
Com a popularização das redes sociais, as tendências são rapidamente criadas e disseminadas pelo mundo. No entanto, na mesma velocidade em que elas são lançadas, muitas vezes, as peças logo são consideradas "bregas" e acabam parando no fundo do guarda-roupa. Nesse sentido, o consumo consciente e sustentável é o que podemos chamar de realmente fashion, nos dias atuais.
No mundo dos calçados, as ideias inovadoras — que nem sempre são criadas do zero, mas reinvenções de silhuetas consolidadas — tomam as redes sociais com os vídeos de unboxing (ato de filmar a abertura de caixas ou embalagens de produtos) e get ready with me (arrume-se comigo). Gostando ou não, os itens que saem dos pés das modelos de passarela começam a dar as caras nas ruas pelo mundo. Nem sempre por muito tempo.
Sara Giordana, professora de design de calçados, explica como os sapatos são consolidados no mercado. "Os estilos perenes estão normalmente ligados a comportamentos ou culturas, e vão aparecendo em diferentes marcas e em públicos diversos. Diferentemente das tendências, que sofrem um boom e desaparecem."
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Um exemplo são as Tabis, modelo criado pela Maison Margiela, em 1989, que nunca saiu dos eventos de moda e da boca dos fashionistas. Em 2025, no entanto, a bolha estourou e os sapatos passaram a ser famosos entre influencers e celebridades, como Dua Lipa e Pedro Pascal. O modelo exótico, com a ponta dividida entre os dedos, antes era restrito a um nicho específico dos fãs de moda, e virou um símbolo de como o algoritmo é capaz de transformar o incomum em um desejo massificado.
Além das Tabis, houve recentemente o renascimento das ballet flats, as sapatilhas. Temidas por muito tempo, elas voltam com novos estilos, compondo os looks até das pessoas que eram contra. A marca Jimmy Choo apresentou uma categoria bem conhecida pelos brasileiros: os sapatos de plástico. Tamancos e sapatilhas, nos quais os pés aparecem, voltam aos holofotes das fashion weeks. A moda se inventa e se reforma: a história nunca fica para trás.
Consumismo exagerado
Todas essas tendências refletem um problema: a crise do consumismo extremo. A criação de novos modelos gera uma necessidade de consumo, muitas vezes influenciada por celebridades que são patrocinadas, em um público que cede às tentações. Essas microtendências contribuem para a produção de mais lixo, porque depois do hype, as peças são deixadas de lado por muitos usuários.
Segundo dados divulgados pela consultoria internacional S2F Partners, cerca de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis são descartadas a cada ano pelos domicílios brasileiros. E apenas 1% desse quantitativo é destinado à reciclagem — o resto dos resíduos se acumula em lixões e aterros.
Yamê Reis, diretora executiva do Instituto Muda, explica sobre a reutilização dos resíduos dos sapatos é ainda mais problemática. "A reciclagem de calçados é mais complexa porque eles são compostos por diversos materiais diferentes, como couro, poliéster, PVC, EVA, metais e algodão, entre outros. Isso exige uma cadeia de reciclagem mais estruturada, com parceiros especializados em cada tipo de material. É um processo que demanda investimentos, tanto na qualificação de profissionais quanto no desenvolvimento de uma cadeia de valor capaz de dar destino adequado a todos esses componentes."
A diretora analisa como a moda circular e de reuso de materiais podem ser alternativas de consumo. "É fundamental ampliar o olhar para outros modelos de negócio, como reparo, revenda, recompra de peças vintage e outras iniciativas que prolonguem o ciclo de vida dos produtos. Esses modelos complementares, quando monetizados, tornam as empresas menos dependentes do varejo linear tradicional e já vêm sendo adotados por empreendedores com uma visão mais alinhada ao futuro da moda."
Yamê é especialista em ESG (Environmental, Social e Governance), sigla que se refere a um conjunto de critérios corporativos que avaliam o impacto não apenas no lucro, mas em sustentabilidade, ética social e administrativa. Nesse contexto, a prática de reutilização de materiais descartáveis e a produção de peças atemporais freia o consumo acelerado. Para ela, antes de uma compra, perguntas devem ser feitas, como: "vou usar essa peça muitas vezes?" e "ela cabe no meu orçamento?", para que um desejo passageiro se transforme em uma compra consciente.
Essa reflexão dialoga diretamente com o conceito de custo por uso, ou seja, divisão do valor da peça. No caso do sapato, pelo número de vezes em que ele é usado, percebe-se que um calçado atemporal e de boa qualidade, mesmo caro no momento da compra, resulta em um investimento muito mais econômico e sustentável a longo prazo do que uma peça barata de fast fashion usada apenas uma vez.
Um guarda-roupas cápsula de sapatos pode ser uma opção para diminuir o consumo impulsivo (leia quadro). Essa "coleção" é a base do armário e pode contar com peças atemporais e versáteis para o dia a dia, mas com um toque individual, para suprir as necessidades de cada pessoa.
Sara recomenda que, muito além de comprar as peças ditas atemporais, os consumidores conheçam os próprios gostos, para não caírem nas tendências. "É importante que a pessoa saiba o que ela realmente gosta e o que combina com o estilo de vida dela. Além disso, a qualidade dos sapatos, feito com bons materiais, e com modelagem e cores clássicas torna-os mais atemporal", explica.
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
Para ter no armário
Sara Giordana, professora de design de calçados, selecionou sete modelos clássicos que conseguem suprir todas as necessidades nos looks.
– Tênis casuais de cores neutras e solado reto: combina tanto com calça quanto com saias e vestidos.
– Sandálias rasteiras: para um visual que combine com tudo e deixe um ar descolado e chique, principalmente nos períodos mais quentes.
– Loafer: um meio-termo entre o tênis casual e o sapato social formal, transita facilmente entre estilos.
– Scarpin, com foco nos slingbacks: são casuais e formais, usados em ocasiões especiais.
– Sapatilha de qualidade: une conforto e praticidade em um look chique.
– Sandália com salto baixo ou médio: para quando há necessidade de estar um pouco mais arrumada.
– Bota de cano curto ou mediano: especialmente para épocas mais frias.

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