Cientistas australianos desenvolveram uma terapia injetável promissora que pode ajudar a desobstruir as vias aéreas de cães de focinho achatado. A empresa de biotecnologia Snoretox, em parceria com a Universidade Royal Melbourne Institute of Technology (RMIT), anunciou resultados iniciais positivos com uma abordagem terapêutica chamada Snoretox-1. Trata-se de uma tecnologia que busca atuar diretamente no funcionamento das vias respiratórias, sem a necessidade de intervenções cirúrgicas invasivas.
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A terapia foi testada em buldogues com dificuldades respiratórias associadas à chamada síndrome obstrutiva das vias aéreas braquicefálicas. A condição afeta cães de focinho curto, como pugs, buldogues franceses e ingleses, e caracteriza-se pela limitação do fluxo de ar devido a alterações anatômicas nas vias respiratórias superiores.
"Décadas de reprodução seletiva para obter a aparência popular de focinho achatado infelizmente levaram a sérios problemas respiratórios", afirmou Tony Sasse, diretor administrativo da Snoretox e professor adjunto da RMIT.
De acordo com a médica veterinária Rebecca Terra, o problema vai além do formato do focinho. "A síndrome ocorre por causa da proporção entre as estruturas de tecido mole e ósseo. Na prática e na ordem do caminho do ar, podemos encontrar narinas com tamanho reduzido (menos espaço para a passagem de ar) e palato mole alongado, que pode invadir o espaço da nasofaringe e atrapalhar a passagem de ar, podendo até obstruir a via. Também hipoplasia de traqueia — o órgão tem menor calibe, o que faz com que uma menor quantidade de ar passe por ela. Isso faz com que braquicefálicos precisem fazer esforço constante para respirar", explicou.
Em termos mais simples, isso significa que existe um "descompasso" entre o espaço disponível para a passagem de ar e os tecidos que ocupam essa região. Estruturas como o palato mole (parte posterior do céu da boca) podem ser grandes demais para o espaço existente, enquanto a traqueia, o "tubo" que leva o ar até os pulmões, pode ser mais estreita do que o normal. O resultado é uma respiração dificultada, ruidosa e, muitas vezes, exaustiva para o animal.
Resultados iniciais
O ensaio clínico inicial envolveu seis buldogues, com idades entre quatro e oito anos, todos apresentando sintomas graves. Antes do tratamento, os animais tinham dificuldade até mesmo para completar uma caminhada de três minutos — um teste simples para avaliar a capacidade respiratória e o condicionamento físico.
Depois da aplicação do Snoretox-1, os cães fizeram o mesmo percurso com muito mais facilidade. Também foi observada uma redução significativa no ruído respiratório (como roncos e chiados) e no esforço necessário para respirar. Os resultados, publicados no periódico científico The Veterinary Journal, indicaram melhora consistente em todos os animais avaliados, incluindo maior tolerância ao exercício, algo que antes era um grande desafio.
Atualmente, o tratamento padrão para essa síndrome envolve cirurgia para alargar as narinas e remover o excesso de tecido na região da garganta, além de medidas como controle de peso. No entanto, os resultados variam bastante. Os pesquisadores apontam que até 60% dos cães continuam apresentando problemas respiratórios mesmo após a cirurgia, e cerca de 7% não sobrevivem ao procedimento. O Snoretox-1 surge como possível opção complementar, ou até substituta, em alguns casos.
Rebecca Terra afirma que o tratamento cirúrgico, muitas vezes, priva o cão de diversas atividades importantes para a qualidade de vida do animal, como passeios e exercícios físicos. "O Snoretox não 'abre espaço', cortando e retirando tecido, como a cirurgia faz. Ele atua aumentando o tônus muscular local, de forma temporária, e ajuda a sustentar melhor as estruturas das vias aéreas. É como se cada estrutura ficasse mais firme, melhorando o funcionamento", disse. "Para facilitar o entendimento, o efeito final lembra o de um descongestionante nasal em humanos. O tamanho da via aérea não muda, mas a passagem de ar melhora. Só que não há vasoconstrição — o efeito vem do aumento do tônus muscular, que reduz o colapso e melhora o fluxo de ar."
