Comportamento

Os múltiplos afetos e relações não-monogâmicas

Os moldes de relacionamentos fora da monogamia ganham atenção com as redes sociais. Para especialistas, respeito e honestidade são fundamentais em arranjos não convencionais

A poligamia é uma das formas de não monogamia -  (crédito: Magnific)
A poligamia é uma das formas de não monogamia - (crédito: Magnific)

Mudanças na sociedade alteraram, significativamente, a forma como uma parte da população, principalmente as gerações mais novas, encara sexo e relacionamentos. As configurações fora do padrão normativo, como a poligamia, por exemplo, não surgiram recentemente.

Atualmente, é legal ter mais de uma esposa em 40 países. Em outros 20, a poligamia não está escrita nas leis, mas é culturalmente aceita. No Brasil, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) proíbe cartórios de lavrarem escrituras públicas de uniões estáveis poliafetivas desde 2018. Isso significa que, perante a lei brasileira, relações não monogâmicas ainda encontram grandes barreiras para reconhecimento de direitos como pensão por morte, divisão de bens e inclusão em planos de saúde.

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Longe de ser um mero arranjo do passado ou estar restrita a tradições religiosas específicas, a busca por novas formas de amar e conviver ganha força nas redes sociais e chega cada vez mais às pautas do Judiciário, desafiando a histórica hegemonia da monogamia e exigindo do Estado respostas formais sobre sucessão, previdência e proteção aos direitos humanos.

As relações

Muitas dúvidas são levantadas, por exemplo, sobre como as relações não monogâmicas se dividem. Teoricamente, existem relacionamentos abertos, poligamia e poliamor. Emerson Alexandre, psicólogo e sexólogo, mostra as diferenças: "No relacionamento aberto, existe um casal que decide abrir a relação para vivenciar outros tipos de relacionamentos. A poligamia é um casamento no qual se permite ter vários afetos, mas com a instituição do matrimônio. No poliamor, é permitido viver esses vários afetos, mas sem a obrigatoriedade de um casamento ou de um relacionamento central."

Emerson elucida que a não monogamia e seus ramos são modelos relacionais, e existe, internamente, uma infinidade de arranjos não convencionais. Para ele, o preconceito advém muito do ideário criado em torno dos relacionamentos monogâmicos. "Nesses moldes monogâmicos, não é possível nem cogitar a ideia de sentir desejo, ter pensamentos ou fantasias com outra pessoa. Por isso, o diálogo é o termômetro de todo e qualquer relacionamento."

Os estigmas

Na prática, as configurações desses relacionamentos podem ser decididas e avaliadas pelos próprios participantes, acredita Eudiléia de Fátima, psicóloga especializada em relacionamentos. Ela discorre
também sobre uma dúvida comum que permeia os relacionamentos poliamorosos: como as pessoas lidam com o ciúme? Para ela, a existência desse sentimento não inviabiliza a relação. "Temos que entender como o ciúme é trabalhado dentro da relação. Ele precisa ser investigado para que não se torne um limitador controlador do outro. É necessário trabalhar a questão e fazer acordos benéficos para todos."

Eudiléia relata que o ciúme pode se apresentar de várias formas, como na crença de que o parceiro está se dedicando mais ao outro, ou em decorrência de inseguranças pessoais. "O importante é que essas situações são solucionáveis dentro da relação, desde que haja uma boa comunicação."

Além de ressignificar o ciúme, a não monogamia introduz o conceito de compersão — frequentemente descrito como o oposto do sentimento de posse. A compersão é a capacidade de sentir genuína alegria e satisfação ao ver uma pessoa amada vivenciando prazer, afeto e felicidade com outro alguém. Em vez de enxergar o afeto externo como uma ameaça ou escassez, esse sentimento parte do princípio de que o amor e o desejo não são finitos, transformando a empatia na base para que o bem-estar do parceiro seja comemorado, independentemente de quem o proporcionou.

Helena Lima, professora e multiartista autônoma de 32 anos, relembra que seu processo de autoconhecimento começou dentro de um relacionamento. "Eu namorava fechado há quatro anos com uma pessoa, já tinha pensado algumas vezes sobre isso, mas não tinha coragem de sustentar essa escolha. Aí meu parceiro na época propôs a abertura, e eu aceitei. Ficamos quase seis anos juntos, e foi um movimento muito importante de descoberta dessas outras formas de se relacionar."

Antes da abertura do relacionamento, alguns tópicos devem ser conversados pelo casal para que a relação permaneça saudável. Primeiro, o consentimento deve ser mútuo — muitos relacionamentos não funcionam porque um dos componentes aceitou por pressão. Quando a relação passa a ser aberta, deve haver uma simetria de informações entre os participantes para evitar segredos que possam afetar a confiança.

Eudiléia relembra que não é porque o relacionamento não segue os moldes "sociais", que se deve deixar de lado a honestidade e a parceria. "A fuga e o descaso com a relação podem adoecer os membros, gerando ansiedade, insônia, isolamento social e desinteresse pela vida."

Outra dificuldade enfrentada é o preconceito vivido na pele pelas pessoas não monogâmicas. Quem segue esses modelos, como o professor Lucas (ele preferiu não divulgar o sobrenome), de 26 anos, sente como a ignorância é prejudicial. "O preconceito existente contra relações que fogem do padrão tradicional é a visão limitada de que apenas a monogamia é correta, como se tudo o que fugisse disso fosse moralmente e eticamente errado, o que acaba desvalorizando a relação que eu tenho."

Ele explica que muitas pessoas reduzem seu sentimento a uma indecisão ou à existência de uma carência. "O maior erro, com certeza, é acreditar que o relacionamento é aberto porque 'falta algo'. Entender que ninguém 'completa' ninguém já é um passo importante para compreender o erro dessa visão. Quem vive uma relação aberta não está procurando em outras pessoas o que falta em seu parceiro; está apenas aberto a viver experiências diferentes, entendendo que isso em nada diminui seu relacionamento", finaliza.

Helena, por fim, almeja um futuro mais aberto à diversidade. "Meu sonho é morar em uma casa grande com todos os meus afetos. Viver em rede, em comunidade. Penso nisso desde criança; achava que era coisa da Helena mais nova, mas hoje esse desejo ainda me habita. Queria poder casar com as pessoas que escolhi para compartilhar a vida sem que o motivo principal seja o sexo", reflete.

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

 


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postado em 23/08/2026 06:00
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