Comportamento

Poetas de Brasília contam como a poesia entrou na vida de cada um

Ontem, 31 de outubro, foi celebrado o Dia Nacional da Poesia no Brasil. Em homenagem à data, poetas contam como os versos chegaram à vida e a Brasília, entre cadernos, gavetas e superquadras

O poeta Nicolas Behr chegou de Mato Grosso nos anos 1970 e vendia seus livrinhos pela cidade -  (crédito: Celso Junior)
O poeta Nicolas Behr chegou de Mato Grosso nos anos 1970 e vendia seus livrinhos pela cidade - (crédito: Celso Junior)

O poema pode surgir a caminho do banco, no meio do atendimento a um cliente, numa rede ao fim da tarde ou na margem de um guardanapo. Em Brasília, cidade de muita gente que chegou de longe, poetas de gerações diferentes dizem a mesma coisa. A poesia não avisa que está chegando. "Quando o açude transborda, e você nunca sabe quando isso vai acontecer", descreve o poeta Nicolas Behr, 68 anos.

Behr chegou de Mato Grosso em meados dos anos 1970, aos 17 ou 18 anos. "Eu saí do mato para cair na maquete", diz ele, ao se lembrar de um dos primeiros poemas que escreveu na capital, SQS ou SOS. O título brinca com a sigla das superquadras sul, que, sem o "rabinho" do Q, vira um O. "Foi um dos primeiros poemas que eu escrevi diante do meu desespero de chegar a uma cidade totalmente diferente, totalmente nova", conta.

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Em 1977, lançou o livrinho Iogurte com farinha e saiu vendendo pela cidade. "Como eu era muito jovem, muita gente não acreditava que eu tinha escrito aquilo", lembra. As reações, segundo ele, foram boas, mas nem todos aprovaram. "Claro, os acadêmicos não gostaram. Os mais sérios, sisudos, falavam que aquilo nem era livro, porque não ficava em pé, e aquilo também não era poesia, porque era curtinha, era irônica, jocosa."

Antes disso, a poesia tinha cara de obrigação. "Na escola, eu era obrigado a decorar alguns poemas de poetas parnasianos, simbolistas, e eu achava que aquilo era poesia", afirma. Depois, descobriu que "poesia podia ser uma coisa muito mais alegre, muito mais divertida", com autores modernistas, como Oswald de Andrade e Drummond. Só foi virar poeta, ressalta, "muito tempo depois".

As dores e as delícias da chegada

Décadas depois, outra poeta também escreveu sobre a chegada. Mariana Conceição, 27, bacharel em serviço social, mestranda em direitos humanos e poeta, publicou Piloto no impulso de tomar um novo caminho. O poema fala de sua vinda do Rio de Janeiro para a capital, descrita como "um tanto dolorosa e deliciosa". Ela começou a escrever aos 14 ou 15 anos, sobre os amores e a vida como mulher negra, e guarda até hoje os cadernos que compra todo ano para suas escritas. "Sempre digo que a poesia entrou na minha vida por necessidade de contornar as fissuras da minha vida", afirma.

Mariana Conceição: Mariana Conceição escreveu o poema "Piloto" sobre sua chegada a Brasília
Mariana Conceição escreveu o poema Piloto sobre sua chegada a Brasília (foto: Divulgação )

Mariana lembra que mostrou versos a melhores amigos e foi recebida com carinho. "A escrita nunca é algo totalmente pessoal. A partir do momento em que ela vai para o mundo, ela deixa de ser minha e se torna uma parte de outra vida", diz. Para quem lê poesia pela primeira vez, ela indica Ana Martins Marques e o livro Como se fosse a casa. "Toda união é um novo território que se cria e uma língua própria que nasce", reflete.

Ana Maria Lopes, 78, jornalista, escritora e integrante da Academia Brasiliense de Letras, é carioca e "candanga de coração". "Brasília é minha cidade por opção", afirma. Autora de 11 livros, três deles de poemas, ela copiava versos num caderno desde que aprendeu a ler e a escrever. Os primeiros poemas, aos 12 ou 14 anos, ficavam guardados numa gaveta. "Muito tímida, não apresentava todos", conta. Para ela, poesia "é surpresa, é espanto". "Ela aparece como uma explosão, não como um método", acrescenta.

