Crônica

Crônica: O legado da amizade

Uma reflexão sobre a saudade, as cadeiras vazias da vida e a bonita arte de envelhecer cercado de afeto

Maria Paula 30/08 -  (crédito: Caio Gomez)
Maria Paula 30/08 - (crédito: Caio Gomez)

Meu pai foi um homem profundamente gentil. Daqueles que atravessam a vida sem precisar anunciar suas virtudes, porque elas aparecem no jeito de olhar, de receber, de trabalhar, de cuidar. As portas da nossa casa estavam sempre abertas. Para os amigos dele, dos filhos, dos netos e bisnetos. Meu pai parecia compreender uma coisa que levamos uma vida inteira para aprender: uma casa só se torna verdadeiramente grande quando cabe todo tipo de gente dentro dela.

Wilson Fidalgo viveu 88 anos dedicados à família, ao trabalho e aos amigos. Era um homem correto, trabalhador, amoroso. Fez questão de nos ensinar que honestidade não se negocia e que caráter não se proclama: se constrói, silenciosamente, nas pequenas escolhas de todos os dias.

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Quando ele partiu para a eternidade em maio deste ano, deixou um vazio imenso. Não apenas dentro de mim, mas no coração de tanta gente que cruzou seu caminho. Porque meu pai era, invariavelmente, aquele homem com um sorriso no rosto, interessado pelas pessoas, disposto a criar laços e, sobretudo, a conservá-los.

Esta semana, um desses laços me levou de volta a ele. Fomos comemorar os 95 anos de um de seus grandes amigos: Gilberto Salomão. Um homem que se confunde com a própria história de Brasília. Símbolo de prosperidade, generosidade, encontros e festas.

Desde que eu era criança, Gilberto esteve no epicentro das comemorações. O centro comercial que leva seu nome era também uma espécie de pista de dança da cidade. Aos domingos, íamos passear, encontrar amigos, conhecer pessoas. Brasília inteira se encontrava por lá.

Na festa dessa semana, senti a confirmação da grande lição de amizade que Gilberto Salomão representa. Aprendi com aquela turma de homens notáveis o que é envelhecer sem abandonar uns aos outros, mas olhei para aquela mesa em torno do Gilberto e meu coração apertou.

Estavam ali os amigos do meu pai. Homens cujas vidas se entrelaçaram à nossa por tantas décadas. A maioria já passou dos 90 anos e conserva uma vitalidade comovente, uma alegria quase juvenil de ainda poder se divertir juntos.

A cadeira vazia naquela mesa era a do meu pai. Foi difícil olhar para aqueles rostos e não encontrá-lo entre eles, mas ao observar aqueles homens que escolheram permanecer amigos por uma vida inteira, compreendi que existe uma forma de vencer a morte: continuar existindo nos vínculos que construímos. Meu pai estava lá.

Esse é o verdadeiro patrimônio que fica para a eternidade: não aquilo que acumulamos, mas aquilo que permanece vivo entre as pessoas depois que partimos.Voltei para casa com saudade, mas também com uma gratidão imensa. Porque naquele aniversário compreendi que meu pai continua entre nós. Continua sendo lembrado. Continua sendo querido.

Salve Gilberto Salomão, pelos seus 95 anos. Salve Wilson Fidalgo. Salve cada homem desse extraordinário círculo de amigos. E salve a amizade, essa delicada forma que o amor inventou de nos fazer permanecer.

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postado em 30/08/2026 06:00
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