
Os tempos sombrios de pandemia foram combustível para inovações científicas em favor do cuidado. Desenvolvida na Universidade de Brasília (UnB), em parceria com a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e o setor produtivo, a máscara Vesta foi capaz não só de reter o vírus da covid-19, mas também de reduzir a atividade do microrganismo. A criação conquistou o primeiro lugar no Prêmio de Ciência, Tecnologia e Inovação para o SUS em 2025. Nesta semana em que Brasília comemora 66 anos, o Correio conversou com as professoras e pesquisadoras Marcella Lemos e Graziella Joanitti que estiveram à frente da produção do equipamento, disponibilizado à sociedade em 2022.
A UnB foi o lugar onde tudo se tornou possível. "A universidade ofereceu muito mais do que estrutura, ofereceu um ambiente de colaboração, de formação e de confiança. Foi esse espaço que permitiu transformar uma ideia científica em uma tecnologia real, percorrendo todo o caminho até chegar à sociedade", enalteceu Marcella Lemos. "Esse projeto mostra, de forma muito concreta, o papel da universidade pública: um espaço que não apenas produz conhecimento, mas responde a crises e gera impacto na vida das pessoas", acrescentou a professora.
A universidade conta com uma estrutura específica para apoiar a proteção e o licenciamento de tecnologias desenvolvidas internamente: o CDT, Centro de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação da Universidade de Brasília. O centro ofereceu suporte na orientação e condução dos processos de depósito de patente, bem como nas negociações, análises jurídicas e etapas relacionadas ao licenciamento e à comercialização da máscara. "Esse apoio demonstra como a UnB valoriza a inovação e reconhece a importância das tecnologias geradas em seu ambiente de pesquisa. O trabalho realizado pelo CDT foi decisivo para viabilizar os trâmites necessários, garantindo mais segurança jurídica, clareza nos acordos e o devido reconhecimento a todos os envolvidos no desenvolvimento da tecnologia", ressaltou a professora Graziella Joanitti.
O projeto recebeu apoio financeiro de diferentes instituições, como FAPDF, UnB, Fiocruz, Capes, CNPq, CNBB, entre outras, além de uma campanha de financiamento coletivo junto à sociedade. "Esse conjunto de apoios foi essencial para transformar a iniciativa em realidade. Em apenas dois anos, a máscara percorreu todo esse caminho, da pesquisa ao mercado, o que representa um marco importante e um tempo recorde para um processo de desenvolvimento tecnológico dessa natureza", disse Graziella.
"A máscara Vesta é mais do que um equipamento de proteção, ela é um exemplo concreto de como a ciência pode se transformar em cuidado", afirmou Marcella Lemos, da Faculdade de Planaltina da UnB (FUP), que atua nas áreas de nanotecnologia aplicada à saúde e ao desenvolvimento de biomateriais. Ela integra projetos de inovação voltados à proteção e ao cuidado em saúde. "Pesquisadores, estudantes e profissionais da saúde se uniram em uma rede colaborativa que atravessou instituições, áreas do conhecimento e até setores da sociedade. Foi um movimento de construção conjunta, movido por urgência, mas também por propósito", complementou.
Desenvolvida com nanotecnologia, ela combina alta capacidade de filtração com um diferencial importante: um nanofilme antiviral à base de quitosana, que ajuda a reduzir a atividade de vírus na superfície do material. "Na prática, isso significa ampliar a segurança de quem usa, especialmente em contextos de alto risco. Mas, simbolicamente, ela representa algo maior: a capacidade da ciência de sair do laboratório e chegar às pessoas, protegendo vidas de forma direta", explicou a professora Marcella.
A proposta era aprimorar a máscara N95, que já era utilizada como equipamento de proteção individual. "A ideia era incorporar um nível adicional de segurança. Para isso, a máscara passou a contar com uma camada de nanopartículas derivadas de compostos naturais, biocompatíveis e seguros", detalhou a professora Graziella Joanitti.
Futuro
Para a professora Marcella Lemos, o vislumbre de um futuro justo e promissor perpassa a valorização da ciência e da educação. "Também acredito muito na força da colaboração. Grandes conquistas não são individuais, elas são construídas coletivamente", destacou. "O conhecimento pode gerar impacto. Aquilo que começa pequeno pode, sim, alcançar muitas pessoas. Mas, é importante lembrar que nada disso acontece sem investimento. Apoiar a ciência é, também, cuidar do futuro", completou.
Graziela Joanitti defendeu a busca de caminhos que passem pela sustentabilidade. "No campo da pesquisa, da ciência e da inovação, eu diria para que cultivem a curiosidade, busquem oportunidades em universidades e centros de referência e pensem sempre em soluções que caminhem junto com a sustentabilidade, a qualidade de vida e o desenvolvimento da sociedade", salientou. "Eu imagino Brasília como um centro de referência para a ciência no país, reunindo instituições fortes, pesquisadores qualificados e projetos com impacto real para a sociedade. Espero uma cidade que continue crescendo, mas com um olhar atento para o futuro, para a qualidade de vida das pessoas e para o desenvolvimento sustentável", pontuou.
"Brasília tem um potencial muito grande de se consolidar como um polo de ciência, tecnologia e inovação. E isso não é apenas uma expectativa, é algo que começa a se materializar em projetos, parcerias e iniciativas que nascem aqui", observou Marcella. "Daqui a 10 anos, espero ver uma cidade ainda mais conectada com o conhecimento, com universidades fortalecidas e com uma integração maior entre ciência, políticas públicas e sociedade. Brasília tem essa vocação: ser um lugar onde ideias se transformam em soluções", concluiu.

Aniversario de Brasilia
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