 Carioca e "candanga de coração", Ana Maria Lopes tem 11 livros publicados
Carioca e "candanga de coração", Ana Maria Lopes tem 11 livros publicados (foto: Fotos: Divulgação )

O poema que Ana Maria mostraria a quem nunca leu poesia se chama Prece, nascido de um fim de tarde. "Estava com meu marido em uma rede, o Sol baixava e eu só escutava as vozes dos netos lá longe. Aquele momento fez essa mulher cética que sou a crer, ou tentar crer, numa força maior da vida", relata. A quem mostraria? A Adélia Prado, diz, "talvez, para ter o aval dela".

A poeta, cronista e contista Maria Lúcia Verdi, 70, mestre em literatura brasileira, aprendeu a declamar com a mãe e a avó e, aos 8 anos, já anotava sentimentos e percepções. "Meus pais gostavam do que eu escrevia, mas, muitas vezes, ficavam preocupados, pois estávamos vivendo a ditadura", destaca. Aposentada, hoje começa o dia com musculação, pilates e exercícios na água, "escutando os pássaros, vendo-os voar". À tarde e à noite, lê, escreve e vai ao Cine Cultura ou ao Cine Brasília.

Maria Lúcia Verdi anota percepções poéticas desde os 8 anos
Maria Lúcia Verdi anota percepções poéticas desde os 8 anos (foto: Divulgação )

"Brasília nos permite uma respiração especial, pena que nem todos a percebam, ou que não tenham tempo para percebê-la. E essa respiração é poética", afirma Maria Lúcia. Ela espera que a escala 5X2 abra espaço para isso. "Agora, com o 5X2, espero que as trabalhadoras e trabalhadores tenham mais oportunidade de se conectar com esse lado belo da cidade."

Poesia no cotidiano

Para o professor de literatura e poeta Alexandre Pilati, 50, esse gosto difuso tem explicação. "A poesia é algo praticamente onipresente na linguagem humana", diz. "Seja em um trocadilho cotidiano (um meme), seja no verso final de um soneto, a poesia está presente", ressalta. Citando Ferreira Gullar, lembra que "a vida ordinária não basta". Já a pouca leitura, atribui às desigualdades do país, onde o acesso à educação formal e à cultura erudita "é um direito negado cotidianamente aos brasileiros".

O professor Alexandre Pilati diz que a poesia está presente até num meme
O professor Alexandre Pilati diz que a poesia está presente até num meme (foto: Divulgação )

Sobre a vida de poeta, Pilati não romantiza o dinheiro nem dispensa o debate. "Ser poeta é um trabalho não alienado", afirma. "Não haveria salário que desse conta desse valor, porque ele tem a ver com a humanidade, e não com o dinheiro", explica. Para convencer quem diz não entender poesia, indica Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade, pela "leitura adensada de um mundo triste, desencantado e melancólico".

Drummond reaparece na voz de Behr. "Não tem como não passar nessa vida sem você topar com a pedra do Drummond no seu caminho", diz o poeta, que recomenda Rosa do Povo e também Sentimento do mundo. Ali, segundo ele, o leitor encontra "um poeta humano, inteiro, completo, cheio de dúvidas, cheio de angústias e cheio de poesia".

No fim das contas, a poesia segue a rotina da capital sem pedir licença. Cabe numa rede, num caderno comprado a cada ano, numa gaveta ou num guardanapo. "Às vezes, o poema vem e você está indo para o banco, está atendendo um cliente, e aí você anota e depois trabalha esse poema", resume Behr. A rotina de Maria Lúcia, nas palavras dela, é "sempre recheada de poesia", e a de quem escreve em Brasília parece ser a mesma.

 

  • Carioca e
    Carioca e "candanga de coração", Ana Maria Lopes tem 11 livros publicados Foto: Fotos: Divulgação
  • Maria Lúcia Verdi anota percepções poéticas desde os 8 anos
    Maria Lúcia Verdi anota percepções poéticas desde os 8 anos Foto: Divulgação
  • O professor Alexandre Pilati diz que a poesia está presente até num meme
    O professor Alexandre Pilati diz que a poesia está presente até num meme Foto: Divulgação
  • Mariana Conceição escreveu o poema Piloto sobre sua chegada a Brasília
    Mariana Conceição escreveu o poema Piloto sobre sua chegada a Brasília Foto: Divulgação
  • Poema Prece, de Ana Maria Lopes
    Poema Prece, de Ana Maria Lopes Foto: Foto cedida ao Correio
  • Poema Prece, de Ana Maria Lopes
    Poema Prece, de Ana Maria Lopes Foto: Foto cedida ao Correio
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postado em 01/11/2026 06:00
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