
Aos 89 anos, Socorro Vale olha para a própria história e reconhece o quanto as possibilidades de uma mulher mudaram ao longo do tempo. Nascida em 1937, ela cresceu em uma sociedade que associava o futuro feminino ao casamento, à maternidade e aos cuidados domésticos. Décadas depois, após se separar do marido, em 1973, construiu a própria trajetória e encontrou na moda uma forma de realizar um desejo antigo. Há 34 anos, mantém a Vento Radical, empresa de moda praia e fitness instalada no Polo de Modas do Guará.
A história de Socorro atravessa transformações que ultrapassam a experiência individual. Do direito ao voto à possibilidade de encerrar legalmente um casamento, da entrada no mercado de trabalho à decisão sobre ter filhos, mulheres de diferentes gerações acompanharam mudanças nas leis, nos costumes e nas relações familiares. Algumas precisaram enfrentar obstáculos para garantir o sustento dos filhos, outras cresceram com mais liberdade para estudar, trabalhar e escolher seus próprios caminhos.
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Em 2026, ano de eleições gerais no Brasil, essas trajetórias ajudam a compreender como direitos e costumes se transformaram, mas também por que a igualdade continua em disputa. Nas redes sociais, discursos conservadores voltam a questionar escolhas femininas, enquanto temas como violência de gênero, autonomia reprodutiva, igualdade salarial e participação política permanecem na agenda pública.
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As mulheres representam 52,84% do eleitorado brasileiro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Apesar de serem maioria entre as pessoas aptas a votar, seguem sub-representadas nos espaços de poder. A partir de fevereiro de 2027, a Câmara dos Deputados contará com 109 mulheres entre os 513 parlamentares, o equivalente a 21,2% das cadeiras. O número representa um avanço em relação à legislatura atual, mas evidencia a distância entre a participação feminina nas urnas e a ocupação dos espaços de decisão.
Para Socorro, o casamento era apresentado como o destino natural. "A mulher tinha que casar para ser vista como pessoa. Casamento era o futuro. Não havia essa coisa de crescimento pessoal. Era preparada para ser dona de casa. O homem era o provedor. As mulheres iam aprender prendas domésticas, saber cozinhar, bordar", relembra.
Naquele contexto, as oportunidades de formação e trabalho também eram limitadas pelas expectativas familiares. Segundo ela, em algumas famílias, ser professora era uma das poucas possibilidades profissionais permitidas às mulheres. O desenvolvimento pessoal ficava em segundo plano, enquanto a construção de uma família era tratada como prioridade. "A mulher era para casar e ter filhos. O crescimento pessoal dela era segundo plano. Até uma questão de desenvolvimento pessoal da mulher daria um sentido de autonomia que não seria vista com bons olhos", avalia.
Apesar das limitações sociais, Socorro conta que escolheu o homem com quem se casou e teve três filhos. Anos depois, decidiu se separar por incompatibilidade de objetivos de vida, diferenças no crescimento pessoal e imaturidade emocional. A mudança de estado civil trouxe desafios, mas ela afirma que já havia desenvolvido autonomia emocional e profissional durante o casamento. "Passei por momentos de discriminação por ser mulher e separada. Mas nunca deixei abalar minhas estruturas. Meus filhos foram muito bem orientados emocionalmente e profissionalmente", conta.
A experiência também a fez perceber como a independência feminina ainda era vista com estranhamento. Para ela, mulheres de gerações anteriores enfrentaram barreiras para administrar o próprio dinheiro e tomar decisões sem a presença de um homem. "Talvez, naquela época, as mulheres enfrentassem dificuldades, por exemplo, para lidar com contas bancárias. Não que não tivessem capacidade, é que tudo era o homem", diz.
Embora reconheça os avanços conquistados ao longo do século 20, Socorro considera que a autonomia não deve ser confundida com o abandono da família ou dos relacionamentos. A possibilidade de escolher como viver é parte fundamental da liberdade. Depois de se casar novamente, afirma que foi muito feliz.
