
Por Cláudio Ferreira*
Não param de chegar notícias sobre alguém que foi agredido pelo simples fato de ser quem é. As estatísticas de feminicídios estão aí para comprovar: ser mulher é cada vez mais perigoso. Próxima ou desconhecida de nós, ela está vulnerável à vontade masculina, a homens que muitas vezes a tratam como "coisa", mercadoria adquirida e da qual não se quer abdicar.
Imagine, então, pelo que passam as mulheres que não nasceram mulheres, mas decidiram sê-lo. Não é isolada a notícia de que uma mulher transexual foi perturbada, ameaçada ou agredida simplesmente por existir. Ela está lá, vivendo a sua vida cotidiana com medo, porque a qualquer momento, alguém pode questionar o seu direito de ser. Normalmente, questionar usando a força.
A lista é grande: pessoas negras, gordas, gays, lésbicas, adeptos das religiões de matriz africana. E por aí vai. Gente que não segue um padrão, padrão este que foi inventado por não sei quem e no qual uma parcela ínfima da humanidade se encaixa. E, por não caber nesse modelo, passa a vida sendo confrontado pelos mais diversos constrangimentos.
Quando cai num estereótipo aos olhos dos outros, o negro, por exemplo, tem que provar que não é ladrão; o gordo, que não é preguiçoso e desleixado; o gay, que não está interessado em todos os homens que passam pela frente dele; os umbandistas, que não estão reunidos para fazer o mal.
Reconheço que o "diferente" de nós, em um primeiro momento, pode causar estranhamento. Há mais de 30 anos, minha pele mais escura provocou curiosidade em alunos de uma escola de Treze Tilias, interior de Santa Catarina, onde a maioria é descendente de europeus loiros. Mesmo hoje em dia, com 2026 caminhando, ainda estou aprendendo com a diversidade de gêneros, que não corresponde mais ao que a gente enxerga superficialmente na pessoa.
O problema não está em "estranhar". É o degrau seguinte que tem que mudar. A gente precisa estar disponível para rever conceitos e minimizar os julgamentos. Admitir que necessita de mais tempo para absorver novidades. Mas, principalmente, não colocar a nossa vida e os nossos valores como único parâmetro a ser seguido por todos à nossa volta. Vidas são individuais e o parâmetro delas é o que cada um deseja para si e o que cada um dá conta de carregar anos a fio.
Outra providência importante é abandonar o verbo "aceitar". Seres humanos não são passíveis de aceitação, não devem ser julgados o tempo todo por um tribunal invisível que decide quem pode continuar a viver em paz. O verbo "respeitar" é mais condizente. Quem não concordar com o gênero, as escolhas ou o estilo de vida do outro, é só optar por não conviver de perto com essa pessoa. Civilizadamente, a gente escolhe de quem se aproximar. Os outros, a gente respeita.
*Cláudio Ferreira é jornalista

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