
Por Beto Seabra*
Quando eu era criança, sonhava em viajar para Vênus. Pura influência dos seriados japoneses que passavam na TV brasileira nos anos sessenta e setenta. Mesmo na tela em preto e branco, o planeta vizinho não parecia ser tão quente quanto de fato é, e sim um lugar legal e cheio de aventuras.
Também queria ter uma lâmpada maravilhosa que guardasse um gênio para que eu fizesse três pedidos, igual àquelas que apareciam nos filmes da sessão da tarde. Um dos pedidos seria ganhar uma bicicleta de marcha, o que aconteceu alguns anos depois e sem interferência do gênio, mas, sim, do meu pai.
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Depois eu queria poder voltar ao passado, como naquele programa que tinha um túnel do tempo. Não sei o que eu iria fazer na Idade Média ou na Roma Antiga, sem saber falar aquelas línguas estranhas e sem armas para me defender. Seria presa fácil. É que no programa os viajantes, mesmo sendo norte-americanos que falavam um português dublado, conseguiam se comunicar com qualquer um dos povos antigos, inclusive os egípcios. E sempre se safavam dos malfeitores daqueles tempos.
Em certo período da vida, eu queria viver numa ilha perdida, como aqueles garotos do livro de aventuras da Maria José Dupré. Foi quando eu comecei a trocar a televisão pelos livros.
Viajei com Narizinho, Emília, Pedrinho e o restante da turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo para conhecer o mundo na leitura da Geografia de Dona Benta. E me apaixonei pelas personagens de Capitães da Areia, talvez a primeira aula que tive sobre consciência social.
Já na adolescência, mesmo sem deixar a literatura de lado, passei a me interessar pelas músicas, e especialmente pelas letras da MPB. Ouvia sem parar Chico, Caetano, Gil, Gal, Elis, Milton, Djavan e a dupla João Bosco e Aldir Blanc. E me apaixonei perdidamente pela Bossa Nova de Tom, Vinícius, João Gilberto e Nara Leão.
Por intermédio de um vizinho, descobri a música que vinha do Nordeste. Primeiro o baião de Gonzaga, depois os novos do Ceará, Pernambuco e Paraíba. E encontrei perto de mim o som dos irmãos Clodo, Climério e Clésio, piauienses radicados em Brasília.
O rock dos anos 1980 chegou junto com a universidade, mas não abandonei a música brasileira. Pelo contrário, voltei no tempo para conhecer melhor Pixinguinha, Noel, Cartola e Ary Barroso. E graças à Rádio Nacional, ouvindo seus programas noturnos, eu me apaixonei perdidamente por Edith Piaf.
Depois, não sei o que aconteceu. Nada de muito novo surgiu depois disso. Então passei a mostrar todo esse acervo musical e literário aos meus filhos, que me mostraram outros caminhos, na música internacional ou nas novas bandas brasileiras de hard rock, no rap e no renascimento da música instrumental, hoje talvez a que eu mais escute.
Impressionante, já se passaram quase 60 anos desde que vi aquele primeiro seriado japonês na TV, ainda bastante vivo na minha memória. Parece que foi ontem, e foi.
*Beto Seabra é jornalista e escritor

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