A independência que atravessa gerações
A história de Socorro se conecta à de sua filha Maria do Carmo Tavares, 66. A aposentada cresceu observando uma mulher que buscava independência e encontrou na mãe uma referência para construir a própria vida. Ela conta que priorizou os estudos e a carreira antes de se casar e ter filhos, contrariando uma expectativa social que ainda colocava o matrimônio no centro do futuro feminino.
"Em minha família, minha mãe sempre me ensinou que eu deveria priorizar estudos, trabalho e independência antes de considerar o casamento. Isso se concretizou, pois me casei e tive filhos mais tarde, algo que não era comum na época", relata.
A influência materna foi decisiva para que Maria do Carmo compreendesse a importância de fazer escolhas sem depender da aprovação de outras pessoas. Ela afirma que nunca precisou da autorização do pai, do marido ou dos filhos para tomar decisões, embora costumasse procurar a opinião da mãe.
A autonomia, no entanto, não eliminou os desafios no trabalho. Maria do Carmo considera que a igualdade salarial e as oportunidades profissionais ainda precisam avançar. Ao falar da maternidade, também destaca as dificuldades de conciliar o cuidado dos filhos com a carreira.
Quando teve as crianças, a licença-maternidade era de apenas três meses. Para ela, o período deveria ser maior, já que a responsabilidade sobre os primeiros cuidados recai principalmente sobre as mães. "Para mim, deveria ser de um ano, pois a carga sobre a mãe é grande", afirma.
A experiência com o planejamento familiar também marcou sua trajetória. Maria do Carmo decidiu ter dois filhos e fez laqueadura sem consultar o marido. "Na verdade, aguardar a aprovação do marido para fazer isso é absurdo", avalia.
A possibilidade de decidir sobre a maternidade também aparece no relato de Elizabeth Nadler, 81, avó da estudante de economia Ana Lyvia Nadler, 23. Elizabeth ficou viúva em 1976 e, aos 30 anos, já tinha dois filhos. Sem uma renda formal declarada e sem marido, enfrentou dificuldades até para alugar um apartamento. Uma oportunidade de trabalho em um ministério surgiu por meio de uma cliente do salão de sua mãe, onde atuava como cabeleireira. Ela não pôde aceitar a proposta porque não tinha com quem deixar as crianças.
A partir daí, passou a combinar diferentes atividades para garantir o sustento da família. Morou com a mãe e depois alugou um apartamento, sublocando três dos quatro quartos. Como não tinha renda declarada nem marido, teve que pedir para o sogro da irmã alugar para ela. Para bancar tudo, vendia marmitas durante a semana, comercializava joias em outros dias, cortava cabelos aos fins de semana e trabalhava em lojas. "Achava ótima a minha condição, pois nunca faltou nada, mas trabalhava para sobreviver com as mínimas qualidades", relata.
O esforço permitiu que os filhos tivessem alimentação, educação e acesso a oportunidades. Elizabeth conseguiu comprar um Fusca usado, que facilitava os passeios e as visitas à família. A rotina, entretanto, exigia conciliar várias jornadas de trabalho com a criação das crianças. "Nunca precisei de homem, sempre me virei sozinha. Homem nunca me deu nada", afirma.
A independência também influenciou suas escolhas profissionais. Em uma locadora de filmes, Elizabeth gerenciava toda a loja. Depois, abriu com a irmã um negócio de comidas congeladas, mas encerrou a sociedade quando o marido da irmã passou a querer gerenciar unilateralmente as vendas, deixando para ela apenas o trabalho na cozinha.
Direitos conquistados e disputas sociais
Para o cientista político Jorge Mizael, as disputas em torno dos direitos não se limitam à aprovação de leis. As mudanças podem ocorrer por meio de alterações legislativas, decisões judiciais e mudanças na execução de políticas públicas. Mesmo quando uma garantia legal permanece em vigor, a falta de orçamento, fiscalização ou estrutura de atendimento pode comprometer sua aplicação. “Um direito pode continuar escrito na lei e, mesmo assim, perder efeito se faltar orçamento”, observa.
