
Por Beto Seabra—Caçula. Palavra doce. Lembra açúcar. Mas essa é de origem árabe, enquanto a primeira é africana. Para os portugueses, a filha ou filho mais novo é chamado de benjamim, também uma palavra adocicada. Mas no Brasil pegou o termo caçula, que veio da língua africana kimbundo, muita falada em Angola.
Hoje, muitas famílias não possuem caçulas, pois a maioria dos casais está preferindo ter apenas um filho. O que é compreensível, diante de um mundo cada mais vez competitivo. Sem contar o aquecimento global, que assombra o nosso futuro.
Meus pais tiveram três filhos e eu também. E tanto na minha primeira família quanto na segunda, os caçulas foram temporões e vieram com uma diferença de quase uma década após o primeiro filho.
Na condição de filho mais velho, tive dois irmãos caçulas. A minha irmã, que nasceu dois anos depois de mim, e o meu irmão, que nasceu nove anos depois. Esta crônica trata do meu irmão caçula, o Marcelo, que nos deixou faz duas semanas e que neste 6 de agosto faria 53 anos.
Fiz essa abertura para criar coragem em escrever sobre uma perda tão imensa para mim e a minha família.
Pois os caçulas foram feitos para renovar a crença na vida e trazer para o lar, que começava a ficar monótono, parte da alegria infantil perdida.
Quando eles partem antes de nós, deixamos partir também um pedaço de nossa infância e da nossa alegria. Pois quem parte, leva-nos uma parte, mesmo que lutemos para prosseguirmos inteiros.
Meu irmão caçula tinha cara e jeitão de caçula. Brincalhão, bonachão, grandão, tudo nele era ão. Perto dele ficávamos mirrados, quase invisíveis.
Ontem, seria dia de eu ligar e fazer a velha brincadeira ao dizer que ele estava ficando velho. E a resposta dele era a de sempre: ainda assim, quase 10 anos mais novo que você!
Quando fui visitá-lo no hospital, eu disse ao pé do ouvido que era injusto ele adoecer antes de mim. Quem vai cuidar do seu irmão mais velho?, perguntei, entre lágrimas. Ele estava sedado, então não sei se me ouviu.
Tento acreditar em vida após a morte, pois sou um cético esperançoso. Por outro lado, acredito na fé das pessoas. Uma amiga me disse que o meu irmão deixou de sofrer — ele lutou bravamente contra um câncer por quase sete anos, e nesse período de luta nunca deixou de fazer o que gostava — e que agora ele vive em outra dimensão à qual não conseguimos acessar.
Essa forma de pensar da minha amiga me deixou mais tranquilo. Se tudo é energia, como já provou a física quântica, então quem parte de nós vira energia em outro lugar, em outra dimensão.
E, se assim for, lá do outro lado o Marcelo será um colosso de energia concentrada, um verdadeiro dínamo energético que continuará enviando boas energias aqui para o nosso mundo material, como sempre fez quando estava entre nós.

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