Resistência

Nova tecnologia faz prédios se moverem para resistir a terremotos

A nova proposta desenvolvida pelos cientistas contra terremotos utiliza o deslocamento dos prédios de forma mais inteligente. O que contribui para o menor impacto das vibrações, dá mais segurança e diminui o consumo de concreto e aço

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Cientistas preparam 
a miniatura para testes -  (crédito: Paul Howard, Imperial College London)
Cientistas preparam a miniatura para testes - (crédito: Paul Howard, Imperial College London)
postado em 17/08/2026 05:04

Eventos extremos e desastres naturais têm colocado à prova a capacidade das cidades de proteger seus habitantes, como os terremotos avassaladores vistos recentemente na Venezuela e, no início da semana passada, na Colômbia e no último sábado (15/08), na Indonésia. À medida em que a população urbana cresce, e as mudanças climáticas se intensificam em frequência e severidade, pesquisadores buscam soluções capazes de tornar os edifícios mais seguros, resilientes e sustentáveis. Agora, cientistas liderados pela Imperial College London, no Reino Unido, criaram um projeto que permite que os prédios resistam melhor a ventos fortes e tremores.

Diferente da tecnologia antiterremoto usadas em países como o Japão, o grupo desenvolveu uma abordagem inovadora para o projeto de edifícios altos que desafia um dos princípios mais tradicionais da engenharia estrutural, em vez de impedir completamente o movimento das construções, a proposta utiliza esse deslocamento de forma inteligente para melhorar a resistência da construção diante de ventos fortes e terremotos.

Os resultados da pesquisa, publicados recentemente na revista científica Nature, indicam que a tecnologia pode reduzir significativamente as vibrações dos edifícios, aumentar a segurança dos moradores e ainda diminuir o consumo de materiais como concreto e aço, reduzindo custos e emissões de carbono.

A pesquisa foi liderada por Miguel Martínez Pañeda, pesquisador do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental do Imperial College London. Segundo os cientistas, tradicionalmente, edifícios altos são projetados para oferecer a maior rigidez possível. 

Embora eficiente em muitos casos, esse tipo de obra exige estruturas mais pesadas, fundações robustas e elevado consumo de materiais, além de nem sempre oferecer segurança diante de eventos naturais.

Segundo Miguel Martínez Pañeda, a nova abordagem parte de um princípio diferente. "Movimento não é, automaticamente, uma falha. Em vez de adicionar peso extra ou ampliar a estrutura para manter um edifício completamente imóvel, nossa proposta transforma a própria massa da construção em um recurso de projeto, melhorando o conforto, a segurança e a eficiência no uso dos materiais tanto em ventos fortes quanto durante terremotos", explica o pesquisador.

Na prática, a tecnologia reconhece que edifícios altos inevitavelmente se movimentam quando submetidos a forças naturais intensas. Em vez de combater esse comportamento natural, o sistema utiliza o próprio deslocamento para dissipar parte da energia que atua sobre a construção quando ela enfrenta, por exemplo, um terremoto.

Amortecedores

Atualmente, muitos arranha-céus utilizam equipamentos conhecidos como amortecedores de massa sintonizados. Esses dispositivos consistem em enormes blocos metálicos, que podem pesar centenas de toneladas, instalados próximos ao topo das torres. Suspensos por cabos ou apoiados sobre sistemas especiais, eles se movimentam em sentido contrário às oscilações do edifício, reduzindo as vibrações causadas principalmente pelo vento.

Apesar de eficientes, esses equipamentos apresentam limitações. Eles ocupam grandes áreas na edificação, exigem estruturas de reforço para suportar o peso e oferecem pouca contribuição para melhorar a segurança do prédio durante terremotos. Em regiões sujeitas tanto a ventos extremos quanto à atividade sísmica, normalmente é necessário instalar sistemas distintos para cada tipo de problema.

Para enfrentar essas questões, os cientistas propuseram separar alguns andares localizados próximos ao topo do edifício do núcleo estrutural principal. Esses pavimentos permanecem totalmente funcionais, mas passam a ser conectados ao restante da estrutura por meio de molas e amortecedores de alta precisão.

Quando ventos intensos ou terremotos fazem o edifício oscilar, esses pavimentos podem se movimentar levemente de maneira independente, utilizando o próprio peso para absorver parte da energia transmitida à estrutura. Dessa forma, reduzem as vibrações sem comprometer a utilização dos espaços internos.

Eficiência comprovada

Para verificar a viabilidade da tecnologia, os pesquisadores construíram um modelo reduzido de uma torre. O protótipo foi submetido a uma série de ensaios em um túnel de vento no Departamento de Aeronáutica do Imperial College London, uma das poucas instalações do mundo capazes de realizar experimentos desse tipo com alto grau de precisão. Além dos testes aerodinâmicos, o modelo também passou por simulações sísmicas dinâmicas.

Segundo a publicação, o sistema foi capaz de reduzir em até 71% os impactos provocados pelo vento, fator diretamente relacionado ao desconforto sentido pelos ocupantes de edifícios muito altos. Durante as simulações de terremotos, os deslocamentos no topo da torre diminuíram, em média, 42%. Já o movimento dos pavimentos móveis foi reduzido em até 74%, mantendo níveis considerados seguros.

Os pesquisadores observaram que o deslocamento relativo entre os pavimentos móveis e o núcleo estrutural permaneceu pequeno o suficiente para que a movimentação praticamente não fosse percebida pelos ocupantes durante as condições normais de funcionamento.

"Os testes demonstraram que o conceito não é apenas teoricamente consistente, mas também mecanicamente robusto e plenamente compatível com as tecnologias construtivas disponíveis atualmente. Ver o comportamento do modelo reproduzir exatamente o previsto pelas simulações computacionais foi um momento decisivo para o desenvolvimento da pesquisa", afirmou Kevin Gouder, pesquisador do Imperial College London.

Caso os próximos testes confirmem os resultados obtidos até agora, a tecnologia poderá representar uma mudança significativa na forma como arranha-céus são projetados em um cenário marcado pelo crescimento das cidades, efeitos das mudanças climáticas e necessidade de construções cada vez mais eficientes e ambientalmente responsáveis.

 

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