A socióloga Nina Fola destaca que as discussões também envolvem condições de trabalho, políticas de cuidado, saúde e educação. Para ela, a luta por igualdade não beneficia exclusivamente as mulheres, mas contribui para uma sociedade menos desigual. “Pensar uma perspectiva de igualdade para as mulheres é pensar uma perspectiva, uma sociedade que tenha pluralidade e menos desigualdade”, afirma. Nina também ressalta que a desigualdade precisa ser analisada a partir das diferenças de raça, classe social e território.
Mulheres negras que sustentam suas famílias com rendimentos baixos, por exemplo, podem enfrentar dificuldades adicionais para acessar serviços, garantir condições dignas de vida e superar situações de vulnerabilidade. Em regiões atingidas por eventos climáticos, essas dificuldades podem se agravar, ampliando desigualdades mesmo sem que haja uma retirada formal de direitos.
A socióloga relaciona essas condições à permanência de estruturas de poder que afetam de maneira desigual diferentes grupos sociais. Em sua análise, discursos que atribuem o sucesso exclusivamente ao mérito individual podem ocultar barreiras históricas e transferir para cada mulher a responsabilidade por problemas que também são estruturais. Dessa forma, a discussão sobre os direitos femininos envolve tanto a proteção das garantias existentes quanto a criação de condições concretas para que elas sejam exercidas.
Autonomia reprodutiva
Na área reprodutiva, Elizabeth Nadler encontrou outras limitações na possibilidade de decidir o próprio destino. “Quando estava grávida do meu último filho, o doutor indicou que eu perguntasse para meu marido se ele queria que eu parasse de ter filhos. Disse que ele não ia gostar da ideia, então o médico me deu uma ideia de ‘usar a desculpa’ de que uma possível futura gravidez seria perigosa. Assim, meu marido deu o ok e eu fiz a cirurgia logo após o nascimento do meu filho”, lembra.
Recentemente, houve uma mudança que alterou diretamente a experiência relatada por Elizabeth. A Lei nº 14.443, de 2022, entrou em vigor em março de 2023 e retirou a exigência de consentimento do cônjuge para a realização de laqueadura e vasectomia. A legislação reduziu para 21 anos a idade mínima para a esterilização voluntária, mantendo a possibilidade para quem tem pelo menos dois filhos vivos, independentemente da idade. Também estabeleceu prazo mínimo de 60 dias entre a manifestação da vontade e o procedimento.
A ginecologista e obstetra Fernanda Torino explica que a legislação precisa ser observada pelos serviços de saúde, o que pode tornar o acesso mais lento, dependendo da estrutura disponível. Para ela, as mulheres devem receber informações e orientação para tomar decisões conscientes, sem julgamento. “Essas mulheres não devem ser julgadas, e sim orientadas, informadas e, a partir disso, tomarem suas decisões de forma esclarecida.”
A médica destaca que o arrependimento após a laqueadura é um aspecto que precisa ser discutido durante o aconselhamento. Segundo ela, estimativas apontam que entre 10% e 11% das mulheres se arrependem do procedimento, com índices maiores entre as mais jovens. A informação, ressalta, deve servir para orientar, não para retirar a autonomia de quem deseja realizar a cirurgia. “Os serviços de saúde precisam levar acolhimento e informação para as mulheres e, ao mesmo tempo, respeitar as leis vigentes no país. Essa mudança na lei da laqueadura em 2023 é um passo em direção ao respeito à autonomia de cada mulher”, avalia.
Anos depois, já viúva, Elizabeth relata ter tido maior liberdade para decidir sobre o próprio corpo. A experiência ajuda a dimensionar como a autorização masculina, formal ou informal, atravessava decisões pessoais e médicas. Para ela, a desigualdade também permanece na divisão das tarefas domésticas. “É uma injustiça a mulher ganhar menos que os homens, porque trabalham igualmente e, às vezes, têm até mais formação e sabedoria e não ganham o mesmo. Homem não faz nada ainda quando chega em casa. As mulheres trabalham mais ainda com a família e os filhos e ainda ganham menos”, afirma.
