EMPREENDEDORISMO

Casa Hanashiro: pilar da agricultura brasiliense

Fundada em 1957 por Seitei Hanashiro, a empresa começou em um lote na Cidade Livre, que veio a compor o Núcleo Bandeirante

Arthur Maldaner*

 

A Hanashiro Máquinas Agrícolas, também conhecida como Casa Hanashiro, foi parte fundamental da agricultura nos primeiros anos do Distrito Federal e, ainda hoje, segue em fomento à produção familiar com foco na inovação tecnológica. Fundada em 1957 por Seitei Hanashiro, a empresa começou em um pequeno lote na antiga Cidade Livre — que veio a compor o Núcleo Bandeirante —, onde eram acolhidos trabalhadores da construção da nova capital federal. 

Com a esposa, Amélia, e os três filhos do casal, Seitei saiu de São Paulo, em 1956. Os Hanashiros foram uma das sete primeiras famílias da colônia japonesa em Brasília e um pilar da integração de imigrantes nipônicos na região. Uma população, por sua vez, responsável por dar o pontapé na agricultura familiar de frutas e legumes no DF, produtos que, até hoje, são o nosso "carro-chefe".

"Apesar de não termos atuado como produtores rurais, a nossa família veio à capital para fomentar a agricultura com fornecimento direto de materiais", explica Cristiane Hanashiro, 48 anos, neta de Seitei e atual gestora da Casa Hanashiro. Após a morte do fundador, a empresa ficou aos cuidados do filho dele, Olímpio, que faleceu em 2020. 

Agora na terceira geração de gestores, a viúva de Olímpio Hanashiro — Marina — e os três filhos — Cristiane, Tiago e Fábio — estão à frente da operação da empresa, atuando de acordo com valores familiares e culturais que refletem a ascendência japonesa de seus criadores pioneiros. Hoje, o empreendimento opera de forma especializada na venda e assistência técnica de máquinas de cultivo, de construção civil e de jardinagem.

Material cedido ao Correio -
Material cedido ao Correio -

Patrimônio candango

A primeira loja da Casa Hanashiro, na Cidade Livre, funcionava em conjunto de um pequeno armazém de secos e molhados — um nome dado às tradicionais mercearias que ofereciam tanto produtos secos como grãos e alimentos, quanto os molhados como bebidas. À época, o casal Hanashiro dividia as atividades comerciais e, enquanto Seitei ficava à frente da venda dos produtos agrícolas, Marina comandava a loja de estoque diverso. "Às vezes, meu avô vendia os motores por fiado, com vergonha de cobrar os clientes, e a minha vó cobrava as dívidas no armazém. Foi por conta dela que a empresa funcionou, lá no início", relembra Cristiane.

A empresa de Seitei era dedicada a vender motores da indústria japonesa Yanmar, que havia acabado de chegar ao Brasil. Inicialmente, não eram os tratores e escavadeiras as principais demandas, e sim motores estacionários a diesel, essenciais para o abastecimento de luz e água aos candangos. Além disso, o armazém servia como um ponto de acolhimento para os membros das colônias japonesas que, em condições duras de trabalho na lavoura, encontravam abrigo nos fundos da loja, onde ocasionalmente dormiam em sacos de feijão.

Foi durante a construção do Plano Piloto, com os primeiros estabelecimentos das vias W3 norte e sul, que a Casa Hanashiro abriu sua segunda unidade nos anos 1960. Na altura da 506/507 norte, foi construída a loja, que novamente dividia espaço com um boteco, também encabeçado por Marina Hanashiro. É nesse local, em uma versão inicial do centro do Plano Piloto, que Cristiane nasceu e construiu as suas primeiras memórias. "Eu lembro de brincar nos canteiros das obras intermináveis da W3. Um local que, hoje, é o centro da operação da Asa Norte", relata.

A terceira base de operação da Casa Hanashiro, no Setor de Indústrias Automotivas (SIA), é onde a empresa funciona até hoje. A mudança ocorreu em 1984, quando Olímpio era o gestor. O empresário de segunda geração chegou à capital quando tinha 11 anos e, desde cedo, trabalhou com o pai nas lojas, até que o substituiu. De acordo com Cristiane, a herança cultural japonesa é parte fundamental da empresa desde a sua criação, e valores de respeito e consideração ao cliente, além da valorização de compromissos comerciais, sempre foram prioridade para os seus familiares. "Acredito que ofertar um bom serviço é essencial para honrar o legado da nossa família", destaca.

Cidade promissora

Atualmente, a Casa Hanashiro possui uma equipe de 25 funcionários — além de Cristiane, Tiago, Fábio e mãe, Marina. Agora, o objetivo é ajudar na modernização da agricultura do DF, de empreendimento familiar à colheita familiar. De acordo com a Hanashiro, a agricultura da região deve investir em novas tecnologias, que otimizem as pequenas produções que crescem no espaço limitado do DF.

Ela destaca, ainda, que Brasília continua honrando a herança dos primeiros agricultores japoneses, com foco na produção de frutas. "Hoje, vemos várias frutas que não são do cerrado se destacando na agricultura familiar, com produção de blueberries, maracujá, morango e até uva. Produções que se tornam possíveis com investimento tecnológico e de produtividade", ressalta Cristiane.

Nascida na Asa Norte, a empresária defende que Brasília nunca deixou de ser a capital do progresso, como pode ser visto pela produção variada de produtos de alta qualidade, mesmo com uma terra escassa e árida. 

*Estagiário sob supervisão de Patrick Selvatti

 


Mais Lidas