O anseio de transformar um espaço visto como abandonado pela sociedade foi o ponto de partida do No Setor, movimento que surgiu em 2017. Com a intenção de entender e pensar a cidade, além de integrá-la com as pessoas que nela vivem, o instituto tem como objetivo ocupar o espaço urbano por meio de projetos de característica social, socioambiental e cultural, fazendo com que o centro de Brasília se torne cada vez mais democrático.
Rafael Reis, diretor-presidente do instituto, pondera que fazer a ocupação do Setor Comercial Sul é uma forma de ressignificar o olhar da cidade para o centro. "Precisamos mostrar que a área central de Brasília pode ser pulsante, vibrante e um espaço de encontro e celebração da cultura brasiliense, não um local de medo", declara um dos líderes do movimento.
"O centro de Brasília é uma área segura, de muita criatividade e potencialidade", continua Rafael. "Se a gente traz todo mundo e movimenta esse ecossistema, temos condições de competir com grandes centros do país. Hoje, Brasília é o terceiro maior adensamento urbano do país, ficando atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro", ressalta o diretor.
Ocupação
"Numa cidade que tem envelhecido e que temos cada vez mais problemas para ocupação nas entrequadras, por que o centro de Brasília não pode se tornar uma Lapa do Rio de Janeiro ou a Baixa Augusta de São Paulo?", indaga.
Nas redondezas da Rodoviária e de estações de metrô, trata-se de um centro que, inclusive, não é composto exclusivamente por moradores do Plano Piloto, pontua Rafael. "Eu brinco que a área central de Brasília é mantida por pessoas de todo o Distrito Federal. É gente de Planaltina, Recanto das Emas, Brazlândia, Guará que passa diariamente aqui, consome do comerciante, vai aos bares e restaurantes e ajuda a manter viva a cultura e manter vivo o Setor Comercial", aponta.
Em meio aos projetos do instituto, ele destaca o SCS Tour, que apresenta a região para o público que ainda não a conhece. "É muito interessante ver o olhar de surpresa quando descobrem que essa área abriga um dos maiores painéis de Athos Bulcão ou um prédio do Oscar Niemeyer. São vários elementos dessa Brasília que são conhecidos no mundo todo e que as pessoas não sabem que existem aqui também", enfatiza Rafael.
"A Brasília construída a partir do que o Lucio Costa e o Oscar Niemeyer apresentaram, o mundo todo conhece. Mas a capital real, de carne e osso, é muito complexa", avalia. "Ela parece, à primeira vista, uma cidade fria, fantasma, mas é apaixonante, feita de gente de todos os cantos do Brasil", descreve.
Muito trabalho
Apesar de hoje ser ocupado por escritórios de arquitetura, galerias de arte e casas noturnas, o Setor Comercial Sul ainda precisa de muito trabalho. "Quando a gente passava por aqui, via todas as lojas fechadas, com uma taxa de desocupação gigantesca. E ela ainda é enorme. Por isso, precisamos fazer a cidade acreditar no Setor Comercial — temos um monte de espaços a serem ocupados", incentiva o diretor.
Rumo aos 10 anos de movimento, o desejo do No Setor é que, na próxima década, a capital se torne um lugar verdadeiramente democrático, segundo Rafael. "Hoje, Brasília é uma das cidades mais desiguais do mundo, e essa desigualdade reflete em tudo. No acesso à educação superior, no mercado de trabalho, no acesso aos equipamentos culturais, nos produtos culturais…", lista.
"Então, o que o No Setor quer é que, daqui 10 anos, a nossa luta por uma cidade realmente democrática tenha sido alcançada. Que a capital seja um lugar onde as pessoas possam ter acesso à sala de cinema, ao teatro, a shows, à moradia e à alimentação de qualidade. E que isso não seja desfrutado só por uma camada da sociedade", almeja Rafael.
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