Quando a independência era uma necessidade
A história de Edna dos Santos Pereira, 86 anos, mostra que a autonomia também foi construída em circunstâncias difíceis. Nascida em Boca do Acre, no Amazonas, ela votou pela primeira vez em 1960, quando trabalhava como professora normalista. Em uma cidade pequena, a profissão lhe garantia reconhecimento social. Ela conta que era convidada para eventos e até para discursar em comícios. “Na época em que eu comecei a votar, sentia que a minha voz era igual à dos homens, porque eles me convidavam até para fazer discurso nos comícios. Então, já me sentia valorizada”, recorda.
A percepção de igualdade, porém, não impediu que Edna enfrentasse barreiras por ser mulher. Ela conta que queria se candidatar a vereadora, mas os homens da cidade não aceitaram a ideia, alegando que uma mulher não teria espaço na Câmara Municipal.
A experiência revela uma contradição: mesmo quando conquistavam reconhecimento profissional e participavam da vida pública, as mulheres ainda encontravam resistência para ocupar espaços de poder. E, desde esse período, Edna observa a presença dos homens nos espaços de decisão e defende que mais mulheres ocupem cadeiras no Congresso Nacional. “Ainda estão lutando. Ainda falta muita coisa”, resume.
Em 1962, Edna ficou viúva. A perda do marido trouxe dificuldades emocionais e financeiras, além de expor a dependência que determinadas estruturas sociais criavam em relação aos homens. Ela conta que cartões de crédito adicionais, vinculados ao nome do marido, deixaram de ser aceitos após a morte dele. “Foi sufoco quando fiquei viúva, porque cortaram todos os cartões de crédito que eu tinha no nome do meu marido, que ele tinha me dado”, relata.
Com três filhos, dois deles ainda menores, Edna precisou encontrar meios de sustentar a família. “Fiz curso para professora no interior, então sabia um monte de coisas. Montei uma serigrafia e me sustentei com meus filhos”, lembra.
A serigrafia foi uma das atividades que permitiram à família atravessar aquele período. Mais tarde, Edna também se destacou no artesanato. Em 2000, recebeu o título de melhor artesã do Distrito Federal, reconhecimento que, segundo ela, ampliou as oportunidades profissionais.
Representação política
A história de Edna evidencia um dos desafios que continuam presentes na política brasileira: a distância entre a participação das mulheres como eleitoras e sua presença nos espaços de decisão. Para a cientista política Priscila Gonçalves, a maioria feminina no eleitorado não garante, por si só, condições iguais de acesso à política. “Existe uma diferença entre participar da democracia por meio do voto e ter condições efetivas de ocupar os espaços de decisão política”, afirma.
Segundo a pesquisadora, a desigualdade não pode ser explicada apenas pela disposição individual das mulheres para entrar na política. O acesso a recursos financeiros, o apoio dos partidos, a visibilidade pública e as relações históricas de poder influenciam as possibilidades de candidatura e permanência nos cargos. A divisão desigual do trabalho doméstico e dos cuidados também limita o tempo e os recursos disponíveis para muitas mulheres, enquanto a violência política de gênero pode dificultar sua atuação pública.
A participação dos partidos políticos é outro fator importante nesse cenário. São essas organizações que estruturam candidaturas, distribuem recursos e definem parte das oportunidades de visibilidade e liderança. Embora existam regras para ampliar a presença feminina nas eleições, a inclusão nas listas de candidaturas não garante, necessariamente, condições equivalentes de disputa.
Priscila destaca que é necessário observar como o financiamento, o tempo de propaganda e o apoio político são distribuídos, além de avaliar a participação das mulheres nas instâncias internas de decisão. “Não se trata apenas de colocar mais mulheres nas listas eleitorais, mas de garantir que elas tenham condições reais de disputar eleições, exercer mandatos e participar das decisões”, explica.
