Na semana passada, sentada na plateia do Teatro Nacional de Brasília, vivi uma emoção difícil de explicar. Diante de mim estava uma jovem artista brasiliense, cantando com uma das mais importantes orquestras do país, e tive a sensação bonita de estar assistindo não apenas a um grande concerto, mas a um capítulo brilhante da história se iniciando.
A diva Manuela Korossy entrou no palco com uma força avassaladora... como ela mesmo disse, emocionada por pisar no " home theatre — seu teatro"!
Desde criança, ela frequentou esse lugar, estudou na Escola de Música e, em 2021, partiu para Nova York para estudar na Juilliard School, uma das instituições de formação artística mais prestigiadas do mundo. Em 2026, tornou-se a primeira brasileira a concluir ali o bacharelado em canto lírico.
E, então, voltou para casa.
Voltou para cantar no palco do Teatro Nacional, acompanhada pela Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, sob a regência do maestro Cláudio Cohen.
O concerto se chamava Ópera Romântica e fazia jus ao nome. Era uma noite dedicada às grandes emoções humanas. Amor, desejo, esperança, solidão, sofrimento, sensualidade, liberdade. De Carlos Gomes a Puccini, de Verdi a Bizet, passando por Strauss, Lehár e chegando à Sinfonia Italiana de Mendelssohn, a música parecia percorrer todas essas regiões misteriosas que existem dentro de nós e que, muitas vezes, só a arte consegue alcançar.
Mas, para mim, havia ainda uma outra emoção acontecendo naquela noite.
Eu olhava para Manuela no palco e pensava em Brasília.
Eu também sou uma artista desta cidade. Sei o que significa nascer artisticamente num lugar que, durante muito tempo, foi considerado distante dos grandes centros culturais do país. E, no entanto, Brasília nunca deixou de produzir músicos, atores, cineastas, escritores, bailarinos, cantores. Existe alguma coisa nesta cidade que empurra seus artistas para o mundo.
Ver uma jovem brasiliense atravessar as portas da Juilliard, construir sua formação em Nova York e retornar ao Teatro Nacional com aquela voz, aquela presença e aquela segurança me emocionou profundamente.
Além de provar seu valor artístico, ela, com a simplicidade de quem se sente em casa, fez comentários brilhantes entre uma obra e outra, aproximando o público das histórias que seriam cantadas. Um desses momentos me tocou especialmente. Antes de interpretar um trecho da ópera Otello, Manuela lembrou que aquela tragédia, escrita há tantos séculos, termina em feminicídio: Otelo mata Desdêmona, levado pelo ciúme e enredado pelas intrigas de Iago.
Ao trazer essa história para o presente, transformou também aquele instante de beleza em denúncia e reflexão. Dedicou sua interpretação às mulheres que, ontem e hoje, tiveram de enfrentar a brutalidade da violência, expressando um desejo tão simples quanto urgente: que um dia essa barbárie pertença definitivamente ao passado.
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