Pesquisadores da Universidade de Ottawa, no Canadá, inovam no fechamento de incisões cirúrgicas e na selagem de feridas ao criar hidrogel biomimético que combina resistência, adaptabilidade e biocompatibilidade. Os hidrogéis são materiais à base de água, com textura gelatinosa. A capacidade de adesão desse material pode ser comparada à de adesivos cirúrgicos disponíveis comercialmente, como LiquiBand, conhecido como "cola cirúrgica". Isso significa que o novo biomaterial, essa espécie de "biocola", pode fechar feridas na pele e, ao mesmo tempo, degradar-se de forma segura no corpo humano ao longo do tempo.
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Diferente de muitos biomateriais utilizados como adesivos para tecidos moles, esse material não depende de polímeros sintéticos, que podem desencadear respostas imunológicas indesejadas. A inovação está na forma como os peptídeos — pequenas cadeias de aminoácidos — se auto-organizam e se fixam. Quando dissolvidos em uma solução tampão, os peptídeos projetados organizam-se espontaneamente em estruturas microscópicas que formam a base do hidrogel.
O autor principal, Emilio Alarcón, professor da Faculdade de Medicina e cientista do Instituto do Coração da Universidade de Ottawa, comentou à imprensa: "Este novo conjunto de trabalhos representa um grande avanço na área de materiais biomiméticos para reparo de tecidos e órgãos. Um dos aspectos mais importantes desta pesquisa é o desenvolvimento de um material independente à base de peptídeos para adesão tecidual".
Para aumentar ainda mais a resistência do material, os pesquisadores utilizam uma reação química fotoativada, que cria rapidamente ligações estáveis entre as moléculas. Esse processo transforma o material inicialmente macio em um gel flexível e durável, adequado para o reparo de tecidos moles.
O médico ortopedista Mateus Jerônimo, membro titular da Sociedade Brasileira de Quadril (SBQ) e da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (Sbot), destaca: "Muitos biomateriais usados na prática clínica são derivados de fontes biológicas, como colágeno animal ou tecidos humanos doados. Embora eficazes, eles carregam uma variabilidade inerente — cada lote é ligeiramente diferente — e um risco, ainda que mínimo, de transmissão de doenças ou de reações imunológicas indesejadas".
A nova tecnologia também abre caminho para aplicações mais avançadas na medicina regenerativa. Nesse contexto, Jerônimo aponta: "Um hidrogel com essa capacidade de personalização poderia, no futuro, ser usado para preencher lesões de cartilagem em estágios iniciais, criando um andaime que não apenas cobre o defeito, mas ativamente sinaliza para as células do próprio paciente como reconstruir um tecido funcional. Isso representa uma mudança de paradigma: substituir a articulação doente para, potencialmente, regenerá-la".
Segurança
Em laboratório, os materiais demonstraram ser biocompatíveis e biodegradáveis, permitindo que se decomponham de forma segura no organismo ao longo do tempo. Um dos principais autores do estudo, Alex Ross, afirma que a biocompatibilidade é essencial para qualquer material que entre em contato com o corpo ou interaja com ele. Segundo Ross, a biodegradabilidade é uma vantagem, porque elimina a necessidade de remoção cirúrgica posterior e contribui para um perfil de segurança mais favorável, já que o material é degradado em substâncias que o organismo consegue metabolizar e eliminar adequadamente.
