidado e à atividade física, especialmente no caso dos cães", detalha Rejane.
Para pessoas com ansiedade e depressão, a previsibilidade de ter uma rotina com um animal alivia as dores psicológicas. "Os cuidados com um pet aumentam a sensação de controle, proporcionam exposição à luz natural e ao convívio social quando há saídas ao ar livre, fortalecem o senso de responsabilidade e propósito e oferecem afeto e companhia, reduzindo a sensação de isolamento. Do ponto de vista psicológico, cada tarefa concluída — alimentar o pet, trocar a água, passear ou brincar — representa uma pequena experiência de sucesso."
Segundo ela, esse processo favorece a autoestima e a ativação comportamental — estratégia usada no tratamento da depressão que ajuda a pessoa a retomar gradualmente atividades significativas e recuperar o interesse pelas tarefas cotidianas. No entanto, ela relembra que os efeitos proporcionados pela presença dos animais não substituem um tratamento psicológico ou psiquiátrico quando necessário, mas podem ser um importante fator de proteção e favorecer o bem-estar emocional.
O benefício para os pets
Marina Chequer, 43, moradora da quadra 316 da Asa Norte e frequentadora do gramado que divide as quadras 315 e 316, leva Athos, seu buldogue francês, diariamente para o encontro dos cães. "Quando eu, meu marido e o Athos nos mudamos para a quadra, começamos a frequentar o campão. Fomos muito bem acolhidos, tanto pelas pessoas, quanto pelos animais." Marina conclui que o espaço, apesar de ser público, tem regras de senso comum aplicadas. "Os bichos mais dóceis ficam sem coleira, mesmo não sendo o recomendado. Os cachorros que causam algum tipo de confusão nem frequentam. Então, as pessoas têm muita consciência."
Segundo ela, Athos "fica bem mais relaxado, tranquilo e com as necessidades supridas" após o passeio. Nesse sentido, os impactos psicológicos e físicos, comprovadamente, abrangem os pets. Estar em contato com a natureza e com diferentes indivíduos permite um gasto energético durante as interações que ajuda no controle do peso, no equilíbrio e na flexibilidade. Aliado a isso, estar em contato com outros animais promove o desenvolvimento saudável, com o aprendizado de uma linguagem corporal mais correta — o que evita brigas e conflitos — e uma flexibilidade cognitiva mais aprofundada, preparando-os para lidar com situações complexas e inesperadas nos diversos ambientes. Mais do que isso, reduz o tédio, a ansiedade de separação e previne o estresse.
O médico-veterinário Ricardo de Pauli, especialista em comportamento animal, explica que a socialização dos bichos da porta para fora depende do tratamento recebido desde o nascimento. "Do primeiro ao terceiro mês de vida, aproximadamente, o cão está completamente flexível em termos de adaptação com outros indivíduos, período no qual o animal começa a ter contato com outras espécies e a entender que outros animais vão conviver com ele durante a vida", acrescenta. Ele analisa a importância desse contato durante o período de socialização primária dos animais — o qual é semelhante ao dos humanos —, mas reafirma a recomendação de que os animais só devem sair à rua após a finalização do ciclo vacinal, para evitar que fiquem suscetíveis a doenças.
Ele recomenda que os tutores façam passeios com os filhotes no colo, para que o processo de socialização seja feito com segurança. Além disso, a exposição a ruídos e a pessoas diferentes também é importante nesse período. Quando o contato é feito de maneira defasada, o cachorro pode desenvolver ansiedade, medo e reatividade.
Para animais adultos, a atenção durante o contato com outros pets deve ser voltada a acidentes e traumas. Os diferentes portes e as brincadeiras bruscas podem causar lesões, brigas por espaço, comida e atenção podem gerar ansiedade contínua. Ademais, o contato próximo facilita a transmissão de parasitas, como pulgas e carrapatos, e de doenças infectocontagiosas. Por isso, manter a carteira de vacinação em dia e realizar visitas recorrentes ao veterinário é crucial.
Ricardo aconselha que, em grupos de encontros caninos e creches, a socialização seja feita de maneira cautelosa, com poucos animais e supervisionada por especialistas em comportamento animal que sejam capazes de identificar as expressões faciais e corporais, evitando conflitos e situações desconfortáveis.
A socialização, apesar de ser preferencialmente realizada nos meses iniciais de vida, também pode ser feita na fase adulta. A neuroplasticidade — capacidade do sistema nervoso de mudar, reorganizar-se e adaptar-se ao longo da vida — é preservada nos animais, o que permite a formação de novas associações emocionais por meio de protocolos como a dessensibilização sistemática (método que reduz reações de medo por meio de uma hierarquia de estímulos, associando a exposição gradual ao objeto temido a um estado de relaxamento físico) e o contracondicionamento (técnica que consiste em substituir uma resposta emocional ou comportamental indesejada por uma resposta oposta e positiva, associando o gatilho a um estímulo agradável).
Nos casos de animais que sofreram abandono ou maus-tratos, esses metódos servem como base para a sua reintrodução social. A veterinária Ceres Faraco destaca que a ideia de que animais adultos com histórico de isolamento ou trauma são "casos perdidos" é um mito superado pela ciência comportamental. "Expor o animal de forma gradual e controlada ao estímulo que causa medo ou agressividade, enquanto se associa esse estímulo a experiências positivas, como alimento de alto valor, afeto ou brincadeira, é muito valioso. O processo pode ser lento, durar semanas ou até muitos meses e exige consistência", pondera.
*Estagiária sob a supervisão de Eduardo Fernandes
Quais locais do Distrito Federal os cachorros podem brincar em segurança?
-
Parque de Águas Claras, com encontros diários às 17h
-
ParCão do Cruzeiro, localizado próximo à Feira Permanente do Cruzeiro
-
Parque do Bosque, no Sudoeste
-
Quadra 106 do Noroeste, com encontros garantidos a partir das 17h30
-
Parque Asa Delta, no qual além do gramado, tem o atrativo da entrada para o Lago Paranoá, para aqueles animais que gostam de água
-
Parque da Cidade, próximo ao Estacionamento 6
Saiba Mais

Revista do Correio
Revista do Correio
Revista do Correio
Revista do Correio