Crônica

Crônica: Cármen Lúcida

Enquanto o poder se transforma em ruído e escândalo, a postura da ministra Cármen Lúcia expõe a urgência de trocarmos a política do espetáculo pela responsabilidade do voto

REV-2709-MARIA_PAULA -  (crédito: maurenilson)
REV-2709-MARIA_PAULA - (crédito: maurenilson)

Na semana passada, enquanto o Brasil assistia estarrecido a uma sessão do Supremo Tribunal Federal marcada por acusações, interrupções e conflitos entre aqueles que deveriam representar o equilíbrio e a serenidade da Justiça, uma voz se destacou. Não por falar mais alto nem por tentar vencer o debate pela força, mas exatamente pelo contrário: pela sobriedade, pela humildade e pela dignidade.

Depois de horas em silêncio, a ministra Cármen Lúcia tomou a palavra para dizer que estava em estado de "profunda consternação e tristeza". Reconheceu que o Supremo havia provocado um "mal-estar cívico" na população e chegou a pedir desculpas ao povo brasileiro por não ter conseguido contribuir mais para acalmar os ânimos. Em um ambiente no qual tantos pareciam empenhados em defender a si mesmos, ela se preocupou em defender a instituição. Em vez de transferir responsabilidades, assumiu para si uma parcela delas. Isso se chama grandeza.

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Fiquei pensando na trajetória dessa mulher avulsa: independentemente elegante, séria e tão bem preparada. Pensei também no quanto sua presença faz diferença como única mulher na atual composição da Suprema Corte. Há algo profundamente simbólico em ver uma mulher interromper, ainda que por poucos minutos, o ruído de uma estrutura predominantemente masculina para devolver ao espaço público alguma humanidade.

Ao dizer que estava triste e envergonhada, Cármen Lúcia expressou um sentimento que milhões de brasileiros tentavam engolir. Porque o que vimos não foi apenas um desentendimento entre ministros, mas uma fissura na confiança das instituições que sustentam o país.E tudo isso a poucos dias das eleições.

Espanta-me ver que tão poucos candidatos estejam verdadeiramente empenhados em apresentar planos de governo, ideias consistentes e estratégias concretas para o futuro. Onde estão as propostas para educação, saúde, segurança, emprego, inovação e redução das desigualdades? Como pretendem reconstruir a confiança nas instituições? O que farão para que o Brasil deixe de aparecer diante do mundo como um país aprisionado em escândalos, suspeitas de corrupção, festas extravagantes, relações promíscuas entre poder público e interesses privados e outras situações lamentáveis?

Quando o escândalo ocupa todo o espaço, o projeto de país desaparece. E parece que é justamente isso que alguns desejam: que estejamos tão distraídos com o espetáculo que não tenhamos tempo de fazer as perguntas essenciais. A urna, no entanto, não é palco para desabafos passageiros, vinganças ou paixões fabricadas pelas redes sociais. É o lugar mais sério da democracia. Cada voto carrega uma parcela de responsabilidade pelo país que teremos de habitar depois que o barulho das campanhas terminar.

Que a postura de Cármen Lúcia nos sirva de referência. Que saibamos reconhecer, entre aqueles que disputam o nosso voto, quem demonstra equilíbrio, honestidade, preparo e compromisso com o interesse público. O Brasil precisa de pessoas capazes de baixar o tom sem diminuir a firmeza; de assumir responsabilidades em vez de apenas apontar culpados; de compreender que exercer o poder é, antes de tudo, servir.

No dia da eleição, que cada um de nós se aproxime da urna com a seriedade máxima. E que a reconstrução da dignidade do país comece justamente pela escolha consciente de representantes que não transformem a República em espetáculo e que possam, finalmente, devolver o Brasil às manchetes por aquilo que ele tem de melhor.

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postado em 27/09/2026 06:00
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