O cientista político Jorge Mizael também chama a atenção para o funcionamento das instituições. Segundo ele, a composição do Congresso e as decisões tomadas dentro dos partidos influenciam quais pautas ganham espaço na agenda política. Uma proposta pode deixar de avançar não apenas por falta de apoio, mas também porque não chega à votação. Nesse processo, a definição das prioridades legislativas e a formação de alianças interferem diretamente no destino das políticas públicas.
Para Mizael, as diferentes correntes ideológicas atribuem sentidos distintos às pautas feministas. Enquanto alguns grupos defendem maior atuação do Estado para enfrentar desigualdades, outros priorizam a igualdade perante a lei ou dão ênfase a valores tradicionais relacionados à família. Há pontos de convergência, como o combate à violência contra as mulheres, e temas que provocam disputas mais intensas, especialmente os relacionados à sexualidade, à reprodução e aos papéis de gênero.
A presença feminina, por sua vez, não significa necessariamente que todas as representantes defendam as mesmas propostas. Priscila ressalta que as mulheres possuem diferentes trajetórias, posições ideológicas e visões sobre os direitos e o papel do Estado. Por isso, a análise da representatividade precisa considerar não apenas o número de eleitas, mas também os projetos que defendem, as decisões que tomam e a capacidade de influenciar as políticas públicas.
As novas gerações e o feminismo
Para Ana Lyvia Nadler, neta de Elizabeth, as conquistas das gerações anteriores não devem ser tratadas como garantias definitivas. Aos 23 anos, ela observa que discursos conservadores disseminados nas redes sociais podem reavivar cobranças sobre o comportamento feminino, especialmente quando o assunto é casamento.
"Penso nessas conquistas diariamente, principalmente após o retorno da propagação dos padrões conservadores nas redes sociais, pois esse movimento faz com que questionemos nossas escolhas, como se essas fossem excludentes, quando se trata de ter qualidades para 'ser escolhida'", comenta.
Ela conta que ainda escuta de familiares mais velhos que ser criteriosa nos relacionamentos pode prejudicar seu futuro matrimonial. A frase "quem escolhe demais acaba ficando sozinho" resume uma expectativa que, em sua avaliação, coloca sobre as mulheres a responsabilidade de garantir um casamento, mesmo quando isso significa abrir mão de critérios pessoais.
Ana Lyvia acredita que a independência financeira e a possibilidade de escolher um companheiro por afinidade representam avanços fundamentais. Ao mesmo tempo, considera que sua geração precisa ampliar a compreensão sobre o feminismo e superar a ideia de que o movimento se opõe aos homens ou à família. "Só de termos ciência de que podemos questionar e combater esses pontos sem sermos julgadas e, em certos pontos, sem sermos penalizadas, já traríamos um grande avanço para a sociedade e, especialmente, para as mulheres", avalia.
A discussão também encontrou na internet um espaço para ampliar denúncias, compartilhar experiências e dar visibilidade às desigualdades de gênero. A pesquisadora de feminismo e violência de gênero em mídias digitais e doutora em comunicação Francielle Esmitiz, 33, começou a se aprofundar no tema em 2014, ao participar de um grupo de pesquisa que analisava debates nas plataformas digitais e sua repercussão no jornalismo.
Naquele período, campanhas como #PrimeiroAssédio, #MeToo e #NãoMereçoSerEstuprada ganharam espaço nas discussões públicas e ajudaram a evidenciar experiências de machismo e violência contra as mulheres. O contato com esses debates orientou as pesquisas de mestrado e doutorado de Francielle. Durante a pandemia, em 2020, ela criou um perfil no Instagram para compartilhar o conhecimento adquirido e ampliar o diálogo sobre a história e as conquistas do movimento feminista.
Para a pesquisadora, a desigualdade de gênero também se manifesta nas dificuldades enfrentadas por mulheres que buscam ocupar espaços de decisão. Além de conciliarem estudos, trabalho e responsabilidades domésticas e familiares, elas encontram ambientes de poder historicamente dominados por homens, que nem sempre consideram suas experiências e necessidades. "É como se esses espaços não fossem para nós. É preciso que as mulheres sejam ouvidas e que suas formas de fazer política sejam incorporadas", afirma.
