Além do texto aprovado pela Câmara dos Deputados com apoio do governo federal, o Senado também poderá analisar uma proposta alternativa apresentada recentemente pela oposição, além de uma PEC mais antiga sobre o tema, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS). A escolha de qual proposta terá prioridade na Casa ficará a cargo do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, em diálogo com os líderes partidários.
PEC é a sigla para Proposta de Emenda à Constituição, instrumento utilizado para alterar o texto da Constituição Federal. Por tratar de mudanças na principal lei do país, sua aprovação exige uma tramitação mais rigorosa do que a de projetos de lei comuns. Para entrar em vigor, uma PEC precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado em dois turnos de votação.
Pela versão aprovada pelos deputados federais, as novas regras começarão a valer 60 dias depois da promulgação pelo presidente da república. Ainda assim, empresas e empregadores terão um período de adaptação que poderá se estender por até 14 meses.
A proposta prevê que ocorra uma redução da jornada semanal de trabalho em duas etapas. Nos primeiros dois meses após a promulgação, a carga horária deverá ser reduzida em duas horas por semana. Em seguida, haverá uma nova redução, totalizando quatro horas semanais a menos, a ser implementada em até 12 meses após a conclusão da primeira fase.
O texto da PEC também determina que os trabalhadores passem a ter direito a duas folgas remuneradas por semana, sendo que uma delas deverá ocorrer, preferencialmente, aos domingos. Além disso, a diminuição da jornada não poderá resultar em redução salarial.
Um dos pontos mais debatidos durante a tramitação foi justamente o período de transição. Representantes do setor empresarial defenderam a necessidade de prazo para adequação às novas exigências. O governo acabou concordando com uma implementação gradual para viabilizar o acordo político.
Outro trecho da proposta estabelece que convenções e acordos coletivos incompatíveis com as novas regras perderão automaticamente a validade 60 dias após a promulgação. A expectativa é que a medida estimule empresas e sindicatos a renegociarem contratos e condições de trabalho.
A PEC altera o capítulo da Constituição que trata dos direitos fundamentais dos trabalhadores e passa a determinar expressamente que a jornada regular não poderá ultrapassar oito horas por dia e 40 horas por semana. O texto mantém a possibilidade de compensação de horários e de ajustes por meio de acordos ou convenções coletivas.
A proposta prevê ainda uma exceção para profissionais com diploma de nível superior que recebam remuneração equivalente a, pelo menos, duas vezes e meia o teto do INSS — valor atualmente próximo de R$ 20 mil mensais. Para esse grupo, não se aplicarão as regras relacionadas à jornada de trabalho e ao controle de ponto.
Os defensores da medida argumentam que a exclusão pode contribuir para reduzir a chamada 'pejotização' e ampliar a liberdade de negociação para trabalhadores de alta renda.
Muitos especialistas em economia sustentam que a discussão sobre a redução da jornada precisa ser acompanhada por políticas voltadas ao aumento da produtividade. De acordo com essa visão, avanços em qualificação profissional, inovação tecnológica e investimentos em infraestrutura e logística serão fundamentais para compensar os impactos das mudanças no mercado de trabalho.