O contexto histórico em que Salazar se formou foi decisivo para sua ascensão. A crise da Primeira República Portuguesa foi marcada por sucessivos governos, instabilidade institucional, dificuldades econômicas e conflitos sociais. Esse cenário abriu espaço para soluções autoritárias, culminando no golpe militar de 1926, que instaurou uma ditadura. Salazar, até então um acadêmico, foi chamado a colaborar com o novo regime e assumiu o Ministério das Finanças em 1928.
Sua gestão foi caracterizada por um rígido controle orçamentário, cortes de gastos e aumento da arrecadação, medidas que equilibraram as contas públicas e lhe renderam prestígio político. Esse sucesso consolidou sua imagem como o homem capaz de “colocar ordem” no país, pavimentando o caminho para sua nomeação como chefe de governo, na condição de presidente do Conselho de Ministros, em 1932.
No ano seguinte, Salazar institucionalizou o Estado Novo com a aprovação de uma nova Constituição. Inspirado em modelos corporativistas europeus, mas adaptado à realidade portuguesa, o regime rejeitava o pluralismo político, extinguindo os partidos e estabelecendo um sistema de representação baseado em corporações profissionais.
A ideologia oficial exaltava valores a partir do lema “Deus, pátria e família”, promovendo uma visão hierárquica e tradicional da sociedade. A censura foi amplamente utilizada para controlar a imprensa, as artes e a produção intelectual, enquanto o regime investia em propaganda para construir uma imagem de estabilidade e harmonia social.
Um dos pilares da sustentação do regime foi o aparato repressivo, especialmente a atuação da polícia política PIDE. Responsável por vigiar, prender e interrogar opositores, ela tornou-se símbolo do controle estatal sobre a vida dos cidadãos. A repressão atingia desde militantes políticos até intelectuais e artistas considerados subversivos.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Portugal manteve uma posição oficialmente neutra, o que permitiu ao país evitar a devastação do conflito e, ao mesmo tempo, negociar com diferentes potências. Salazar soube explorar essa neutralidade para preservar seus interesses estratégicos, incluindo a manutenção de colônias e relações comerciais.
No entanto, o pós-guerra trouxe novos desafios. A questão colonial tornou-se um dos maiores pontos de tensão do regime. Ao contrário de outras potências europeias, Portugal resistiu firmemente à ideia de conceder independência às suas colônias, considerando que eram parte integrante do território nacional.
Essa postura levou ao início de conflitos armados na década de 1960 em regiões como Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. As guerras coloniais foram longas, custosas e impopulares, contribuindo para o desgaste do regime tanto interna quanto externamente.
Além das questões políticas e militares, o Estado Novo também moldou profundamente a vida cotidiana em Portugal. A educação era fortemente influenciada por valores nacionalistas e religiosos, enquanto a censura limitava o acesso a ideias consideradas perigosas. A sociedade era incentivada a valorizar a ordem, a obediência e a tradição, em detrimento da liberdade individual e da inovação cultural. Esse ambiente contribuiu para um certo isolamento intelectual e cultural do país ao longo de décadas
Em 1968, a trajetória de Salazar no poder chegou ao fim após um acidente doméstico que comprometeu sua saúde. Ele foi substituído por Marcelo Caetano. Porém, de acordo com estudiosos do período, não foi informado de que fora retirado do cargo.
O ditador morreu em 1970, mas o regime que construiu continuou até ser derrubado em 1974 pela Revolução dos Cravos, em abril de 1974, em movimento que restaurou a democracia e iniciou o processo de descolonização