
Por Ricardo Pedreira*
Minha doce Aninha costuma dizer que acredito em Deus, só que não dou o braço a torcer. Ela quase sempre tem razão, e este pode ser mais um exemplo de que sabe melhor de mim do que eu mesmo. Nos últimos dias, tenho feito reflexões sobre a fé e a própria existência do Senhor, que sempre coloquei em dúvida. Mas tudo parece comprovar que Ele existe mesmo e, de fato, ainda tem a cidadania brasileira.
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Eu andava um tanto descrente e já me preparando psicologicamente para o pior. Pensava com frequência na iminência do inferno e na presença do diabo, até sentindo um forte cheiro de enxofre no ar. Cheguei a ter delírios, em que o tempo, o senhor da razão, se materializou diante de mim, buscando me acalmar e trazer esperança.
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Alguém já argumentou que o inferno são os outros, buscando nos convencer de que as coisas ruins dependem do ponto de vista. Não sei, não. Fui coroinha na Igrejnha Nossa Senhora de Fátima, aquela mesma entre a 307 e a 308 Sul. Carrego até hoje ideias que me ensinaram no catecismo, do inferno como um lugar subterrâneo de suplícios e maldição extrema. Embora eu tema o fogo eterno, acho que o inferno é mesmo aqui, no rés do chão.
Foi nesse estado de espírito que me lembrei de delicioso samba do Paulo Vanzolini, o genial cientista boêmio. A versão de Juízo final interpretada pela malemolência de Martinho da Vila é a melhor. É fácil achar na internet. Vocês vão gostar.
Diz a letra: "No último dia da vida/ Encontrei-me com os meus pecados/ Uns maiores, outros menores/ Mas no geral bem pesados/ Do outro lado somente/ A ingratidão que sofri/ O anjo pôs na balança/ E vestido de branco eu subi/ Agora só toco harpa/ De camisola e sandália/ Espio pra ver lá embaixo/ A quadrilha da fornalha/ Aquela ingrata hoje está/ Trabalhando de salsicha/ Espetadinha no garfo/ Satanás fritando a bicha/ Ô Demônio: capricha!"
É confortadora a ideia de que bons vão para o céu e os maus para o inferno, mas o problema é que isso pode demorar muito. Não sei bem como é o processo que leva cada um para o seu destino final, se há embargos de infringência e todas essas coisas. Talvez, fosse mais justo se Deus, de forma monocrática como lhe cabe, resolvesse a parada numa espécie de VAR cósmico. O sujeito cometeu pecados graves e ainda age com tremendo cinismo e deboche? Raio na cabeça e direto para o inferno.
Isso teria nos poupado de muito sofrimento nos últimos meses.
O fato é que a quadrilha da fornalha está agora lambendo suas feridas e abandonada pelo líder fujão.
Aninha e eu estamos nas nuvens, vestidos de branco, balançando os pés, felizes da vida, ela tocando harpa, eu assoviando. O céu é de um azul, inspirador e Sol nos aquece.
Lá embaixo, o nosso apartamento recende a incensos e a trilha sonora é a dos cantos gregorianos. Praticamente um mosteiro. Quando desço das nuvens, meus vizinhos dizem que estou com um sorriso angelical, parecendo um santo.
Como sei que o bom tempo não é para sempre e que o jogo nunca termina, na verdade está em permanente curso, trato de calçar as sandálias da humildade e me preparar para as maldades do mundo. Minha santinha, Nossa Senhora Aparecida, de quem fiquei mais próximo nas últimas semanas, olha generosa da estante.
Dizem que o diabo não é tão feio quanto pintam. Nessa eu não acredito mesmo. O tinhoso é horrível e cheio de truques. Sabe até ficar bonitinho. Tomara que tenhamos aprendido a enfrentá-lo. Vou acender mais uns incensos, pensar em coisas boas e positivas, que é a minha forma de rezar. Aninha aprova.
*Ricardo Pedreira é jornalista
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