Saúde

Viver com ataxia: os desafios para preservar a autonomia

Condição pode afetar movimentos, fala e autonomia, enquanto o tratamento e a reabilitação buscam preservar a qualidade de vida

A Ataxia afeta a coordenação dos movimentos e o equilíbrio e pode estar associada a diferentes condições neurológicas -  (crédito: Magnific)
A Ataxia afeta a coordenação dos movimentos e o equilíbrio e pode estar associada a diferentes condições neurológicas - (crédito: Magnific)

A dificuldade para caminhar em linha reta, os tropeços frequentes e a falta de precisão ao realizar tarefas simples podem ser sinais de ataxia. A condição afeta a coordenação dos movimentos e o equilíbrio, podendo comprometer atividades cotidianas. Apesar de, em alguns casos, os movimentos serem confundidos com sinais de embriaguez, a alteração tem diferentes causas e exige investigação médica.

Segundo a neurologista Joana Barbosa, o cerebelo é a principal estrutura envolvida, mas não é a única que pode provocar os sintomas. “A ataxia não é uma doença em si, mas um sinal neurológico caracterizado pela dificuldade de coordenar os movimentos, manter o equilíbrio e caminhar com estabilidade, sem que a fraqueza muscular esteja associada de forma significativa”, explica. A especialista acrescenta que a alteração também pode ser o primeiro indício de uma doença neurológica.

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As causas variam entre condições hereditárias, doenças neurodegenerativas e problemas adquiridos ao longo da vida. O tempo de aparecimento dos sintomas é um dos fatores considerados durante a investigação. “Quando os sintomas aparecem subitamente, é fundamental excluir um AVC. Nos quadros que evoluem ao longo de semanas ou meses, devemos considerar causas inflamatórias, autoimunes, tóxicas e metabólicas”, afirma Joana. Já a progressão ao longo de anos pode levantar a suspeita de doenças genéticas ou degenerativas. 

“A ausência de outros casos na família não exclui uma ataxia hereditária”, alerta a neurologista. Segundo ela, algumas alterações genéticas podem não ser identificadas por testes convencionais, o que exige uma avaliação individualizada.

Os primeiros sinais podem passar despercebidos ou serem atribuídos a outras situações. Dificuldade para escrever, abotoar uma camisa ou utilizar talheres, além de quedas sem explicação, podem indicar alterações na coordenação. Em alguns casos, também surgem fala arrastada, visão dupla, tremores durante a execução de movimentos e engasgos. A manifestação repentina desses sintomas requer atendimento de emergência.

Mesmo quando não é possível reverter a condição, o acompanhamento multidisciplinar pode contribuir para a qualidade de vida. A fisioterapia neurofuncional auxilia no equilíbrio, na marcha e na mobilidade, enquanto a terapia ocupacional ajuda a adaptar tarefas cotidianas. A fonoaudiologia também pode ser indicada para pacientes com alterações na fala e na deglutição.

Para Joana, identificar a origem do quadro é decisivo para orientar os cuidados e o acompanhamento. “Um diagnóstico preciso permite identificar condições tratáveis, orientar o acompanhamento e esclarecer as implicações da doença para o paciente e sua família”, destaca. 

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

Causas

  • Condições hereditárias. Nesse grupo estão as ataxias espinocerebelares, como a doença de Machado-Joseph e a ataxia de Friedreich.
  • Doenças neurodegenerativas.
  • Problemas adquiridos ao longo da vida. Entre as possibilidades estão acidente vascular cerebral (AVC), deficiências vitamínicas, doenças autoimunes e o uso prolongado de álcool ou de determinados medicamentos. 

Diagnóstico

A investigação começa com o histórico clínico e o exame neurológico, podendo incluir ressonância magnética, exames laboratoriais e testes genéticos. A identificação da causa, no entanto, nem sempre é simples, já que diferentes condições podem produzir manifestações semelhantes.