Participação e mobilização
A advogada Letícia Lé, de 27 anos, conta que seu interesse pela política começou durante as manifestações de 2013, mas ganhou outra dimensão em 2016, durante o processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Para ela, a maneira como a ex-presidente era atacada, inclusive por sua condição de mulher, contribuiu para aproximá-la do movimento feminista.
Com isso, Letícia passou a frequentar atos feministas e a acompanhar mais de perto as reivindicações do movimento. Ao falar sobre a presença feminina nos espaços de decisão, ela destaca a sensação de isolamento que pode surgir em ambientes ainda majoritariamente ocupados por homens. "Chegar a esses espaços e buscar defender os interesses das mulheres dá um sentimento de solidão", relata.
Para a advogada, ampliar a representação exige mudanças que vão além das regras eleitorais. Ela defende a educação para a igualdade de gênero desde a infância, para que meninas reconheçam a política e os espaços de liderança como possibilidades concretas. Também aponta a necessidade de avançar na igualdade salarial e de fortalecer políticas públicas que permitam às mulheres conquistar autonomia financeira.
Letícia ressalta, ainda, que o aumento do número de candidatas não garante, isoladamente, o compromisso com as pautas feministas. A representação, em sua avaliação, precisa ser acompanhada de propostas e ações que contribuam para a manutenção e a ampliação dos direitos. Ela cita o enfrentamento à violência contra as mulheres, a proteção de vítimas de violência doméstica e a igualdade de oportunidades como questões que exigem atuação contínua do poder público. A autonomia econômica também aparece como elemento importante para romper ciclos de violência.
Uma liberdade que não veio de graça
A trajetória de Socorro Vale também se conecta à experiência da filha, Maria do Carmo, e da neta Ana Luisa Gentil, 27. A publicitária cresceu ouvindo histórias de mulheres que construíram a própria independência em contextos muito diferentes do atual. Para ela, uma das principais diferenças entre as gerações está na possibilidade de construir uma vida sem que o casamento seja uma condição para a estabilidade financeira ou para o reconhecimento social.
A independência transmitida pela mãe e pela avó tornou-se uma referência para pensar o futuro. "Uma das maiores lições que minha mãe e minha avó me ensinaram foi a importância de nunca depender de ninguém para construir a própria vida. E acho que é isso que eu gostaria de passar adiante", afirma.
Ana Luisa reconhece que as liberdades atuais foram conquistadas por mulheres que enfrentaram situações muito diferentes das vividas por ela. "Quero que as mulheres do futuro saibam que a liberdade que temos hoje não veio de graça. Ela é resultado de muitas mulheres que precisaram ser fortes, enfrentar dificuldades e abrir caminhos. Se minha avó e minha mãe correram para que eu pudesse andar, espero que as próximas gerações possam voar", diz.
Para ampliar o olhar sobre o feminismo
Livros
O feminismo é para todo mundo, de bell hooks: introdução acessível às principais pautas do movimento feminista e à importância de uma transformação social coletiva.
Mulheres, raça e classe, de Angela Davis: analisa as relações entre racismo, desigualdade de classe e opressão de gênero na história das mulheres.
Cidadã de segunda classe, de Buchi Emecheta: aborda a experiência de uma mulher negra e imigrante, marcada por desigualdades de gênero, dificuldades econômicas e busca por autonomia.
Filmes
As sufragistas (2015): retrata a mobilização de mulheres britânicas pelo direito ao voto e os enfrentamentos políticos e sociais que marcaram essa luta.
Estrelas além do tempo (2016): conta a história de matemáticas negras que trabalharam na Nasa e enfrentaram o racismo e a discriminação de gênero.
Mexeu com uma, mexeu com todas (2017): documentário que aborda a mobilização de mulheres brasileiras contra a violência e em defesa do respeito e dos direitos femininos.
Política
Revista do Correio