O mercado de produtos para animais movimenta cifras bilionárias no Brasil. Diversas tecnologias são desenvolvidas visando ao bem-estar físico e mental dos pets. Nesse sentido, novos produtos de higiene, alimentos e brinquedos surgem no mercado e levantam dúvidas nos usuários sobre a segurança e os benefícios do uso. Um exemplo são os brinquedos naturais, como os de pele de boi ou feitos de madeira, muito vistos nas redes sociais.
Nos vídeos virais, tutores dão mordedores feitos a partir de couro bovino desidratado aos seus cachorros e mostram em quanto tempo eles são capazes de roê-los completamente. Essa brincadeira, quando feita sob supervisão, promove uma série de benefícios, como a limpeza dental e o controle da ansiedade.
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As brincadeiras, sejam com acessórios, sejam com estímulos, devem, inclusive, ser parte essencial da rotina dos animais de estimação. A prática do enriquecimento ambiental consiste na modificação dos espaços e das atividades para torná-los mais desafiadores e semelhantes às experiências inatas dos pets, promovendo seu bem-estar físico e mental.
Humberto Martins é médico veterinário comportamentalista e explica a importância da prática: "O enriquecimento ambiental oferece estímulos variados, reduz o tédio e permite que o animal expresse comportamentos naturais. Isso ajuda a diminuir o estresse, a ansiedade e os comportamentos repetitivos."
Além da prevenção do tédio, da agressividade e de comportamentos indesejáveis, como a destruição de objetos, essas atividades aumentam o gasto calórico, o que consequentemente evita problemas de obesidade. "Correr atrás da bola gera, principalmente, cansaço físico. Já roer ou manipular um brinquedo natural envolve esforço físico, mental e sensorial, podendo promover um relaxamento mais completo", detalha.
Como fazer
Não há necessidade de grandes investimentos em brinquedos para que o ambiente seja enriquecido e estimulante. Existem diversas atividades que podem ser realizadas, dependendo da espécie, da idade e da personalidade do pet. Mais do que apenas os petiscos e mordedores tradicionais, brinquedos de origem natural podem, justamente, ser ótimas alternativas para diversificar os estímulos.
Como em qualquer tipo de atividade, porém, o ato de roer deve ser supervisionado pelos tutores. Kássia Vieira, médica veterinária e professora de comportamento e bem-estar animal na Universidade Católica de Brasília, ressalta a relevância do vínculo entre tutor e pet durante as atividades: "O fato de um brinquedo ser natural não significa que ele seja necessariamente mais seguro ou melhor do que um brinquedo sintético. Materiais naturais podem apresentar riscos de fragmentação, ingestão de partes, engasgos, lesões na boca ou problemas gastrointestinais. Portanto, o mais importante é avaliar a segurança do material e se ele é adequado ao tamanho, à idade, à espécie e ao comportamento daquele animal."
As opções mais populares no mercado são feitas de madeira de cafeeiro — uma alternativa sustentável, que não solta farpas pontiagudas e amolece em contato com a saliva —; fibra de coco e bambu — também sustentáveis, estimulam a mastigação e resistem bem ao uso diário —; e partes animais, como pele (trançada ou em palitos) e orelhas suínas e bovinas.
Ana Carolina Santos, estudante de 19 anos, é tutora de dois cães: a american bully Maya e o shih tzu Toddy. Apesar dos diferentes portes, eles costumam fazer uso de brinquedos naturais. "Gostamos bastante desses produtos, porque sabemos a origem deles, diferentemente dos materiais sintéticos que compõem os brinquedos artificiais. Acho só o preço um pouco puxado, por se tratar de brinquedos que se dissolvem ou são destruídos."
Os cuidados
Por serem compatíveis com o tamanho do cachorro, alguns tipos de brinquedo são extremamente resistentes para raças como dogue alemão, São Bernardo, labrador retriever e rottweiler. No entanto, Kássia explica que, mesmo com a compatibilidade de tamanho, os tutores devem ficar atentos aos sinais de cansaço extremo. "Quando o brinquedo é excessivamente resistente ou difícil de manipular, o esforço nem sempre representa um cansaço positivo. Quando a dificuldade é muito elevada e o animal não consegue atingir o objetivo, pode ocorrer frustração e aumento da resposta de estresse, incluindo a elevação do cortisol."
A veterinária esclarece que existe uma diferença clara entre uma atividade estimulante e uma atividade exaustiva: quando o desafio é possível ser resolvido, gera aprendizado; já uma atividade excessivamente difícil pode gerar frustração.
Por isso, ela reitera que é essencial o monitoramento dos animais. Os sinais de que o bicho está chegando ao seu limite são: deitar-se, ofegar, reduzir os movimentos, perder o interesse pelo brinquedo, fazer interrupções frequentes e apresentar aumento de comportamentos de deslocamento sem motivo aparente. Além disso, deve-se observar os sintomas mais sutis de estresse, como lamber os lábios, bocejar fora de contexto, sacudir o corpo, mantê-lo mais rígido ou apresentar alterações na posição das orelhas e da cauda, dependendo da espécie.
Para os felinos
Embora os mordedores sejam mais associados aos cães, os felinos também se beneficiam amplamente de estímulos naturais adaptados à sua espécie. Os ratinhos com catnip, por exemplo, são brinquedos que reúnem diversos benefícios. O grande diferencial desse item é a presença da nepetalactona, o composto químico da erva-dos-gatos que atrai o animal pelo estímulo olfativo, gerando reações de euforia e bem-estar seguidas de relaxamento. Além desse, a bolinha de matatabi conta com o composto extraído de pedaços da planta, sendo indicada para os animais que não reagem à forma natural da erva-do-gato.
A protetora independente Luana Santiago, de 40 anos, oferece esses acessórios aos seus gatos e percebe, na maioria dos casos, um interesse genuíno dos pets. "Os brinquedos com catnip ou matatabi costumam despertar bastante o interesse deles. Alguns ficam mais eufóricos, brincam, rolam e se esfregam; outros ficam mais relaxados. Nem todos reagem da mesma forma ou chegam a reagir ao brinquedo."
Kássia finaliza com um alerta: "O objetivo do brinquedo e o enriquecimento ambiental não é simplesmente manter o animal ocupado ou cansá-lo, mas, sim, proporcionar uma atividade que seja segura, interessante e compatível com suas necessidades comportamentais."
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
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