Tratamento

A definição do tratamento depende da origem do quadro. Quando a ataxia está relacionada a deficiências nutricionais, medicamentos ou doenças adquiridas, a abordagem da causa pode estabilizar os sintomas e, em determinadas situações, permitir a recuperação de parte das funções comprometidas. Para algumas formas hereditárias, existem tratamentos específicos, mas ainda não há terapias capazes de modificar a evolução de todas as doenças desse grupo.

Sinais que podem indicar ataxia

  • Tropeços frequentes e quedas sem explicação.
  • Dificuldade para caminhar com estabilidade.
  • Perda de precisão ao escrever, abotoar roupas ou utilizar talheres.
  • Tremores ao tentar alcançar objetos.
  • Fala arrastada.
  • Visão dupla e movimentos involuntários dos olhos.
  • Engasgos ou dificuldade para engolir.

Quando procurar atendimento médico

  • Sintomas persistentes: alterações no equilíbrio e na coordenação que não desaparecem ou pioram devem ser avaliadas por um neurologista.
  • Início súbito: dificuldade para caminhar, perda de coordenação, fala alterada ou visão dupla que surgem repentinamente podem indicar um AVC. Nesses casos, procure imediatamente um serviço de emergência.
  • Histórico familiar: a presença de casos semelhantes na família pode ajudar na investigação de ataxias hereditárias, mas a ausência desse histórico não descarta essas condições.

Adaptações para prevenir quedas

Pequenas mudanças em casa podem reduzir o risco de acidentes e favorecer a independência de pessoas com ataxia.

  • Retire tapetes soltos e outros objetos que possam provocar tropeços.
  • Mantenha os ambientes bem iluminados.
  • Deixe livres os caminhos de circulação.
  • Instale barras de apoio quando necessário.
  • Avalie, com orientação profissional, o uso de bengalas, andadores ou outros dispositivos auxiliares de marcha.
  • As adaptações devem considerar as necessidades individuais, promovendo segurança sem restringir desnecessariamente a autonomia.

Os impactos na autoestima e na qualidade de vida 

A ataxia pode afetar não apenas a mobilidade, mas também a saúde emocional e a convivência social. A dificuldade para realizar tarefas antes feitas sem ajuda pode provocar:

  • Frustração diante da perda de independência.
  • Insegurança e medo de cair.
  • Redução da autoestima.
  • Isolamento social.

Palavra do Especialista

Como a ataxia interfere no equilíbrio, na coordenação motora e na capacidade de realizar atividades do dia a dia?

A ataxia compromete a coordenação e a precisão dos movimentos, podendo causar instabilidade, dificuldade para caminhar e alterações no equilíbrio. Atividades que parecem simples, como levantar de uma cadeira, tomar banho, vestir-se ou caminhar, podem se tornar desafiadoras. Isso acontece porque o corpo apresenta dificuldade para controlar e ajustar os movimentos de maneira coordenada, aumentando o risco de quedas e comprometendo a independência.

Qual é a importância da fisioterapia no acompanhamento de pessoas com ataxia?

A fisioterapia neurofuncional tem um papel fundamental na manutenção da mobilidade, do equilíbrio e da independência funcional. Por meio de uma avaliação individualizada, identificamos as principais dificuldades e desenvolvemos estratégias para melhorar a segurança e a realização das atividades diárias. Mesmo em condições progressivas, a reabilitação pode proporcionar ganhos funcionais e ajudar a preservar capacidades. Nosso objetivo não é apenas trabalhar movimentos, mas permitir que o paciente continue participando da própria rotina com o máximo de autonomia possível.

Quais exercícios ou estratégias podem ajudar o paciente a preservar a mobilidade e a autonomia?

Trabalhamos principalmente exercícios de coordenação motora, equilíbrio, fortalecimento muscular e treinamento de marcha. Também priorizamos atividades funcionais, como sentar e levantar, mudar de direção, alcançar objetos e superar obstáculos com segurança. O mais importante é que os exercícios sejam individualizados, considerando as dificuldades, as capacidades e os objetivos de cada paciente. Afinal, não basta melhorar o desempenho durante a fisioterapia; precisamos transformar esses ganhos em funcionalidade no dia a dia.

Maíra Lima é fisioterapeuta neurofuncional

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postado em 18/10/2026 06:00
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