
Minha bateria social é bem curta. Murcha, talvez. Bate-papos longos só com amigos de (também) longa data. Se a conexão não é sincera, a habilidade de seguir com essas conversas de bar, ou 'small talk' , como diriam os estadunidenses, simplesmente não aparece.
Algum tempo atrás, essa incapacidade me irritaria. Hoje, até me deixa em algumas saias-justas, mas também me faz mais resiliente e assertiva, já que, na maioria das vezes, a sensação que tenho quando forço ser quem não sou é de perda de tempo.
E tempo para quê? Para ser como eu quiser: fazer tudo ou fazer nada. Andar por aí, sair com os amigos, assistir a um filme, aproveitar o meu lar sem perturbações ou mesmo o meu momento de inspiração para escrever matérias ou crônicas.
Esta semana, minha caçula viu uma sacola que usava para carregar os livros da escola dois anos atrás e disse que sentiu saudade de quando era daquele tamanho. Um sentimento tão genuíno e belo, e que não precisa ser ruim. Pode estar acompanhado de tristeza, é claro, mas também denota um processo de mudança interior.
A saudade de quem fui, portanto, hoje me envolve apenas como lembrança de momentos de felicidade. Tento não olhar para o passado como um algoz. Quero que ele seja simplesmente conselheiro. Que os erros cometidos ali restem como aprendizado e não deixem arrependimentos. Que as decepções vividas igualmente não deixem mágoas, mas instinto de proteção e autoestima.
Do alto dos meus privilégios é fácil falar. Mas acredito que a saudade envelopada nesse contexto seja o mais puro componente do amadurecimento. E um sinal claro disso é saber seguir os mestres e as referências que eles deixaram gravadas. Até hoje recorro, por exemplo, às pílulas de conhecimento sobre a língua portuguesa da querida amiga e jornalista Dad Squarisi.
Mesmo anos após a partida, ela segue como inspiração. E lá vou eu confirmar, afinal, se o certo é saudade ou saudades. A explicação vem acompanhada de leveza, como era sua característica:
"'Já começo a sentir saudades', repetiu Francisco um montão de vezes no discurso de despedida. Foram duas surpresas. Uma: oba! O papa conhece a portuguesíssima palavra que, dizem, não tem tradução. E a empregou como manda o dicionário. A outra: que susto! Sua Santidade tropeçou no plural? No singular, saudade não daria o recado? Daria. O s não se impõe. Sobra. Mas não rouba pontos do pontífice. O mesmo ocorre com ciúmes. Basta ciúme. Mas exagerados não se conformam com o suficiente. Preferem ir além. Acham que só o plural dá a dimensão do sentimento que lhes rouba a paz e a autoestima. A língua lhes estende a mão. Que aproveitem.", ensinava Dad.
E traz ainda um poema célebre de Casimiro de Abreu, que tem tudo a ver com essas linhas que hoje escrevo. Dizem os primeiros versos de Meus oito anos: "Oh! que saudades que tenho / Da aurora da minha vida / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!."

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