
"Eu não tenho filosofia, tenho sentidos", escreveu Fernando Pessoa. E, de todos os sentidos, a visão é o primeiro a nos apresentar o mundo. Hoje, estou especialmente animada para celebrar o lançamento do telescópio espacial Roman, que terá um campo de visão 100 vezes maior que os existentes até agora.
Criado para observar enormes regiões do céu de uma só vez e encontrar objetos e fenômenos que outros observatórios não conseguem alcançar, o Roman terá câmera de 300 megapixels e poderá investigar galáxias distantes, buracos negros e mundos fora do Sistema Solar. Ou seja, vamos ver melhor o universo que nos cerca.
Há a possibilidade de detectar planetas, galáxias, supernovas, explosões estelares e outros fenômenos raros e misteriosos que, há séculos, intrigam e assombram a mente humana.
Meu pai ficava horas olhando as estrelas. Seus olhos captavam a luz, formas e movimentos, mas sua visão certamente teria ido mais longe se pudesse contar com um telescópio tão potente quanto o Roman. Para ver mais longe.
Mas há coisas que nenhum telescópio é capaz de revelar. Algumas só aparecem quando aprendemos a olhar devagar. Vivemos cercados de imagens. Telas, fotografias, anúncios, rostos que passam apressados. Tudo parece disputar nossa atenção, mas quase nada nos convida à contemplação.
Olhamos muito, mas talvez vejamos pouco. Enxergar de fato exige tempo. Tempo para sentir a imensidão do que nos cerca e perceber aquilo que, na pressa, passa despercebido.
Ver é dádiva. Mas também é aprendizagem. É possível enxergar com a memória, com a sensibilidade, com a experiência. Reconhecer alguém pela maneira como caminha, pelo jeito de sorrir, pelo silêncio. Perceber uma tristeza escondida num olhar. Encontrar, numa fotografia antiga, uma presença que o tempo levou. Talvez seja esse o verdadeiro exercício de humanidade: aprender a olhar para além da aparência.
O tempo modifica nossa maneira de ver. Quando somos jovens, queremos descobrir o mundo. Mais tarde, começamos a descobrir aquilo que estava diante de nós e não havíamos percebido. A experiência não nos dá olhos novos, mas pode nos ensinar a usá-los melhor.
Ver é também reconhecer. Reconhecer o que temos enquanto temos. As pessoas enquanto estão conosco. A vida enquanto acontece. Talvez seja essa a grande lição dos sentidos: não basta ter olhos. É preciso estar disponível para aquilo que eles podem revelar.
Há diferença entre enxergar e ver. Enxergar é um ato dos olhos. Ver é um ato da alma. É permitir que aquilo que está diante de nós se revele sem que tenhamos a pretensão de modificá-lo. É aceitar que o mundo, as pessoas e a própria vida tenham o direito de ser exatamente o que são. Porque, no fim, o essencial é saber ver, e não apenas enxergar, o infinito.
Vanda Célia é jornalista em Brasília, onde trabalhou no Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Jornal da Tarde, O Estado de S. Paulo e revista Época. Hoje, atua em assessoria de imprensa.

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