Por estar dobrado, costurado e danificado, os especialistas usaram técnicas não invasivas, como modelagem 3D, imagens multiespectrais e tomografia, que permitiram analisar o texto sem desmontar o livro. Essa metodologia inovadora poderá ser usada para recuperar outros documentos históricos frágeis.
O conteúdo do manuscrito, porém, surpreendeu os especialistas. Ele apresentou um Merlin diferente daquele que era retratado tradicionalmente. Em vez de um mago quase sobrenatural e infalível, o texto mostra um personagem mais humano, vulnerável e envolvido em questões políticas.
A descoberta possui grande valor histórico, porque apenas cerca de 40 manuscritos da 'Suite Vulgate du Merlin' sobreviveram ao tempo. Cada exemplar contém pequenas diferenças introduzidas pelos escribas medievais durante a cópia. Assim, esse documento ainda traz anotações do monge responsável pela cópia, o que oferece uma visão única da literatura medieval e da evolução do arquétipo do mago nas narrativas de fantasia.
Além de aprofundar o conhecimento sobre as raízes do mito arturiano, o manuscrito também ajuda a entender a evolução do arquétipo do mago sábio, que inspirou personagens como Gandalf, de 'O Senhor dos Anéis', e Dumbledore, de 'Harry Potter'. A redescoberta resgata um tesouro literário perdido e revela como as narrativas fantásticas do passado seguem presentes na cultura popular.
Segundo as lendas arturianas, Merlin foi um poderoso mago e profeta que ajudou a definir o destino do Rei Arthur. Ele teria previsto o nascimento do futuro rei e planejado que ele fosse criado longe das disputas pelo trono. Merlin, então, teria criado o desafio da espada, que consistia em: quem a retirasse da pedra seria o verdadeiro rei. Arthur, ainda jovem, cumpriu o feito sem conhecer sua origem real e foi proclamado o legítimo rei da Bretanha.
Já como rei, Arthur fundou a famosa Távola Redonda, que contou com cavaleiros nobres, como Lancelot, Gawain e Percival, que buscavam justiça e o Santo Graal. Merlin o ajudou com conselhos e mentoria, mas, em algumas versões, acabou enfeitiçado e aprisionado pela feiticeira Morgana, ou pela Dama do Lago.
A queda de Camelot, o lendário castelo e corte de Arthur, símbolo de justiça e cavalaria, resultou da traição de Morgana, do romance proibido entre Lancelot e a rainha Guinevere, esposa do Rei Arthur, e da rebelião de Mordred, filho bastardo (ou, em algumas versões, sobrinho) de Arthur.