
A arquitetura da capital federal nasceu marcada pelo traço moderno, pelas formas geométricas e pela relação entre espaço, arte e paisagem. Décadas depois, esse legado também aparece no design de interiores, em peças que reinterpretam características da cidade e ajudam a construir novas narrativas. Na CasaCor Brasília 2026, ambientes de diferentes propostas incorporam o mobiliário produzido por profissionais brasilienses como parte fundamental de seus projetos.
No ambiente Entre, assinado por Alex Claver e Wilker Medeiros, do Studio 2 Arquitetura, essa relação aparece na combinação entre arte, arquitetura e design. O espaço reúne planos suspensos, parede cinética, pedras naturais, texturas e mobiliário, além de obras de artistas como Di Cavalcanti, Alfredo Volpi, Vik Muniz e Siron Franco.
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Para Alex Claver, a escolha de peças de Felipe Zorzeto e Samuel Lamas não ocorreu apenas pela origem brasiliense dos profissionais. A intenção foi levar para o ambiente parte da produção contemporânea da cidade. "Mais do que trazer peças produzidas em Brasília, buscamos trazer para o ambiente uma parte da identidade e da produção contemporânea da cidade", explica.
Segundo o arquiteto, Brasília possui uma trajetória diretamente ligada à arquitetura e ao design, mas a produção atual não precisa permanecer presa às referências do passado. O interesse está, justamente ,na maneira como novos profissionais reinterpretam esse legado. "É uma produção que olha para a história da cidade, mas não fica presa a ela", afirma Alex.
A presença desses móveis reforça a proposta central do Entre, que aproxima arquitetura, arte e o fazer manual. As peças não foram pensadas apenas como complementos do projeto, mas como objetos capazes de adquirir presença própria. "As peças participam da composição como objetos com presença própria, quase escultóricos, mas sem perder a função e o conforto", destaca o arquiteto.
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Peças que nascem
do próprio projeto
No ambiente Alma Brasileira, assinado por Daiana Pontes, o mobiliário autoral aparece de outra maneira. A arquiteta criou duas mesas em quartzito para o espaço, concebido como um convite à desaceleração, à convivência e à reconexão. O material, com veios marcados e irregularidades naturais, assume papel de destaque na composição.
A escolha do quartzito acompanha a proposta de aproximar o visitante de elementos naturais e de referências brasileiras. Para Daiana, as imperfeições da pedra ajudam a revelar a matéria em sua forma mais espontânea. "O quartzito rústico surge como uma fusão de rocha e barro, revelando veios expressivos e irregularidades que celebram a brasilidade e o cuidado do feito à mão", define.
A relação entre beleza e uso está no centro do processo criativo da arquiteta. Uma das peças foi desenvolvida inicialmente para a residência de um casal e precisou se conectar a um móvel que já existia no espaço. A partir desse desafio, a ergonomia passou a orientar a concepção. "Acredito que a função venha sempre em primeiro lugar, enquanto estética e ergonomia caminham juntas", afirma Daiana.
A escolha por desenvolver peças próprias também reforça a ideia de que o mobiliário pode ultrapassar o papel de objeto decorativo. Para Daiana, uma peça autoral é capaz de registrar escolhas, memórias e processos. "Um mobiliário assinado carrega memórias e conta histórias", resume a arquiteta, que coloca a funcionalidade como ponto de partida para a criação.
Conforto e natureza
No Benessere, espaço de spa e academia assinado por Lisi Sandri, o mobiliário de Ismael Ricardo segue uma direção diferente, mas mantém a preocupação com a experiência de quem ocupa o ambiente. O projeto combina atividade física, relaxamento e autocuidado a partir de princípios da biofilia e do design sustentável.
A escolha das peças considerou justamente a necessidade de transformar o espaço em algo além de uma academia ou um spa convencional. O mobiliário deveria contribuir para a sensação de acolhimento e estabelecer uma relação mais sensorial com o usuário. "Queríamos elementos que trouxessem conforto, identidade e uma conexão sensorial com a natureza", explica Lisi.
Madeiras certificadas, pedras naturais e fibras vegetais formam uma paleta de materiais que procura aproximar arquitetura e natureza. Nesse conjunto, os móveis funcionam como elementos de ligação. A madeira acrescenta calor, as pedras conferem sensação de permanência e as fibras introduzem leveza e textura.
A funcionalidade, nesse caso, precisa acompanhar a proposta de bem-estar. Como o espaço recebe atividades diferentes, as peças devem responder ao uso cotidiano sem abandonar o conforto. Para Lisi, o equilíbrio está justamente nessa combinação: "A estética não é tratada como algo separado da função; ela nasce justamente da combinação entre uso, conforto, proporção e materialidade."
Memória que permanece no mobiliário
No restaurante Aroma, assinado por Rômulo Carvalho, do Studio Roque Arquitetura, o mobiliário ganha ainda outra dimensão: a de preservar e reativar memórias. O espaço foi concebido a partir de referências à ancestralidade, à cultura negra e à mesa como lugar de encontro. Madeira escura, inox, superfícies texturizadas e obras de artistas negros ajudam a construir essa narrativa.
Parte desse contexto está nas poltronas do antigo Hotel Nacional de Brasília, incorporadas ao ambiente. Com cerca de 65 anos, as peças de Jorge Zalszupin carregam consigo parte da história do edifício e da própria cidade. Para Rômulo, trazer esses móveis para a mostra significou recuperar uma memória concreta.
A referência ao design brasiliense ganha, ainda, um significado particular no projeto, que é uma homenagem aos avós do arquiteto, de origem negra e indígena. Nesse contexto, os móveis deixam de ser apenas componentes visuais e passam a participar da narrativa de pertencimento construída pelo ambiente. "O design brasileiro, nesse caso, pela minha escolha, foi primordial, não tinha como não ser", afirma.
Entre peças contemporâneas, criações autorais e móveis que atravessaram décadas, os ambientes mostram diferentes possibilidades de interpretar o design produzido no país e, especialmente, em Brasília. Para os profissionais, a relação entre mobiliário e arquitetura não termina na estética. As peças podem estabelecer vínculos com o território, recuperar lembranças ou criar novas experiências.
A variedade de propostas também evidencia que valorizar o design brasiliense não significa seguir uma única estética. Há formas geométricas, materiais naturais, linhas contemporâneas, referências históricas e soluções voltadas ao conforto. Em comum, permanece a intenção de criar peças com autoria e significado, capazes de dialogar com o lugar onde estão inseridas.
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte
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