O tratamento consiste em uma injeção que utiliza uma forma modificada de toxina tetânica. A substância é adaptada para uso seguro com o objetivo de aumentar o tônus muscular na região das vias aéreas. O "tônus muscular" refere-se à capacidade do músculo de se manter levemente contraído, garantindo sustentação às estruturas ao redor. Ao fortalecer esses músculos, a terapia ajuda a evitar o colapso das vias respiratórias durante a respiração, mantendo-as mais abertas e facilitando a passagem de ar.
Combinação
A tecnologia tem sido desenvolvida há mais de 15 anos, em colaboração com Peter Smooker, biotecnólogo da Escola de Ciências da RMIT. O método combina componentes que direcionam a substância ao local desejado com uma dose mínima do agente terapêutico, buscando maximizar a eficácia e minimizar riscos. Embora o foco atual seja a medicina veterinária, os pesquisadores indicam que a tecnologia pode, no futuro, ter aplicações em outras condições associadas à fraqueza muscular.
Apesar do entusiasmo, Rebecca faz um alerta. "A ideia é interessante, minimamente invasiva, aparentemente com menos risco do que uma cirurgia e parece provocar uma resposta relativamente rápida. Pode ser útil em casos mais leves ou, até, como manutenção depois a cirurgia. Ainda assim, as evidências são muito limitadas: são pouquíssimos animais estudados, com efeito temporário. Além disso, o método não corrige a questão anatômica, que é a causa indiscutível da síndrome braquicefálica."
O tratamento está em fase inicial de estudo e não substitui completamente as abordagens atuais, especialmente por não alterar as características estruturais que causam o problema. No entanto, a terapia representa um avanço na busca por alternativas mais seguras e menos invasivas para melhorar a vida desses animais.
* Estagiária sob a supervisão de Rodrigo Craveiro
TRÊS PERGUNTAS PARA...
IEDO BRITO, médico veterinário
Quais raças de cães são mais afetadas por problemas respiratórios relacionados ao focinho achatado?
Essa condição é muito comum em cães como shih tzu, lhasa apso, buldogue inglês, buldogue francês e pug, mas, via de regra, todo cão selecionado geneticamente para apresentar o focinho mais curto tende a sofrer algum sintoma respiratório. O problema ocorre por causa de uma estrutura localizada depois do céu da boca, conhecida como palato mole. Ela faz a ligação entre a boca e a faringe e, nesses cães, pode apresentar-se mais alongada do que o normal, ultrapassando a epiglote e obstruindo a passagem de ar para a traqueia, causando uma série de sintomas, predominantemente respiratórios.
Muitos tutores consideram "normal" o ronco ou a respiração ofegante nesses animais. Em que momento esses sinais deixam de ser comuns e passam a indicar um problema de saúde?
O ponto que separa a normalidade de uma patologia é o sofrimento causado ao animal, que muitas vezes tem a qualidade de vida prejudicada, por não conseguir realizar esforços mínimos sem apresentar desconforto respiratório. Esses cães deixam de brincar, não se exercitam e acabam ficando obesos, ansiosos e até estressados no dia a dia.
Que cuidados os tutores podem adotar no dia a dia para minimizar os impactos dessas dificuldades respiratórias?
Há medidas de manejo que ajudam os cães com essa condição. As mais importantes são: manter o animal em ambiente fresco e bem ventilado; evitar exercícios físicos intensos — especialmente em dias quentes —; e garantir um peso saudável, pois o sobrepeso agrava o problema. Também é importante evitar situações estressantes, como exposição a estímulos intensos (outros cães, barulho excessivo ou ambientes abafados) e excitação exagerada durante passeios ou brincadeiras.
