HISTÓRIA

Meu encontro com Brasília: símbolo da utopia

Brasília era o modernismo transformado em cidade. É como se o espírito modernista se materializasse em uma cidade-escultura, cidade-tótem, cidade-utopia

28/07/2021 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Jornalista do Correio Braziliense Severino Francisco com o seu livro Flama. -  (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
28/07/2021 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Jornalista do Correio Braziliense Severino Francisco com o seu livro Flama. - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

A minha história com Brasília começa com meu pai, Severino Francisco, pernambucano de Gravatá, que, na década de 1950, chegou ao Planalto Central graças ao dinheiro que ganhava com almanaques em versos, que escrevia e vendia. Ao assistir a um vídeo caseiro, gravado por meu irmão, fiz uma descoberta surpreendente. Talvez o meu tenha sido um dos primeiros cronistas de Brasília. 

E digo isso porque, antes da inauguração do Correio Braziliense, em 21 de abril de 1960, meu pai, Severino Francisco, pernambucano já fazia croniquinhas rimadas. Poeta popular com formação autodidata e imaginação delirante,  conseguiu se formar em teologia.

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Meu pai viu Brasília nascer e registrou a aventura nos versos, em um tom também épico: "Eis a nova capital/riscada sob medida/veremos a sua plenitude/depois dela ser construída/lago por todos os lados/beleza e vastidão/espaço e arejamento/tem léguas de pavimento/ainda cheirando a sertão".

Certo dia, meu pai se encontrou com Juscelino Kubistchek em Taguatinga e fez a seguinte saudação de improviso: "Quero lhe cumprimentar/Brasília é um monumento/Trabalho de nossa gente/Bravura de bandeirante/cabeça de presidente/agora posso afirmar/que vi a redenção/meus filhos tomaram posse/da terra da promissão/foi a mão da providência/que regeu vossa excelência/para governar nossa nação."

Nos primeiros tempos, morávamos em Taguatinga e meu pai me levou para ver o Plano Piloto. Eu gostava muito de ler histórias em quadrinhos e, com a silhueta espectral e futurista, Brasília evocava imediatamente os cenários das cidades intergalácticas de Flash Gordon. A cidade espacial era fascinante e, ao mesmo tempo, provocava angústia. Brasília era Flash Gordon envolvido nas nuvens de poeira vermelha.

Na adolescência, conheci Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Gilberto Freyre, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Tarsila do Amaral, Glauber Rocha e Nelson Rodrigues. O contato com essa constelação modernista foi uma revelação.

Sim, nós éramos um país pobre, subdesenvolvido, defasado da ordem mundial. Mas isso não significava que estávamos condenados a rastejar para as outras nações mais desenvolvidas. Nós poderíamos fazer grande arte com "a contribuição milionária de todos os erros", como dizia Oswald. A cultura afirmava a nossa singularidade de mestiços, periféricos, cangaceiros, tortos, gauches. Sem negar a nossa história, poderíamos transcender, inventar uma outra beleza, uma outra elegância, um outro destino.

Brasília era o modernismo transformado em cidade. É como se o espírito modernista se materializasse em uma cidade-escultura, cidade-tótem, cidade-utopia. Ao longo do tempo, Brasília se tornou uma cidade distópica, cenário para um faroeste caboclo. Mas esse me parece ser um estado circunstancial de exceção. O símbolo da cidade-monumento permanece vivo para nos lembrar que a verdadeira vocação de Brasília é a utopia.

Severino Francisco é jornalista

 


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postado em 21/04/2026 03:38
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