Nos dias seguintes, Cheval voltou ao local e encontrou outras pedras que despertaram sua curiosidade. A experiência alimentou uma ideia que passaria a ocupar décadas de sua existência. Inspirado pelas formas criadas pela natureza e pelas imagens de lugares distantes que conhecia por meio de cartas, revistas ilustradas e cartões-postais, ele imaginou construir um monumento próprio.
Após concluir o expediente, Cheval dedicava suas noites à construção que surgia pouco a pouco no quintal de sua residência. O trabalho avançou durante 33 anos sem a ajuda de operários, patrocinadores ou instituições. Cada coluna, escultura, parede e ornamento nasceu da observação, da experimentação e da persistência de um homem comum.
Cheval utilizou pedras, conchas, fósseis e outros elementos naturais para criar uma estrutura monumental. Quando a obra ficou pronta, em 1912, ela já havia consumido cerca de 10 mil dias, 93 mil horas e mais de três décadas de esforço contínuo.
O resultado não se parecia com nenhum edifício convencional. O palácio reúne referências inspiradas em templos, castelos, mitologia, figuras religiosas, animais e paisagens exóticas. Sem compromisso com estilos arquitetônicos definidos, Cheval criou uma construção singular, moldada apenas por sua imaginação.
Nas fachadas, o francês adicionou elefantes, pássaros, gigantes, figuras bíblicas, fadas e criaturas fantásticas que pareciam saídas de histórias imaginárias. Durante muitos anos, os moradores da região enxergaram a iniciativa com desconfiança.
Para muita gente, o carteiro não passava de um homem excêntrico que desperdiçava tempo recolhendo pedras e erguendo uma construção sem utilidade aparente. No entanto, à medida que o palácio ganhava forma, a curiosidade aumentou. Artistas, intelectuais e visitantes começaram a reconhecer o valor da obra e sua originalidade.
O reconhecimento oficial veio décadas depois. Em 1969, o governo francês classificou o Palais Idéal como monumento histórico nacional, garantindo sua preservação. A decisão transformou aquilo que antes parecia apenas uma obsessão de uma única pessoa em parte importante do patrimônio cultural da França.
O palácio passou a ser visto como um exemplo notável de arte naïf, arquitetura autodidata e criatividade fora dos padrões acadêmicos. Mesmo após concluir sua criação mais famosa, Ferdinand Cheval não abandonou o trabalho com pedras. Seu desejo era ser enterrado dentro do próprio palácio, mas a legislação francesa não permitia sepultamentos fora dos cemitérios.
Diante da negativa, o carteiro decidiu construir o próprio mausoléu no cemitério de Hauterives. A nova obra exigiu mais oito anos de dedicação e recebeu o nome inusitado de 'Tumba do Silêncio e do Repouso Sem Fim'. Cheval morreu em 1924, aos 88 anos, e foi sepultado na estrutura que ele mesmo ergueu.
Atualmente, o Palais Idéal continua aberto à visitação e recebe milhares de turistas todos os anos. Mais do que impressionar pelo tamanho ou pela riqueza de detalhes, a construção chama atenção por sua origem improvável. Até hoje, a trajetória de Cheval permanece como um exemplo raro de perseverança, imaginação e determinação.