Casa

Arquitetura de memórias: a casa orgânica e sem cerimônias de Lutero Leme

No Lago Oeste, o arquiteto Lutero Leme transformou o que seria uma casa de caseiro em moradia e mostra que harmonia nasce mais de afeto do que de projeto

Quem atravessa a porteira da chácara de 15 hectares, no fim de uma rua do Lago Oeste e vizinha ao Parque Nacional, dificilmente imagina que a casa do arquiteto Lutero Leme nunca foi pensada para ser morada. O que hoje abriga ele e o marido, Paulo, era para ser a casa do caseiro. A mudança veio depois de uma casa grande no Lago Sul, vendida, e de uma passagem por apartamentos em que o casal não se adaptou. Pouco antes do início da pandemia, eles decidiram ficar na chácara que tinham há anos. A casa do caseiro de verdade ganhou outro endereço, perto da entrada do terreno, e a antiga recebeu Lutero e Paulo.

Existe até um projeto enorme, de uma casa com vista para o vale, que nunca saiu do papel. "Ah, é aqui que nós vamos morar por enquanto", lembra Lutero. O provisório virou definitivo e foi sendo emendado, ampliado, ajeitado. Não há planta mestra, e isso fica evidente na caminhada pelos ambientes. O piso, porém, é o mesmo na sala, na varanda e na piscina, o que faz a casa funcionar como um grande espaço de convivência, no qual se sai da água, atravessa a varanda e se senta para ver televisão sem cerimônia. Os ambientes até são delimitados, mas o uso, segundo o arquiteto, é totalmente integrado.

Em vez de começar a decoração pela compra de mobiliário novo, o casal aproveitou o acervo que havia acumulado ao longo da vida. "Eu tenho muita coisa, muitos objetos, muitos móveis. Gosto de colecionar", conta o arquiteto. Uma peça chegava, outra encontrava um lugar diferente e, assim, os ambientes ganhavam forma. "A casa foi orgânica mesmo, ela foi se construindo em função do que nós tínhamos."

O resultado é uma conversa constante entre épocas. Na sala de jantar, uma estante dos anos 1950 ou 1960, que já passou por várias edições da CasaCor e teve fundo de moiré branco, vermelho e espelho, abriga uma coleção de porcelanas azuis e brancas. Há peças raras e outras modernas, de fabricação chinesa, lado a lado, reunidas ao longo da vida, comprando e ganhando. 

Ed Alves CB/DA Press -
Ed Alves CB/DA Press -
Ed Alves CB/DA Press -
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Relíquias

A família sempre gostou de antiguidades, e isso se vê no mobiliário. A cadeira da bisavó, com mais de 100 anos, divide o espaço com cadeiras novas. Um par de cadeirinhas foi restaurado pelo próprio arquiteto, e uma cadeira recente aparece junto a uma mesa antiga. Na sala de jantar, a mesa de madeira escura, posta com louça colorida, recebe um arranjo de jasmim-manga colhido ali mesmo. Um tapete listrado de tons terrosos ancora o ambiente, e um pendente branco em formato de cúpula sai do teto alto de madeira. Diante das janelas, um aparador de vidro sustenta vasos e um filtro de porcelana Meissen, que pertenceu à avó de Lutero, passou pela mãe e chegou até ele, também azuis e brancos. 

Nas paredes, a mistura é ainda mais ousada. Ao lado de uma gravura técnica original de Salvador Dalí, aparecem borboletas decorativas. Uma Sônia Ebling surge no meio das plantas, uma cerâmica de Pirenópolis convive com quadros de valor de mercado. Na casa, há também obras do contemporâneo Fernando Velloso e de Omar Franco, uma delas vermelha. Como o espaço já não comporta tudo, muitas obras ficam guardadas, à espera de uma nova rotação.

Nada disso exige regra rígida. "Quando eu não gosto, eu mudo", diz Lutero, que, de vez em quando, remaneja tudo e refaz. Ele lembra que a graça de trabalhar com interiores é justamente experimentar, principalmente quando há muitos itens e o espaço não é infinito. O critério final, porém, é o prazer de morar. "Tudo o que está aqui é para ficar interessante para mim e para o Paulo." 

O humor também entra na composição. Uma escultura de vaca amarela, presente da artista goiana Daniela Ktenas, foi parar atrás de uma janela. "A vaca amarela pulou a janela", brinca o arquiteto, que viu a graça no encontro entre a peça e a esquadria. Perto dali, uma girafa amarela, também presente, completa a cena. Os moradores viajam muito e trazem lembranças, obras e objetos que logo encontram lugar, porque, para eles, não faz sentido comprar e deixar guardado. A casa guarda ainda o desenho de uma arara feito por uma menina de 12 anos, filha de amigos, trazido de presente em um almoço de domingo. Ainda sem moldura, vai ganhar parede. Há também um quadrinho que Paulo, professor, ganhou de um aluno. "Tem coisas, comercialmente falando, que têm um peso maior, e tem coisas extremamente simples e que a gente dá um valor muito grande porque é sentimental", explica.

O poder da natureza

Na varanda, a mistura se estende ao verde. Sob a cobertura translúcida, plantas de fora entram, a jiboia cresce para onde quer, um bambu rachou o vaso em que vivia e passou a fazer parte do cenário. Um banco transparente, uma mesa de centro de madeira escura e mantas claras sobre as poltronas dividem o espaço com a vegetação. O jardim, que o dono chama de inglês, não segue plano algum, e uma planta cresce enquanto outra morre e reaparece em outro lugar. "Cada vez que você chega à varanda, ela tem uma paisagem diferente", afirma.

Os arranjos da casa vêm do terreno. Nas manhãs de sábado, Lutero desce com a tesoura em direção ao Cerrado e volta com lírios, flores de jasmim-manga, seriguela e até pequi-verde, que combina com limão-siciliano e romã. Já fez arranjos com cana, pendão de banana e flores de salsinha e cebolinha. "É uma diversão, uma terapia", resume. A horta, as frutas, a pequena parreira onde, às vezes, serve-se o jantar ao ar livre e a piscina aquecida, sombreada por uma bougainville, completam a rotina de fazenda, a poucos minutos de carro da cidade. 

Morar assim tem seus encantos. Pela manhã, quem canta primeiro é a galinha-d'água, por volta das cinco horas. Depois, a seriema, o sabiá e uma orquestra de passarinhos. Há um ninho de sabiá em uma forquilha, perto da varanda, e visitas frequentes de quati, tamanduá, porco-espinho, anta e raposas. Abaixo da casa há um riacho e uma cachoeira onde o casal desce nos fins de semana. Os cães Faro e Max completam a família.

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