Moda

Ventana transforma roupas garimpadas em peças únicas e autorais

Criada por Gabrielle Pilotto, marca aposta no upcycling artesanal, produção sob medida e colaborações para ampliar o alcance da moda sustentável

Fundada em 2020 pela estilista Gabrielle Pilotto, a Ventana nasceu da vontade de transformar o olhar sobre roupas que já existiam. A marca surgiu a partir da experiência da designer com um brechó e consolidou uma proposta de upcycling que preserva costuras, remendos e marcas do processo criativo, fazendo delas parte da identidade de cada peça.

Operando com produção artesanal e modelagens desenvolvidas a partir das medidas de cada cliente, a Ventana trabalha principalmente com peças únicas, confeccionadas a partir de roupas de segunda mão e outros materiais reaproveitados. Ao longo dos anos, a marca expandiu seu alcance com colaborações com grandes empresas e desfiles internacionais, incluindo uma apresentação em Nova York, sem abrir mão da produção independente.

Em conversa com a Revista do Correio, Gabrielle relembra o início da marca, fala sobre os desafios de trabalhar com upcycling no Brasil e explica como transforma roupas garimpadas em peças exclusivas.

Divulgação - O upcycling é o processo de transformar materiais descartados em novos itens

Divulgação - Colaboração da Ventana com a C&A

Entrevista // Gabrielle Pilotto

Em que ano a Ventana foi criada e como ela nasceu?
Em 2020. Eu já tinha um brechó e trabalhava com ele, mas queria ter uma marca. Eu havia estudado moda e tinha vontade de criar algo nesse formato. Como no brechó eu já fazia muita curadoria de peças, comecei justamente desse lugar: pegando roupas de brechó e transformando-as. Eu ainda não sabia costurar muito bem, então comecei a procurar costureiras e estruturar tudo. A marca já era uma vontade antiga, mas só consegui colocar essa ideia no papel e fazê-la acontecer em 2020.

Como surgiu o nome da marca?
Ventana significa "janela" em espanhol. O nome do meu brechó era "La Pregunta", mas eu não gostava dele. Como eu ia criar uma marca, decidi mudar também o nome. Durante muitas pesquisas, fui tentando encontrar um significado que fizesse sentido. Na época em que a marca nasceu, tive uma doença granulomatosa e fiquei mais isolada da minha família. Eu via tudo pela janela. Meu companheiro sugeriu o nome Ventana e tudo começou a se conectar: aquele momento da minha vida, a criação da marca e também a ideia de oferecer um olhar diferente para a moda tradicional.

Você se lembra qual foi a primeira peça da Ventana?
Não lembro exatamente qual foi a primeira peça, mas lembro muito das primeiras técnicas que eu usava. Como eu ainda não sabia costurar, trabalhava bastante com elástico e ilhós. Essas soluções acabaram virando uma característica das primeiras criações e estavam presentes desde o início da marca.

Em que momento você percebeu que essas roupas de brechó poderiam se transformar em peças valiosas e únicas?
Foi em 2012. Naquela época, eu já comprava roupas, desmanchava, transformava e vendia. Desde então, percebi que existia potencial para agregar valor a essas peças. Com o tempo, fui entendendo melhor como fazer isso. Na época, havia uma quantidade muito grande de roupas disponíveis nos brechós e era possível trabalhar com custos menores. Hoje, o mercado mudou bastante. Os materiais ficaram mais caros e produzir uma peça de upcycling custa muito mais.

Quais são os maiores desafios de manter uma marca de upcycling no Brasil hoje?
O maior desafio é financeiro. É difícil para muitas pessoas conseguirem comprar uma peça pelo valor que ela realmente custa, mas eu também não consigo cobrar menos porque existe toda uma cadeia de trabalho por trás: a minha mão de obra, a das costureiras, a lavagem das roupas e todo o processo de transformação. Além disso, o upcycling não permite uma produção em grande escala, a não ser quando existe uma parceria com uma indústria. Então, existe esse desafio constante entre o reconhecimento do trabalho e a dificuldade de transformar esse reconhecimento em vendas.

Como funciona o processo de criação das peças hoje?
Cada peça nasce de um jeito. Às vezes, começo desenhando no ateliê e definindo como quero que ela fique. Quando trabalho com crochê, por exemplo, muitas vezes faço tudo diretamente na boneca. Já com tecidos planos, desenvolvo a modelagem junto da costureira. Ela também contribui bastante, sugerindo ajustes quando percebe que outra modelagem pode funcionar melhor. Mas todas as ideias acabam surgindo daqui, da minha cabeça.

Como funciona a compra das peças, considerando que cada uma é única?
É sempre a partir das medidas da cliente, porque é muito difícil existir uma modelagem padrão para todo mundo. Algumas peças, como uma das nossas calcinhas mais vendidas, conseguem ser reproduzidas porque temos uma quantidade maior daquele tecido. Mas, na maioria dos casos, eu explico para a cliente que ela vai enviar as medidas e que trabalharemos com os materiais disponíveis. A peça nunca fica exatamente igual à outra, porque a maior parte da produção é realmente única.

Qual conquista da marca mais te dá orgulho até hoje?
Tenho muito carinho pela colaboração que fiz com a C&A, porque ela mostrou que é possível aproximar o slow fashion da indústria. Acho importante existir esse meio-termo, porque, sem isso, nem eu consigo expandir o tipo de moda em que acredito, nem a indústria consegue caminhar para formas mais sustentáveis de produção. Também tenho muito orgulho dos desfiles. Um dos mais especiais foi o que fiz no Consulado, em Nova York, porque pude levar um pouco da cultura da minha cidade, trabalhar com artistas locais e construir uma apresentação muito conectada com as minhas origens.

 

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