Planejamento robótico

Minirrobô facilitará tratamentos odontológicos

Novo dispositivo usa escaneamento digital e planejamento prévio para auxiliar o equipamento no desgaste dos dentes que receberão coroas dentárias.O fluxo digital permite que o dentista escaneie, planeje e encomende a peça definitiva no primeiro dia

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Um robô em miniatura pode ajudar a preparar os dentes para receber uma coroa: rapidez no tratamento e menos idas à cadeira do dentista  -  (crédito: Catherine Weyer/Universidade de Basel)
Um robô em miniatura pode ajudar a preparar os dentes para receber uma coroa: rapidez no tratamento e menos idas à cadeira do dentista - (crédito: Catherine Weyer/Universidade de Basel)
postado em 24/08/2026 05:02

 RAFAELA LEITE*

Pesquisadores da Universidade de Basel, na Suíça, desenvolveram um minirrobô para preparar dentes que receberão coroas dentárias, próteses usadas para restaurar a estrutura e a função de dentes danificados. O dispositivo combina motores e um sistema de controle externos com um mecanismo de cabos, tubos e eixos flexíveis que transmite os movimentos até a broca, ferramenta rotatória usada para desgastar a estrutura dental com precisão. Ainda em fase experimental, a tecnologia, chamada MIR, abreviação de “Miniature Intraoral Robot”  pode reduzir o tempo dos procedimentos e o número de consultas necessárias.

Segundo o estudo divulgado na revista científica IEEE Transactions on Medical Robotics and Bionics, atualmente, os pacientes que precisam de uma coroa dentária em geral passam por pelo menos duas consultas. Na primeira, o dentista remove a cárie e realiza o preparo do dente, desgastando sua estrutura para que a prótese se encaixe corretamente. Em seguida, é feito um molde ou um escaneamento digital da boca, e uma coroa provisória é instalada. A prótese definitiva é confeccionada em laboratório e colocada em uma consulta posterior.

Os cientistas vislumbram antecipar parte dessas etapas com o novo sistema. Eles explicaram que, após um escaneamento intraoral em três dimensões, o profissional poderá planejar digitalmente o formato do preparo do dente e encomendar imediatamente a prótese definitiva. O robô, então, executará o desgaste da estrutura dentária seguindo esse planejamento, reduzindo o tempo entre as consultas. 

Arquitetura  

Para o cirurgião dentista Flávio Pinheiro,  o maior desafio dessa tecnologia  é garantir segurança e confiabilidade durante o atendimento de pacientes. “O equipamento ainda precisa passar por estudos clínicos, aprovação dos órgãos reguladores, redução de custos e integração com scanners, softwares de planejamento e sistemas CAD/CAM, já utilizados na odontologia digital”, afirma. 

Segundo Pinheiro, os Robôs, como o MIR, não substituirão etapas do trabalho do dentista. “A tendência é que sejam ferramentas de apoio.” Para ele, O robô pode automatizar uma etapa técnica do tratamento, mas o diagnóstico, a indicação do procedimento, o planejamento, o controle biológico e a tomada de decisões continuam sendo responsabilidades do cirurgião-dentista. A tecnologia deve aumentar a precisão e a eficiência do profissional, mas nunca o substituir.

O protótipo mede apenas 43 × 26 × 28 milímetros — aproximadamente o tamanho de uma rolha de vinho. O equipamento foi projetado para operar dentro da boca, sem comprometer o conforto do paciente. Para isso, os pesquisadores adotaram uma arquitetura incomum: em vez de instalar motores no próprio robô, eles posicionaram os motores e o sistema eletrônico de controle fora da boca. Os movimentos são transmitidos ao dispositivo por eixos de transmissão flexíveis, cabos e tubos, que acionam a broca responsável pelo desgaste do dente.

O robô também utiliza uma placa dentária personalizada, produzida a partir do escaneamento digital da boca do paciente. Acoplado a essa estrutura, o equipamento permanece alinhado ao dente durante todo o procedimento e acompanha os movimentos da cabeça, o que ajuda a manter a precisão mesmo que o paciente se movimente.

Precisão elevada

Nos testes, o robô foi avaliado em modelos de dentes produzidos em resina sintética e em um material cerâmico com dureza semelhante à do esmalte dentário. De acordo com a pesquisa, o preparo ocorre em duas etapas. Primeiro, uma broca de maior diâmetro remove parte da superfície superior do dente. Em seguida, uma broca mais fina e alongada desgasta as laterais, criando o formato necessário para que a coroa se encaixe com estabilidade.

Os resultados detalhados no estudo mostraram que o equipamento consegue executar o procedimento com elevada precisão. Mesmo sem sensores capazes de corrigir sua posição durante a operação, o robô apresentou erro inferior a 0,2 milímetro. Segundo os pesquisadores, essa margem deverá diminuir com a incorporação de sensores que permitirão monitorar continuamente a posição do equipamento e ajustar seus movimentos em tempo real.

Menos esforços

Além disso, a equipe avaliou as forças exercidas durante a perfuração. Elas permaneceram abaixo de cinco newtons — unidade utilizada para medir força —, o equivalente, aproximadamente, ao peso exercido por uma garrafa de água de 500 mililitros. Manter esse valor reduzido é importante para evitar esforços excessivos sobre a estrutura dentária. Os pesquisadores também analisam o nível de ruído produzido pelo sistema, um fator que poderá influenciar sua utilização em consultórios.

O MIR ainda precisará passar por novas etapas de desenvolvimento antes de ser testado em pacientes. O próximo passo será integrar sensores e uma câmera ao robô, para que ele acompanhe, em tempo real, sua posição e o avanço do preparo do dente. Segundo Georg Rauter, coordenador da pesquisa, o objetivo é que o sistema consiga identificar exatamente onde está e retomar o procedimento corretamente mesmo após uma eventual interrupção de energia, sem aumentar as dimensões do equipamento.

Três perguntas para

Flávio Pinheiro, cirurgião dentista e especialista em implantodontia pela Associação Brasileira de Odontologia de Santos
Flávio Pinheiro, cirurgião dentista e especialista em implantodontia pela Associação Brasileira de Odontologia de Santos (foto: Arquivo pessoal)

Flávio Pinheiro, cirurgião dentista que atua no Rio de Janeiro e especialista em implantodontia pela Associação Brasileira de Odontologia de Santos

Por que o preparo do dente para receber uma coroa exige tanta precisão?

O preparo precisa remover apenas a quantidade necessária de estrutura dental, preservando ao máximo o dente saudável. Ao mesmo tempo, deve criar um formato que permita uma adaptação perfeita da coroa. Pequenos erros podem comprometer a retenção, a estética, a oclusão e até a longevidade da restauração.

Como um robô pode melhorar ou acelerar esse procedimento odontológico?

O robô pode executar um preparo previamente planejado digitalmente com alta repetibilidade, reduzindo pequenas variações da técnica manual. Integrado ao fluxo digital, ele pode diminuir o tempo clínico e tornar o tratamento mais previsível, especialmente em casos padronizados.

A precisão do MIR pode superar a do preparo manual feito pelo dentista?

Os resultados iniciais são promissores e mostram excelente precisão em ambiente experimental. No entanto, ainda é cedo para afirmar que ele supera um dentista experiente em situações clínicas reais, onde fatores como saliva, movimentação do paciente, anatomia e tecidos moles tornam o procedimento muito mais complexo. 

*Estagiária sob a supervisão de Marcelo Abreu

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